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Brasil: Dilma à beira do abismo

Direita consegue realizar as maiores manifestações de rua da história do Brasil, pelo afastamento da presidente da República. Mobilização foi sobretudo da classe média, branca e de meia-idade. PMDB poderá abandonar o governo, passando a apoiar o impeachment. Manifestações em defesa do governo são dia 18. Por Luis Leiria.
Meio milhão de pessoas foram à avenida Paulista, em S. Paulo. Foto da Agência Brasil
Meio milhão de pessoas foram à avenida Paulista, em S. Paulo. Foto da Agência Brasil

As manifestações deste domingo no Brasil pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff foram as maiores realizadas no Brasil, tendo mesmo superado as jornadas das Diretas Já, que marcaram o fim da ditadura militar, em 1984. O somatório da participação popular nas mais de 300 manifestações em todo o país aponta para a ida às ruas de 3,6 milhões de pessoas, segundo os cálculos das Polícias Militares dos respetivos estados.

Na capital paulista, segundo o instituto Datafolha – que conta o número de participantes calculando os metros quadrados ocupados e as zonas de maior ou menor concentração de pessoas – foram à rua meio milhão de pessoas, que ocuparam de ponta a ponta a avenida Paulista.

Na capital paulista foram à rua meio milhão de pessoas, que ocuparam de ponta a ponta a avenida Paulista.

Isso significa que a participação popular nesta mobilização mais que duplicou a maior realizada até agora com o mesmo objetivo, que reuniu 210 mil pessoas em 15 de março do ano passado. A maior manifestação das “Diretas Já” em São Paulo reuniu 400 mil pessoas, segundo o mesmo instituto, em 16 de abril de 1984.

Dilma fora do governo, Lula na prisão, Moro herói

Tal como as mobilizações anteriores, as deste domingo foram convocadas pelo Movimento Brasil Livre e o Movimento Vem Pra Rua e, pela primeira vez, contaram com o apoio do PSDB, o maior da oposição, que pôs na televisão anúncios a convocar as manifestações. As confederações patronais também deram apoio oficial. As suas bandeiras foram a denúncia da corrupção, pedindo o afastamento (impeachment) de Dilma Rousseff e a sua prisão, bem como do ex-presidente Lula da Silva e apoiando, como herói popular, Sérgio Moro, o juiz que está à frente da Operação Lava Jato, que investiga a corrupção na Petrobrás. Mas entre as bandeiras estavam também a denúncia dos políticos como inerentemente corruptos e o apelo a uma intervenção militar, além da glorificação do Ministério Público e da Polícia federais. Tratou-se assim de uma manifestação da direita e de setores de extrema-direita, mesmo que muitos dos participantes apenas tenham comparecido pela justa vontade de combater a corrupção.

O senador Aécio Neves e o governador Gerlado Alckmin, do PSDB, foram vaiados e tiveram de abandonar a manifestação, apesar de o seu partido a ter convocado

Em São Paulo, a dinâmica de ódio aos políticos em geral levou a que os manifestantes vaiassem o senador Aécio Neves, do PSDB, candidato derrotado por Dilma Rousseff nas eleições de 2014, e o próprio governador de S. Paulo, Geraldo Alckmin, também do PSDB, que tiveram de se ir embora. Em contrapartida, na manifestação de Brasília, o deputado Jair Bolsonaro, de extrema-direita, não só participou sem problemas como discursou com insultos à presidente da República e com propostas como a posse da arma de fogo para “todo cidadão de bem”.

Classe média branca e universitária

O instituto Datafolha traçou também o perfil dos participantes na mobilização paulista e concluiu que foi a classe média branca, de formação superior e acima dos 35 anos que encheu a avenida Paulista.

A ausência de juventude é uma das características mais gritantes, num país com tantos jovens como o Brasil: 40% dos manifestantes tinha 51 anos ou mais, e 33% de 36 a 50 anos.

