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Brexit e sistema eleitoral favorecem Johnson

Nas eleições britânicas da próxima quinta-feira joga-se não apenas a saída ou não do país da União Europeia (o chamado “Brexit”), mas também o futuro dos serviços públicos, em especial do Serviço Nacional de Saúde (NHS).
Boris Johnson no Conselho Europeu em outubro de 2019. Foto União Europeia.

As eleições da próxima quinta-feira, no Reino Unido, são as mais importantes dos últimos tempos. Nelas se jogará, não apenas a saída ou não do país da União Europeia (o chamado “Brexit”), mas também o futuro dos serviços públicos, em especial do Serviço Nacional de Saúde (NHS).

Os resultados eleitorais de 2017

Nas últimas eleições, os conservadores obtiveram 42,4% dos votos, que lhe valeram 318 lugares (um deles do ex-“speaker”, John Barcow, célebre pela sua forma peculiar de dirigir as sessões parlamentares, onde avulta o seu célebre grito “order”, que não se recandidata), a oito da maioria absoluta. Um revés face ao ato eleitoral anterior, em que conseguiram mais de metade dos lugares na Câmara dos Comuns.

Por seu turno, os trabalhistas obtiveram 40,0% e elegeram 262 parlamentares. Com esse resultado, ao arrepio de todas as sondagens, triunfaram inesperadamente em algumas circunscrições e evitaram a renovação da maioria absoluta dos “tories”.

Os liberais-democratas ficaram-se pelos 7,4% e apenas 12 eleitos. Uma pequena melhoria face às eleições de 2015, em que sofreram uma verdadeira hecatombe.

Por seu turno, o SNP, com apenas 3,0% a nível nacional, mas 36,9% na Escócia, elegeu 35 membros. Um resultado que reflete as perdas sofridas após o fracasso da opção independentista no referendo sobre a questão, realizado em 2014, e a impopularidade do ex-líder do governo autónomo, Alex Salmond.

O UKIP, que atingira os dois dígitos nas eleições anteriores, ficou-se por 1,8%. Sofreu, assim, uma copiosa derrota e não elegeu ninguém.

Entretanto, os Verdes, com 1,6%, registaram uma forte descida face a 2015, mas conseguiram reeleger a sua líder no círculo do Pavilhão de Brighton.
Por seu turno, 0,9% dos votos nacionais, fruto dos 36,0% obtidos na Irlanda do Norte, permitiram ao DUP eleger 10 deputados, um crescimento face ao ato eleitoral anterior.

Já os 0,7% do Sinn Féin, correspondentes a 29,5% no território, valeram-lhe uns históricos sete lugares. No entanto, por princípio, o partido abstém-se de os ocupar, por os seus parlamentares se recusarem a julgar lealdade à Coroa britânica.

Por seu turno, o Plaid Cymru obteve 0,5% dos sufrágios, correspondentes a 10,4% dos votos em Gales, e elegeu quatro representantes, mais um que anteriormente.

Outros partidos e candidatos independentes somaram, no conjunto, 0,8%, mas apenas uma candidata independente norte-irlandesa conseguiu ser eleita.

Conservadores: Johnson “à sombra” do “Brexit”

Dado o papel central que o “Brexit” tem tido na política britânica do último ano, com a rejeição, por parte do Parlamento, dos acordos negociados entre o governo de Theresa May (e, por último, entre o executivo de Boris Johnson) e a UE, que levou à dissolução da Câmara dos Comuns e à convocação destas eleições, não surpreende que a campanha seja dominada por este.

Essa centralidade do “Brexit” favorece o primeiro-ministro e os conservadores.

Não significa isto que a maioria da população voltasse a apoiá-lo num novo referendo, cujo resultado seria sempre muito incerto, mas a verdade é que uma parte significativa dos britânicos está farta da “novela” e quer ver a questão resolvida, de uma forma ou de outra.

E, aí, Johnson tem um trunfo: conseguiu uma versão melhorada do acordo com Bruxelas e prometeu que não haveria uma saída sem acordo (o chamado “hard Brexit”), que assustava muitos.

É certo que a palavra do atual líder dos “tories” não vale muito, já que, mesmo entre muitos dos seus correligionários, é visto como um aldrabão, capaz de dizer hoje uma coisa e amanhã o seu contrário.

Porém, o seu estilo populista dá-lhe algum carisma, que lhe pode permitir conquistar eleitores tradicionais dos trabalhistas, mas adeptos do “leave”. Estes poderão optar por Johnson, apenas para que este concretize a saída da UE. aquele segmento do eleitorado que acha essencial a concretização do “Brexit”.

