Com menos de cinco meses de mandato, o presidente Jair Bolsonaro enfrentou nesta quarta-feira 15 de maio os primeiros protestos nas ruas contra a sua política de cortes e bloqueios orçamentais anunciada recentemente. A dimensão das mobilizações surpreendeu até os mais otimistas: foi realizada a maior greve da educação de que há memória no país, que atingiu todas as universidades públicas, o ensino básico e secundário públicos, e até o ensino particular.
Pelas contas do portal G1, houve manifestações em mais de 220 cidades de todos os estados do país, sendo as do Rio de Janeiro e de São Paulo as maiores. É difícil contabilizar com rigor o número de manifestantes. Mas sem dúvida houve muitas centenas de milhar de pessoas nas ruas em defesa do ensino público, contra os cortes orçamentais que ameaçam paralisar as universidades e a investigação científica no país, e ainda contra reforma da Previdência.
Na história da República brasileira, desde 1889, nunca um presidente com tão pouco tempo de mandato cumprido atraiu tanta gente às ruas em protesto.
Ópera bufa
A jornada foi precedida por mais uma demonstração da incapacidade de governar do próprio Jair Bolsonaro. Na véspera, durante reunião com líderes de partidos tidos como “independentes” (PV, Pros, PSC, Avante e Cidadania) que ensaiavam aproximação com o governo, Bolsonaro ligou para Weintraub e ordenou o recuo e o fim imediato dos cortes. Os deputados saíram da reunião anunciando que já não havia restrições orçamentais à educação, para serem desmentidos mais tarde pela própria líder do governo que chamou o relato de deputados de "boato barato".
Um dos parlamentares presentes, Capitão Wagner, acusou: "tudo vira fake news quando tem contradição com o governo". O bate-boca era inevitável: o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, afirmou que os parlamentares que relataram o telefonema "entenderam algo completamente desconectado da realidade" ou tinham interesses políticos, irritando o próprio líder do PSL – o partido do presidente –, delegado Waldir, que estava presente na reunião.
No dia seguinte, o ministro da educação, Abraham Weintraub, disse que fizera Bolsonaro mudar de ideias.
“Idiotas úteis”
No próprio dia 15, Bolsonaro, de visita à cidade de Dallas, onde se dirigiu depois de desistir de ir a Nova York, não achou coisa mais inteligente para fazer do que acusar os manifestantes no Brasil de serem ignorantes: "A maioria ali é militante. Se você perguntar a fórmula da água, não sabe, não sabe nada. São uns idiotas úteis que estão sendo usados como massa de manobra de uma minoria espertalhona que compõe o núcleo das universidades federais no Brasil”, disse o presidente. O que ele foi fazer.
"H20, seu bocó", podia-se ler num dos inúmeros cartazes sobre o fórmula da água. Os insultos foram um incentivo às manifestações, e as do Rio de Janeiro e de São Paulo, já realizadas com a noite a cair, receberam um impulso extra. Diante do sucesso da jornada, já está marcado um novo protesto para o dia 30 de maio, ainda antes da greve geral de 14 de junho.
Ignorância e falta de memória
Jair Bolsonaro, que vem demonstrando um enorme desprezo pelas ciências humanas, parece sofrer de ignorância histórica e também de falta de memória. Porque ele já estava ativo na política quando os estudantes, de caras pintadas, foram a vanguarda da luta que acabou por derrubar Fernando Collor de Mello em 1992. Em 1982-3, quando os estudantes estiveram na vanguarda contra o presidente João Figueiredo, Bolsonaro já tinha 28 anos e andava a preparar uma tentado à bomba para reivindicar aumento de salários aos militares. Pelo menos desses dois episódios, mesmo ignorante de história, tinha a obrigação de se recordar e perceber que a pior coisa que podia fazer agora era afrontar os estudantes.