Por outro lado, os rendimentos dos participantes mostram a ausência do povo mais pobre: 26% dos manifestantes declaram um rendimento de 5 a 10 salários mínimos; 24% de 10 a 20 SM; 11% de 20 a 50 SM e 2% mais de 50 SM. Finalmente, 77% declararam ter formação superior e 77% disseram ser brancos.

À pergunta sobre “quem foi o melhor presidente do Brasil”, 60% responderam ter sido Fernando Henrique Cardoso. Quanto a opções políticas, 21% disseram ter preferência pelo PSDB, mas a maioria afirmou não ter preferência partidária. Finalmente, 96% são a favor da perda de mandato do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, e 98% avaliam o atual governo como “ruim” ou “péssimo”.

Governo mais fragilizado

O gigantismo das mobilizações deste domingo vai dar um novo impulso tanto ao processo de impeachment de Dilma Rousseff quanto à fragilização do governo. Reunido neste sábado em convenção nacional, o PMDB, o segundo partido do governo, depois do PT, decidiu adiar por 30 dias a decisão de se manter no executivo (tem 7 ministérios) ou de romper com ele. A voz das manifestações deve empurrar o “desembarque” do PMDB e a busca de estabelecer uma aliança com o PSDB para um futuro executivo.

Se o PMDB abandonar o governo, é mais provável que se reúna o número de deputados suficiente para aprovar o afastamento da presidente na Câmara dos Deputados

Caso Dilma seja afastada, manda a Constituição que assuma o vice-presidente, Michel Temer, que é do PMDB. Se o PMDB abandonar o governo, torna-se mais provável que haja o número de deputados suficiente para a aprovação do afastamento da presidente na Câmara dos Deputados, mesmo que não haja um verdadeiro crime de responsabilidade que lhe possa ser imputado.

Outra hipótese que a oposição de direita encara é a anulação das últimas eleições presidenciais pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), devido a financiamentos ilegais, através de caixa 2 (“saco azul”) às campanhas partidárias. Nesse caso seria necessário fazer novas eleições. Este processo porém, tem riscos mais elevados e demoraria mais tempo.

Outra proposta aventada seria mudar o regime para semiparlamentarista, mantendo-se Dilma na Presidência, mas com poderes apenas simbólicos, enquanto o verdadeiro chefe do executivo seria um primeiro-ministro.

Lula no governo?

A reação dos defensores do governo é a convocação de manifestações “contra o golpe” pela Frente Brasil Popular para a próxima sexta-feira nas capitais de estado. Mas, mesmo com o anúncio da participação de Lula da Silva na mobilização de S. Paulo, muito dificilmente esta chegará a números próximos às manifestações da direita. Isto porque a atuação do governo, desde que tomou posse, erodiu profundamente a sua base de apoio. O “ajuste fiscal” de Dilma Rousseff (o nome que lá se dá à nossa conhecida “política de austeridade”) significou a redução do subsídio de desemprego, justamente num momento em que os desempregados são cada vez mais e a taxa de desemprego está já próxima dos 10%, significou cortes nos orçamentos sociais e todo um conjunto de medidas contrárias aos trabalhadores.

A grande incógnita está na decisão que Lula irá tomar quanto ao convite de Dilma para que integre o seu governo como ministro. Até agora, ele tem recusado, mas poderá acabar por aceitar como medida desesperada para salvar o governo. A sua entrada poderia, porém, ser interpretada como uma fuga a ter de prestar contas aos juízes da Lava Jato, por passar a ter um estatuto de privilégio e só poder julgado pelo Supremo Tribunal federal.

A juíza Maria Priscilla Veiga Oliveira, do Tribunal criminal de S. Paulo, ainda não decidiu se aceita ou não o pedido de prisão do ex-presidente, requerido por procuradores do Ministério Público paulista, numa iniciativa quase unanimemente considerada como desastrada.

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Jornalista do Esquerda.net
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