Com os trabalhistas divididos na questão, como veremos dentro em pouco, os conservadores apostam no “Brexit” como tema de campanha, sabendo do desconforto do líder trabalhista face a ele, no que são ajudados pela comunicação social e pelos restantes partidos, “remainers” incluídos, que parecem só estar interessados em fazer dele o único tema destas eleições.

Até agora, as sondagens são-lhe simpáticas, atribuindo-lhe entre 41% e 44%, se excluirmos 1% correspondente à parte dos votos norte-irlandeses (um pouco mais de 2,5% no total) não incluídos nos inquéritos.

Labour: há mais vida para além do “Brexit”

Ao invés, o seu principal rival sente-se desconfortável com o tema. Apesar de o Labour ter, oficialmente, apoiado a opção “remain” no referendo, Jeremy Corbyn, da ala esquerda do partido, foi acusado por muitos de não se ter empenhado na sua defesa. No fundo, o atual líder trabalhista é um “brexiteer” moderado, que defende uma saída da UE com base num acordo que salvaguarde os direitos laborais dos trabalhadores, a livre circulação e as regras ambientais europeias. Contudo, a esmagadora do partido defende a permanência, pelo que Corbyn joga um difícil jogo de equilíbrio na questão.

Por isso, tenta levar a campanha para “outras águas”, onde se destaca a defesa do NHS. Construído no imediato pós-guerra, pelo governo trabalhista de Clement Atlee, com base no relatório Beveridge, baseia-se no modelo de universalidade e gratuitidade que inspirou, mais tarde, o SNS português. Os governos de Margaret Thatcher iniciaram uma fortíssima ofensiva contra ele, visando a sua desqualificação e o crescimento do negócio da saúde privada, algo que foi prosseguido pelos executivos seguintes, incluindo os de Tony Blair, mesmo que de forma menos ostensiva.

Apesar disso, a maioria dos britânicos defende o NHS e Corbyn tem tentado puxar o tema para o centro da campanha. Num debate, apresentou documentos que mostram a existência de negociações entre Johnson e Trump para o vender a grupos privados estadunidenses, algo que os conservadores se apressaram a desmentir. Porém, numa visita oficial a Londres, o presidente dos EUA foi explícito, afirmando que, após o “Brexit”, estaria disposto a comprar o NHS. E sabemos das relações próximas entre ele e o atual primeiro-ministro.

Em 2017, a estratégia de Corbyn, centrando a sua campanha na defesa dos serviços públicos, permitiu-lhe ter uma derrota suave, que retirou a maioria absoluta aos “tories”. Agora, volta a jogar a mesma “carta”, pugnando pela renacionalização de setores entretanto privatizados, como os transportes e os correios. Contudo, as circunstâncias são diferentes, não apenas porque foi o “Brexit” que levou à convocação destas eleições, mas também porque Boris é mais carismático que May, sendo capaz de atrair eleitores fora da base tradicional de apoio dos “tories”.

No fundo, a perspetiva do Labour é que “há vida para além do Brexit”, algo que é sublinhado por vários cidadãos em entrevistas a diferentes órgãos de comunicação social. Agora, resta saber se, na hora do voto, aquele não será determinante para a decisão de muitas pessoas, mesmo das que afirmam não ser aquela a sua maior preocupação. Se assim não for, talvez restem a Corbyn algumas esperanças, não de vitória, mas, pelo menos, de evitar a maioria absoluta dos “tories”.

Tal como sucedeu há dois anos, o partido tem vindo a subir nas sondagens, que lhe atribuem agora entre 32% e 35% dos sufrágios (com a mesma dedução aplicada aos “tories”, referente à Irlanda do Norte). Porém, a sua desvantagem face aos conservadores ainda é demasiado grande para permitir evitar a sua maioria absoluta nos Comuns.

Liberais-democratas: E para além do “remain”?

Para os liberais-democratas, o principal partido pró-UE do Reino Unido, a sua oposição ao “Brexit”, que pretendem reverter mesmo sem novo referendo, constituiu uma esperança de recuperar parte do eleitorado perdido e de captar os eleitores mais jovens, na sua maioria europeístas. E o certo é que, num primeiro tempo, viram a sua popularidade aumentar, em especial à custa dos trabalhistas, chegando quase aos 20% em alguns inquéritos de opinião.

