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Brasil: jornada de greve geral pelo direito à reforma

Greves e manifestações põem em causa a contrarreforma da Previdência (Segurança Social); relator da comissão parlamentar deixa cair propostas importantes para o governo como a privatização do sistema. Por Luis Leiria.
Manifestação no Rio de Janeiro no dia da greve geral.
Manifestação no Rio de Janeiro no dia da greve geral.

Foi uma jornada de greves que se estendeu, nesta sexta-feira 14, a todos os 26 estados da federação e o Distrito Federal, mobilizando milhões de trabalhadores em paralisações e protestos em pelo menos 189 cidades (dados do portal G1), podendo ter chegado a 380 (dados da CUT).

Desde manhã cedo, em 21 capitais, a greve fez-se notar pela adesão, total ou parcial, ao movimento dos trabalhadores dos transportes públicos. Noutras, houve bloqueios de ruas ou estradas por manifestantes.

A greve foi generalizada nas escolas e universidades, muito afetadas pelos cortes orçamentais do governo Bolsonaro, e foi mais forte nos serviços públicos e empresas estatais, como os trabalhadores da Petrobrás, mas também afetou o setor privado, como muitas fábricas metalúrgicas a interromper a produção e bancos a fecharem portas.

Manifestação em Porto Alegre no dia da greve geral.
Manifestação em Porto Alegre no dia da greve geral.

No final da tarde, ocorreram manifestações de protesto contra o projeto de emenda constitucional do governo que atinge gravemente o direito à reforma dos trabalhadores, a chamada Reforma da Previdência. Embora menores que as jornadas de dias 15 e 30 de maio contra os cortes na Educação promovidos pelo governo Bolsonaro, estas manifestações contaram com adesão significativa, com destaque para Belo Horizonte, Recife, Natal, Salvador, São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre.

Infelizmente, registaram-se alguns casos de violência policial, com a tropa de choque a atacar manifestantes com gás lacrimogéneo no Rio de Janeiro e em São Paulo. Em Niterói, uma professora que participava de um piquete de greve foi atropelada por um motorista que vociferava contra os grevistas.

Recuos na reforma da Previdência geram nova crise

Enquanto a greve decorria, o ministro da Economia, Paulo Guedes, criticava duramente o texto da contraproposta para a Reforma da Previdência apresentado pelo relator da comissão parlamentar especial formada para analisar o projeto do governo. “Se sair só esse corte que o relator acenou, o que ele está dizendo é: ‘abortamos a nova previdência e gostamos mesmo da velha previdência e cedemos ao lobby dos servidores públicos que eram justamente os privilegiados'”, afirmou o ministro.


Manifestação em Belo Horizonte no dia da greve geral.

O texto da contraproposta deixa de lado a capitalização da Previdência, ou seja, a privatização do sistema nos moldes do que foi feito no Chile de Pinochet, que se revelou uma catástrofe para os reformados daquele país. Também desfaz as alterações do BPC, um benefício de um salário mínimo (cerca de 250 euros) pago a idosos acima de 65 anos e deficientes em situação de miséria. O governo queria elevar a idade mínima para 70 anos. A partir dos 60, no entanto, os idosos poderiam receber o correspondente a cem euros. A contraproposta também retira as alterações à aposentadoria rural que Guedes queria impor. Mas mantém a elevação da idade mínima e do tempo de contribuição.

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, respondeu ao ministro da Economia, a quem acusou de estaar a ser injusto nas suas críticas, lembrando que foi o governo que se tornou numa “usina de crises”, e que “cada dia há um ministério gerando uma crise. Hoje, infelizmente, é o meu amigo Paulo Guedes, gerando uma crise desnecessária”. Maia observou que, sozinho, o governo teria 50 votos a favor da reforma, “e não a possibilidade de 350 que nós temos”.

Escândalo envolvendo a queda do 3º ministro?

Na véspera da greve, quinta-feira 13, caiu o 3º ministro do governo Bolsonaro. O ministro-chefe da Secretaria de Governo da Presidência da República, general Santos Cruz, foi demitido pelo presidente Jair Bolsonaro sem dar esclarecimentos e substituído pelo também general, mas na ativa, Luiz Eduardo Ramos.


O general Santos Cruz é o terceiro ministro demitido do governo Bolsonaro. Foto de Marcelo Camargo/ Agência Brasil.

Sabia-se que o general Santos Cruz fora afastado devido às pressões do autoproclamado filósofo e guru do presidente Olavo de Carvalho e dos filhos de Bolsonaro. Mas na noite de sábado começou a circular a notícia, atribuída a fontes militares, de que Santos Cruz foi demitido por ter rejeitado por duas vezes a luz verde a um projeto de produzir um programa de TV veiculado na EBC, TV Escola e em plataformas digitais do governo cujo protagonista seria o próprio Olavo de Carvalho, que receberia por isso a bagatela de 400 mil reais por mês (cerca de cem mil euros). Recorde-se que o guru, meses atrás, chegou a pedir apoio financeiro aos seus seguidores no Youtube, alegando despesas médicas. Mas, segundo o jornalista Gilberto Dimenstein, que investigou o assunto, o que se passou foi que Olavo sonegou impostos ao fisco dos Estados Unidos e resolveu socializar o prejuízo.

A atual política brasileira é fonte das mais inesperadas notícias todos os dias.

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Sobre o/a autor(a)

Jornalista do Esquerda.net
Termos relacionados Governo Bolsonaro, Internacional
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