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Brasil: Denúncia de Lula não apresenta novas provas

Coordenador da Lava Jato acusa o ex-presidente de ser o “comandante máximo” do esquema de corrupção na Petrobrás, mas não apresenta qualquer prova que sustente essa acusação. Powerpoint usado na conferência de imprensa já é motivo de piadas na Internet. Por Luis Leiria, do Rio de Janeiro.
O jovem Procurador Deltan Dallagnol, que se diz "seguidor de Jesus e Marido e Pai Apaixonado" mostrou-se desastrado a fazer 'powerpoints'. Foto: Fernando Frazão, Agência Brasil
O jovem Procurador Deltan Dallagnol, que se diz "seguidor de Jesus e Marido e Pai Apaixonado" mostrou-se desastrado a fazer 'powerpoints'. Foto: Fernando Frazão, Agência Brasil

O procurador Deltan Dallagnol, do Ministério Público Federal de Curitiba, afirmou nesta quarta-feira que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é o "comandante máximo do esquema de corrupção” instalado na Petrobrás, o chamado “Petrolão”. É a primeira vez que Lula é alvo de denúncia tão grave.

Na conferência de imprensa que foi transmitida em direto pelos canais de notícias da TV por assinatura, o jovem procurador, de 36 anos, que coordena a Operação Lava Jato falou extensamente sobre a vinculação de Lula ao esquema de corrupção que, segundo ele, movimentou 6200 milhões de reais em propinas (luvas) e instaurou no Brasil o regime que apelidou de “Propinocracia”.

Para sustentar as suas acusações, apresentou um extenso Powerpoint coberto de setas e gráficos. Mas a profusão de slides não apresentou evidências que suportassem a nova acusação. Pelo contrário: o que foi dito nada acrescenta ao que já fora avançado anteriormente e que Lula negou, com base em documentos.

A única acusação concreta do procurador – que se define a si mesmo no Twitter como “Seguidor de Jesus, Marido e Pai Apaixonado” – é a de Lula ter recebido das empresas de construção civil um apartamento triplex no litoral paulista, incluindo a sua reforma e decoração, e um contrato para armazenamento de bens pessoais. No total, disse Dallagnol, Lula teria arrecadado 3,7 milhões de reais, isto é, 0,05% do valor total que, segundo ele, a operação movimentou.

“Não temos como provar. Mas temos convicção”

A conferência de imprensa foi evidentemente concebida para ter um grande impacto teatral, mas acabou decorrendo em tom de farsa de má qualidade. O Powerpoint apresentado é confuso e mostra ter sido feito de forma pouco cuidada, pois está cheio de erros: “govenabilidade”, “proinocracia”, por exemplo. As acusações gravíssimas teriam de se basear em novas e contundentes provas; mas o procurador não consegue demonstrar nem a vinculação do ex-presidente ao “Petrolão”, nem sequer que Lula é o proprietário do famoso apartamento triplex. “Não temos como provar. Mas temos convicção”, acabou por confessar o procurador a um jornalista, já na fase de perguntas.

O já famoso slide culminante do 'powerpoint' de Dallagnol.

O slide culminante da apresentação de Dallagnol, que exibe um círculo de bolas com dizeres como “Governabilidade corrompida”, “expressividade”, “vértice comum”, “José Dirceu”, todas elas apontando para uma bola central onde está escrito “Lula” já se tornou motivo de piada e nas redes sociais multiplicam-se os “memes” que o ironizam.

Um dos muitos 'memes' criados para ironizar o slide do Procurador

A conferência de imprensa foi tão constrangedora que o mais reacionário colunista anti-Lula acusou o “espetáculo armado por Dallagnol” de colaborar com a defesa de Lula. “Ora, se Lula é o chefe da organização criminosa, que as evidências tivessem sido, então, apresentadas e a denúncia feita. A entrevista, sem a denúncia e as provas, abre o flanco para a defesa do ex-presidente fazer rigorosamente o que fez: acusar a mera perseguição”, lamentou Reinaldo Azevedo da Veja.

“Procurador esqueceu-se do principal: as provas”

O advogado Cristiano Zanin Martins, que defende o ex-presidente, disse que a "conduta política" de Dallagnol "é incompatível com o cargo de procurador da República e com a utilização de recursos públicos do Ministério Público Federal para divulgar suas teses", já que o procurador “'esqueceu' do principal: a apresentação de provas dos crimes imputados".

Os defensores de Lula voltaram a insistir que documentos divulgados pelo próprio ex-presidente provam que ele não é dono de nenhum apartamento no Guarujá, que jamais foi proprietário ou sequer dormiu uma noite nele.

Pelo Twitter, Lula comparou a acusação contra ele e a feita contra o ex-presidente Juscelino Kubitschek. "Curiosidade histórica: JK foi acusado de ser dono de imóvel em nome de amigo", diz o post.

Lula fora da corrida eleitoral?

A acusação segue agora para o juiz Sérgio Moro, que pode ou não aceitá-la. Seaceitar, Lula passa a réu e os crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro incorrem em penas que, somadas, podem chegar a 32 anos e seis meses de prisão; e, qualquer que seja o veredito, desde já põem em risco a candidatura de Lula às próximas eleições presidenciais de 2018. Salta à vista, aliás, o calendário escolhido para a nova denúncia: ela só foi feita após a perda de mandato de Eduardo Cunha, para evitar comparações incómodas.

Lula da Silva faz um pronunciamento público esta quinta-feira às 15 horas locais (19h em Lisboa).

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Jornalista do Esquerda.net
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