Por isso, fizeram da defesa do “remain” o “santo-e-senha” da sua campanha. O problema é que, para lá dessa questão, o partido não aborda outros “temas fortes” na sua campanha.

E, em questões económicas e sociais, está, atualmente, mais próximo dos conservadores que do Labour, ao contrário do que aconteceu até à sua desastrosa coligação com os primeiros, entre 2012 e 2015. Por isso, não é fácil a transferência de votos destes para os trabalhistas e vice-versa. Inclusivamente, por essa razão, alguns eleitores dos Verdes sentem alguma relutância em dar o seu voto aos LibDem, mesmo nas circunscrições em que os ecologistas não apresentam candidatos e apoiam os liberais-democratas.

Além do mais, a sua líder, a escocesa Jo Swinson, é ainda pouco conhecida e não é muito carismática.

A campanha não lhes tem corrido bem e é possível que o partido acabe penalizado pelo “voto útil”, como veremos mais à frente. Para já, as sondagens atribuem-lhe entre 11% e 13% dos votos, mas a tendência é descendente.

Verdes: mais apoio na sociedade que nas urnas

Os Verdes britânicos situam-se mais à esquerda que a maioria dos seus congéneres europeus e são outro importante partido “remainer”.

Contudo, a persistência da questão do “Brexit” na campanha impede-os de tirar partido da mediatização da luta contra as alterações climáticas, que muito tem favorecido as formações ecologistas noutros países europeus.

Apesar do apoio que gozam em alguns setores da sociedade britânica, em especial junto do eleitorado mais jovem, os resultados nas urnas são, em geral, bastante residuais e inferiores aos valores expressos nos inquéritos de opinião, algo que resulta do sistema eleitoral e do “voto útil” nos trabalhistas e, em menor grau, nos liberais-democratas.

As sondagens atribuem-lhes valores na casa dos 2% e é previsível que nem sequer alcancem esse patamar. Provavelmente, voltarão a eleger a sua líder, Caroline Lucas, em Brighton, círculo onde, tal como em 2017, os LibDem não apresentam candidatura, mas mais ninguém.

Brexit Party: a aposta falhada de Farage em federar os “brexiteers”

Entretanto, Nigel Farage, fundador e antigo líder do Partido da Independência do Reino Unido (UKIP), principal vencedor do referendo de 2016, abandonou aquele e criou uma nova formação, o Partido do Brexit (BP).

Este pretende ser mais transversal que o seu partido de origem, filiado na direita radical, de forma a captar eleitores trabalhistas favoráveis ao abandono da UE, em especial nas áreas industriais e mineiras deprimidas do Centro e Norte do país.

Ao contrário de Johnson, Farage continua a ser favorável ao “hard Brexit” (saída sem acordo com a UE).

Nas europeias, com os conservadores “de rastos” e uma forte abstenção, foi a força política mais votada.

Agora, apesar de concorrer em menos de metade das circunscrições, para evitar dividir o voto “brexiteer”, as sondagens atribuem-lhe entre 3% e 4%. Contudo, deverá ser, igualmente, penalizado pelo “voto útil” nos conservadores, pelo que a sua percentagem de votos deverá ficar abaixo desses valores. Em todo o caso, não se prevê que elejam algum deputado.

UKIP: residual após deriva para a extrema-direita

Fundado por Farage, com o objetivo de forçar um referendo à permanência na UE, no final dos anos 90, o UKIP conseguiu o seu grande objetivo, após o inesperado triunfo do “Brexit” no referendo de 2016.

O seu líder e fundador deixou, então, a liderança, e o partido nunca mais se encontrou, “devorando” líderes uns atrás dos outros e deslizando para a extrema-direita.

Farage deixou o partido, que é, hoje, uma formação residual, a quem as sondagens não atribuem mais de 1%.

ICG: dissidentes “remainers” não vingam

Residual é, igualmente, o Grupo Independente de Crise (ICG), que resultou da confluência de deputados conservadores e trabalhistas dissidentes, todos favoráveis à manutenção do país na UE.

Estamos em presença de uma formação centrista, que se afirma defensora de uma economia social de mercado.

Concorreu às europeias, sob a designação de Change UK, mas os resultados foram fracos e alguns dos seus fundadores acabaram por ingressar nos liberais-democratas.

Liderados pela ex-deputada conservadora Anna Soubry, apenas concorrem em algumas circunscrições com as suas figuras de proa. Dificilmente alguma delas regressará ao Parlamento.

