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Brasil: Bolsonaro provoca primeira grande crise de governo

Presidente dá cobertura ao filho Carlos, que acusou o ministro Bebianno de mentiroso. Ministro recusa-se a sair do governo e dá a entender que se for demitido pode prejudicar o próprio Jair Bolsonaro. Por Luis Leiria.
Gustavo Bebianno diz que presidente pode "levar respingos". Foto de José Cruz-Agência Brasil
Gustavo Bebianno diz que presidente pode "levar respingos". Foto de José Cruz-Agência Brasil.

Com apenas 45 dias de mandato, dos quais passou 18 internado num hospital, o presidente Jair Bolsonaro desencadeou esta quinta-feira a primeira grande crise do seu governo, ao desmentir e desautorizar publicamente Gustavo Bebianno, ministro da secretaria-geral da Presidência, um dos seus mais íntimos colaboradores.

Apesar de enxovalhado, Bebianno, que foi o coordenador da campanha de Bolsonaro à Presidência da República, decidiu manter-se no cargo, dizendo que antes de pensar em demissão iria falar com o presidente. E insinuou que o escândalo de desvio de dinheiro público que o atingiu poderia bem cair no colo do próprio Jair Bolsonaro.

Desvio de verbas para “laranjas”

Bebianno viu-se em maus lençóis por causa de uma investigação do diário Folha de S. Paulo que o envolveu num caso flagrante de desvio de dinheiro público do fundo partidário, que financia os partidos e suas campanhas, para candidaturas só de fachada, que no Brasil são conhecidas por “laranja”.

Assim, no dia 10, a Folha revelou que uma candidata a deputada do estado de Pernambuco, recebeu, quatro dias antes das eleições, 400 mil reais do fundo partidário, por decisão de Bebianno, que era então presidente do PSL. Apesar da enorme verba, a terceira maior recebida por um candidato do PSL em todo o país, a candidata Maria de Lurdes Paixão obteve apenas 274 votos. Pernambuco é o estado do deputado Luciano Bivar, que precedera Bebianno na presidência do partido e voltou ao cargo após a campanha eleitoral.

Na quarta 13, a Folha revelou ainda que Bebianno autorizou o envio de 250 mil reais do mesmo fundo para a campanha de uma ex-assessora, que repassou parte do dinheiro para uma gráfica sem qualquer capacidade técnica para impressões de grande tiragem.

Conversas desmentidas

A reação do ministro diante das denúncias foi negar a responsabilidade pela transferência das verbas para os “laranjas”, afirmando ter cuidado apenas da eleição presidencial. Querendo provar que estava forte e firme no cargo, o ministro garantiu ainda ter conversado várias vezes com Bolsonaro por telefone na segunda-feira.

O caso parecia já fadado a seguir os rame-rames de uma investigação inconclusiva, quando entrou em cena Carlos, o filho do presidente conhecido pelo 02, ou o pitbull. (O 01 é Flávio Bolsonaro, eleito senador, e o 03 é Eduardo Bolsonaro, mais virado para os contactos no estrangeiro e a diplomacia.) Carlos Bolsonaro, que é vereador do Rio de Janeiro, usou o Twiter para chamar Bebianno de mentiroso, dizendo que passou o dia ao lado do pai e não aconteceram as conversas alegadas pelo ministro. Seguindo o princípio “matar a cobra e mostrar o pau”, o pitbull divulgou um áudio em que um presidente Bolsonaro visivelmente sem paciência diz ao ministro que não poderá atendê-lo.

Até aí, ainda tínhamos apenas mais um episódio da disputa que vem ocorrendo entre Bebianno e Carlos Bolsonaro. Mas eis que o próprio Jair Bolsonaro retwita os posts do filho, dando aval às denúncias e, pouco depois, aparece numa entrevista à TV Record, gravada ainda antes dos twits, onde diz que, se comprovadas as denúncias, Bebianno teria de “voltar às origens”.

O episódio, que ainda não terminou, veio demonstrar que a família Bolsonaro, mesmo os seus filhos que não têm qualquer cargo, são muito influentes e funcionam em bloco. Bolsonaro pai já foi convidado várias vezes por colunistas da imprensa que lhe são simpáticos a “deixar cair” o filho Flávio, cada vez mais enrolado pelas denúncias de que mantinha um esquema de funcionários “laranja”, quando era deputado estadual, e com vinculações a milícias que atuam na periferia do Rio. Mas Bolsonaro nem quer ouvir falar nisso.

Quem é Gustavo Bebianno?

Advogado, Bebianno teve duas passagens por um dos maiores escritórios de advocacia do país, de Sérgio Bermudes, de quem é amigo, mas não foi na advocacia que ganhou fama e destaque profissional. Há dez anos, Bebianno vivia nos EUA, lutando jiu-jitsu e trabalhando como sócio de um integrante da família Gracie[1] numa academia.

É citado pelo site informativo The Intercept como tendo dito a seguinte pérola: “Eu não sei o que eu tô fazendo aqui, nunca me envolvi em política, não entendo nada de política, não tenho perfil político, sou um cara impaciente. Não era para estar aqui, não era para estar aqui. É inexplicável”.

Não sabe como foi parar lá, mas agora ameaça sair disparando para todos os lados. "Não sou moleque, e o presidente sabe. O presidente está com medo de receber algum respingo", disse o ministro em entrevista à revista Crusoé. E insistiu: "Todos nós voltaremos às nossas origens. As nossas origens estão no cemitério. O presidente não morrerá presidente. Muitas pessoas que se elegeram agora, eu não quero citar nomes, que também estão aí sob foco de investigações. Vamos ver, está certo? Eu sou homem, não sou moleque."


 

[1]Família de lutadores brasileiros de ascendência escocesa, originários de Belém e radicados atualmente nas cidades de Rio de Janeiro e São Paulo.

Sobre o/a autor(a)

Jornalista do Esquerda.net
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