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Brasil: Cunha perde mandato de deputado

Ex-presidente da Câmara dos Deputados foi abandonado por quase todos os aliados e apenas dois deputados o defenderam. Processo durou 355 dias, durante os quais Cunha teve um papel determinante no impeachment de Dilma Rousseff. Por Luís Leiria, do Rio de Janeiro.
Foto de José Cruz/Fotos Públicas

Faltavam poucos minutos para a meia-noite quando a Câmara dos Deputados do Brasil votou esta segunda-feira (madrugada de terça em Portugal) a perda de mandato (cassação) do deputado Eduardo Cunha, ex-presidente da casa e que teve um papel decisivo para acelerar o processo do impeachment da presidente Dilma Rousseff. Foram 450 os deputados que votaram a favor da cassação, apenas 10 foram contra e nove se abstiveram. O relatório do Conselho de Ética, que foi aprovado, considerou provado que o parlamentar mentiu em 2015 ao afirmar à CPI da Petrobrás que não tinha contas bancárias no exterior. Ficou comprovado por farta documentação que controlava várias contas na Suíça.

Abandonado por quase todos

A defesa de Cunha insistiu na tese mirabolante de que não se trata de contas bancárias, mas de “trustes”. Só que, como apontou a acusação, os trustes eram administrados por Cunha, que era também o seu único beneficiário. Poucos deputados se mantiveram fiéis a Cunha até o fim. “Estive prestando a atenção e só cinco deputados foram cumprimentar o Cunha”, disse um deputado. Apenas dois parlamentares o defenderam na sessão.

Apesar de ter o seu mandato suspenso, Cunha teve o direito de comparecer ao parlamento e de se defender. O ex-presidente da câmara afirmou que a votação foi "puramente de natureza política" e relacionou as investigações contra ele ao pedido de impeachment de Dilma Rousseff, que Cunha aceitou quando era presidente da casa. "Esse processo de impeachment é que está gerando tudo isso. O que quer o PT? Um troféu, para dizer que houve um golpe”, afirmou.

Corrupção

A votação desta madrugada encerrou finalmente um processo que durou 355 dias. Mas a perda de mandato é apenas um primeiro passo das investigações do envolvimento com a corrupção do agora ex-deputado. Cunha é acusado pelo Ministério Público de ter recebido 1,3 milhão de francos suíços para viabilizar a aquisição de um campo de petróleo em Benin (África), pela Petrobrás, em 2011. As luvas teriam abastecido as suas contas secretas na Suíça, usadas, segundo o procurador-geral da República Rodrigo Janot, para custear luxos da família de Cunha. Há também acusações de benefícios ilegais recebidos no quadro de outras obras, como as do Porto Maravilha, no Rio de Janeiro.

No final da sessão, o ex-deputado anunciou que se dedicará a escrever um livro sobre os bastidores do impeachment de Dilma Rousseff. Resta saber se vai usar tudo o que sabe acerca dos seus ex-aliados, entre eles Michel Temer, para não afundar sozinho.

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