SNP: maioria reforçada na Escócia para novo referendo à independência

Os independentistas escoceses do Partido Nacional Escocês (SNP) são claros apoiantes da permanência na UE.

Para a primeira-ministra escocesa e líder do SNP, Nicola Sturgeon, a concretização do “Brexit” abre-lhe a possibilidade de exigir um novo referendo sobre a independência da Escócia, após a derrota do “sim” em 2014.

A verdade é que, no referendo de 2016, 64% dos escoceses votaram maioritariamente pelo “remain” e o SNP pensa que, caso uma Escócia independente possa permanecer na UE, a maioria votará a favor da opção independentista em nova consulta.

As sondagens dão-lhe um resultado à volta dos 4%, o que significaria um resultado na casa dos 46% na região. Porém, algumas agregam o SNP aos nacionalistas galeses, pelo que é de prever que, apesar de alguma subida face a 2017, o seu resultado ande pelos 40%, valor que lhes é atribuído pelo último inquérito de opinião referente à Escócia, correspondente a 3,5% a nível nacional.

Plaid Cymru: a força dominante entre os radicais “remainers” galeses

Ao contrário do que sucedeu em terras escocesas, em Gales, a maioria foi, tal como na Inglaterra, favorável à saída da UE, no referendo de 2016.

Além do mais, aí, o sentimento independentista é, claramente minoritário. O Partido de Gales, Plaid Cymru (PC) na língua galesa, a principal força independentista do território, anda, geralmente, entre os 10% e os 15% nas legislativas, atingindo, por vezes, os 20% nas regionais, mas não mais que isso.

Com o seu apoio à permanência na UE, numa região onde liberais-democratas e verdes são minoritários, o PC quer tornar-se a força dominante entre os radicais “remainers” e, a partir daí, consolidar as suas posições pró-independência entre o eleitorado descontente no pós-“Brexit”.

Nas sondagens, surge, frequentemente, acoplado com o SNP escocês. O último inquérito de opinião referente a Gales atribuía-lhe, aproximadamente, os mesmos 10% de há dois anos, o que representa 0,5% do voto nacional.

Irlanda do Norte: o princípio do fim do voto “tribal”?

Na Irlanda do Norte, a questão do “Brexit” provocou um “abanão” na habitual política de sectarismo interconfessional entre protestantes (favoráveis à permanência no Reino Unido) e católicos (defensores da reunificação com a República da Irlanda).

O “backstop”, que impede a reposição de uma fronteira física entre as duas entidades irlandesas, abolida após os “acordos de sexta-feira Santa”, que determinaram a partilha do poder entre as duas principais comunidades do território, foi o principal ponto de contestação da direita conservadora e unionista ao acordo assinado entre May e a UE e renegociado por Johnson em termos ligeiramente mais favoráveis para o Reino Unido.

No referendo de 2016, a maioria dos norte-irlandeses votou pela permanência na UE. Os partidos da comunidade católica, tanto o Sinn Féin (SF), da esquerda nacionalista irlandesa, como os social-democratas do SDLP, apoiaram o “remain”, juntamente com o Partido da Aliança (AP), uma formação liberal e teoricamente não confessional, mas cuja base de apoio se situa predominantemente entre os protestantes moderados, e o histórico Partido Unionista do Ulster (UUP), embora este último tenha mudado de posição, por se opor ao “backstop”. Também os Verdes, partido de caráter interconfessional, se juntaram aos “remainers”. A favor do “leave” estiveram os setores protestantes mais radicais, desde o maioritário Partido Democrático Unionista (DUP) às formações da extrema-direita.

A posição do SF é inteligente. Mesmo sendo crítico das políticas da UE, sabe que a questão divide a comunidade protestante, já que uma parte das suas elites é favorável á permanência. Espera, assim, que a possibilidade de continuar na UE possa levar esses setores a preferir juntar-se à República da Irlanda em lugar de continuar num Reino Unido que ficará de fora. O que não é líquido, dado o antagonismo secular entre as duas comunidades.

A última sondagem conhecida referente ao território prevê uma queda do DUP e do SF, que obteriam apenas 28% e 24%, com ambos a perder votos para o AP, que surge com 15%. Já o SDLP e o UUP, que perderam a representação parlamentar na última eleição, ficariam nos 12% e 10% de então, respetivamente. Os Verdes não passariam de 1%, mas outras forças políticas poderão somar, em conjunto, 10%. Entre elas, está o Aontú (Unidade), um novo partido católico pró-reunificação, mas antiaborto e socialmente conservador.

O papel do sistema eleitoral

No entanto, há algo em equação, que ainda não abordámos, mas que pode ter um papel fundamental no resultado da eleição e, consequentemente, no futuro do Reino Unido: o sistema eleitoral.

Com efeito, os 650 membros da Câmara dos Comuns são eleitos em círculos uninominais, num sistema maioritário a uma volta, o chamado “first past the post” (FPTP), em alusão às corridas de cavalos. Aí, só o primeiro vence, sendo o segundo o primeiro dos últimos.

Como se pode verificar, este sistema favorece os partidos de maior dimensão, que estão bem implantados em quase todo o país, como os conservadores e os trabalhistas, ou forças políticas com implantação forte numa dada área do território, como o SNP, o PC, o DUP e o SF, que conseguem uma representação parlamentar percentualmente superior ao seu peso eleitoral a nível nacional. Em contrapartida, desfavorece as formações mais pequenas e sem grandes bastiões eleitorais, como os liberais-democratas, os verdes, o BP, o UKIP e, mesmo, a AP, o SDLP e o UUP.

Por esse motivo, as percentagens reveladas pelas sondagens de âmbito nacional (que, em geral, excluem a Irlanda do Norte) podem revelar-se enganadoras. E isto dando de barato que elas correspondem à realidade, algo que não sucedeu, quer no referendo de 2016, quer nas eleições de 2017.

À primeira vista, o sistema eleitoral, na atual conjuntura, favorece Johnson e os conservadores. Sabendo que este dá vantagem às formações mais votadas, se considerarmos que o “Brexit” será determinante na escolha dos eleitores, o voto dos “leavers” tenderá a concentrar-se nos “tories”.

É certo que existe o BP, mas, pressionado pela direita “tory”, Farage aceitou não concorrer nos 317 círculos ganhos pelos conservadores em 2017, afirmando que o seu alvo são os trabalhistas “brexiteers”. Apesar disso, os seus votos poderão, teoricamente, impedir os “tories” de vencer em círculos mais renhidos. Mas é provável que, aí, a maioria dos seus potenciais eleitores acabe a votar nos conservadores, isto se o líder do BP não decidir retirar os seus candidatos no último momento.

Ao invés, no campo “remainer” (se aí incluirmos o Labour), as cosias são mais complicadas. É certo que os liberais-democratas e os verdes, juntamente com o Plaid Cymru, em Gales, fizeram um pacto pró-UE em 60 circunscrições. Assim, os menos votados abdicaram de apresentar candidaturas e apelaram ao voto no melhor colocado dos partidos “remainers” nesses círculos. Também acordaram em apoiar algumas figuras do ICG, que concorrem como independentes. Já na Escócia, a rivalidade entre os LibDem locais e o SNP, dada a oposição dos primeiros à independência da região, impediu a concretização de um acordo semelhante no território escocês.

Porém, não existe qualquer entendimento a nível nacional entre os liberais-democratas e os trabalhistas, uma vez que os primeiros não confiam em Corbyn, que acusam de ser politicamente um esquerdista demasiado radical e um “brexiteer” escondido, para além de, alegadamente, contemporizar com o antissemitismo no seio do seu partido.

Na verdade, do ponto de vista das políticas económicas e sociais, a atual liderança dos LibDem está mais próxima da ala moderada dos “tories” que do Labour. Por isso, em muitos círculos, a divisão do voto entre as duas formações vai originar o triunfo dos conservadores, mesmo que o seu candidato fique longe da maioria absoluta.

Já os Verdes, ideologicamente mais à esquerda, abdicam de apresentar candidatos nos círculos mais renhidos, apelando ao voto nos trabalhistas, em geral; nos liberais-democratas, onde estes tiverem hipóteses de vencer os “tories”; ou, mesmo, no SNP ou no PC, nas circunscrições escocesas e galesas onde aqueles estiverem melhor colocados para bater os conservadores.

Numa análise que fizemos dos resultados de 2017 nas 650 circunscrições, verificamos que, enquanto a maioria dos triunfos conservadores, em especial na Inglaterra rural, foram conseguidas com margens confortáveis, tal como os do Labour nas zonas urbanas mais pobres. Porém, uma parte significativa das vitórias trabalhistas noutras áreas foram obtidas por margens bastante escassas, o que significa que alguns dos seus lugares estão “presos por arames”. Logo, basta um ligeiro ganho dos “tories” ou uma descida do Labour, mesmo que os primeiros mantenham o seu “score” ou sofrem ligeiras perdas, para o lugar passar os conservadores.

Ou seja, ironicamente, a única forma de evitar o triunfo de Johnson e do “Brexit” é, nas circunscrições onde a disputa é mais cerrada, os eleitores “remainers” optarem por um “voto útil” nos trabalhistas em detrimento dos liberais-democratas, o principal partido pró-UE. Na verdade, só “esvaziando” os LibDem é que o Labour pode aspirar a um resultado semelhante ao de 2017 e impedir uma maioria absoluta “tory”.

Na Escócia, a situação é diferente. O SNP sofreu grandes perdas nas últimas eleições, embora tenha segurado 35 dos 59 lugares que cabem à região. Mas a verdade é que a maioria das suas vitórias forma muito apertadas, beneficiando da divisão do voto entre conservadores, trabalhistas e liberais-democratas. Contudo, tudo indica que os nacionalistas escoceses irão recuperar parte do eleitorado então perdido (muito dele para a abstenção) e poderão “roubar” vários lugares, tanto aos “tories” (que viram a sua líder local, a moderada Ruth Davidson abandonar a liderança pouco antes das eleições) como ao Labour, que deverá continuar em queda.

Em Gales, dos 40 lugares atribuídos à região, os trabalhistas conquistaram 28. Embora o Labour deva continuar a ser o maior partido em terras galesas, a verdade é que a subida dos conservadores pode levar à perda de vários mandatos em favor destes. Quanto ao Plaid Cymru, o mais provável é manter os seus quatro representantes, embora numa das circunscrições que ganhou em 2017, a sua vitória sobre os liberais-democratas tenha sido tangencial.  

Na Irlanda do Norte, onde estão em jogo 18 cadeiras, assiste-se a algo inédito, com o SF a aconselhar o voto no AP na circunscrição maioritariamente protestante de Down Sul, até agora detida pela independente Sylvia Hermon, uma personalidade moderada e opositora do “Brexit”.

É de esperar que o AP recolha alguns votos dos setores protestantes “remainers”, recuperando a representação parlamentar que perdeu em 2017, obtendo o lugar da ex-deputada independente e podendo ganhar um ou dois ao radical DUP, abertamente pró-“leave” e  feroz opositor do “backstop”.

Nos poucos círculos onde existe algum equilíbrio interconfessional, as alianças são as previsíveis. No círculo de Fermanagh e Tyrone Sul, no sudoeste, o DUP apela ao voto no UUP para reconquistar o lugar ao SF. Já no campo católico, o SF apela ao voto no SDLP em Belfast Sul para retirar o lugar aquele.

Uma possível ironia seria Johnson e os conservadores conseguirem, na prática, uma maioria absoluta que não obtiveram nas urnas devido à recusa dos eleitos do SF (em princípio, seis ou sete) em tomar os seus lugares em Westminster.

Tudo decidido ou uma surpresa de última hora?

Estas são as principais perspetivas para o ato eleitoral da próxima 5ª feira.

Se as sondagens estiverem certas e não houver deslocações de voto de última hora, Boris Johnson sairá reforçado e concretizará o “Brexit” no próximo dia 31 de janeiro, como previsto neste momento.

Porém, se, como em 2017, houver deslocações de voto de última hora, em especial nos círculos onde a disputa é mais cerrada, podemos assistir novamente a uma surpresa, ou seja, um novo Parlamento sem maioria e a incerteza face ao “Brexit”.

Um fator importante será a participação eleitoral. Os conservadores têm a sua base eleitoral entre os eleitores mais idosos, aqueles que mais votam. Ao invés, trabalhistas e, em especial, liberais-democratas e verdes têm maior implantação entre os mais jovens, que tendem mais a abster-se. Aliás, esse fator foi decisivo no referendo de 2016. Ou seja, para travar Johnson, o Labour e os partidos “remainers” necessitam de mobilizar o voto jovem, que lhes é mais favorável. O facto de se terem já iniciado as férias escolares pode ser um obstáculo a essa pretensão, pois muitos estudantes universitários estão recenseados na área em que estudam e não na da sua residência familiar.

Aguardemos, então, pela noite de quinta-feira. Conhecidos os resultados, cá estaremos para os esmiuçar.

Sobre o/a autor(a)

Professor. Mestre em Geografia Humana e pós-graduado em Ciência Política. Membro da coordenadora concelhia de Coimbra do Bloco de Esquerda
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