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Brasil à beira do abismo

Com o impulso registado pelas últimas sondagens, existe o risco de o candidato da direita mais extremista, que defende o ideário fascista, vencer já na primeira volta. Mas como foi possível chegar a isto? Por Luís Leiria.
Brasil à beira do abismo
Foto de Tomaz Silva(Agência Brasil.

Há cerca de dois anos escrevi aqui no esquerda.net que o Brasil não é um país para cardíacos. Mal sabia eu que a procissão ainda ia no adro. As emoções fortes, que foram em crescendo, culminam neste domingo nas eleições mais importantes desde o fim da ditadura militar, nos anos 80, e que podem marcar o regresso ao poder da direita mais extremista, pondo na chefia do Estado e do governo um capitão reformado que não hesita em defender abertamente o ideário fascista.

A probabilidade de Jair Bolsonaro vencer à 1ª volta é menor do que a de haver um segundo turno das eleições presidenciais; mas ela existe e é palpável, é real. Nesta última semana as sondagens apontam para um crescimento do candidato da extrema-direita, enquanto o seu principal adversário, Fernando Haddad, que se beneficiou da transferência de votos do ex-presidente Lula da Silva, que continua preso, cresceu bastante menos, não conseguindo canalizar para si todos os votos que iriam para Lula se ele tivesse podido ser candidato. 

Para vencer no primeiro turno, Bolsonaro precisa obter 50% + 1 dos votos válidos, descontando os brancos e nulos. Pela sondagem do Datafolha divulgado neste sábado à noite, tem 40%, ainda distante, mas alcançável se conseguir capturar para o seu lado, na última hora, os votos do sentimento anti-PT que poderiam vir de Geraldo Alckmin, do PSDB, o candidato das elites que nunca descolou, de Meirelles, do PMDB, de Amoedo, do Novo, e até de Marina Silva, da Rede.

Precedentes

Das sete eleições presidenciais realizadas desde o fim da ditadura, apenas duas foram resolvidas logo no primeiro turno: as de 1994 e de 1998, ambas vencidas por Fernando Henrique Cardoso, que derrotou Lula da Silva com 54,2% contra 27% (1994) e 53% contra 31,7%. Em ambos os casos, FHC tirou partido da estabilização da moeda conseguida no Plano Real, lançado por ele quando era ministro da Fazenda de Itamar Franco.

Agora, porém, a eleição está muito polarizada e nessas ocasiões são mais difíceis as vitórias no primeiro turno. Seja como for, estamos diante de um facto contundente e inegável: há um contingente muito grande de eleitores disposto a votar num homem que tem ideias antidemocráticas, racistas, homofóbicas, misógenas, que defende mais violência para combater a violência, incluindo a facilitação do porte de arma, que faz a apologia da tortura e considera que o erro da ditadura militar instaurada em 1964 foi não ter matado mais, e que se propõe desencadear uma guerra contra os direitos dos trabalhadores e da população pobre (veja destaque). 

Apoio dos mercados e da IURD

Na reta final, o candidato da extrema-direita começa a acumular apoios, uns mais discretos e outros mais exuberantes. Os mercados já desde há umas semanas começaram a assinalar que preferiam Bolsonaro a Haddad, reagindo ao crescimento do primeiro com a euforia das bolsas de valores e da valorização do real frente ao dólar. 

O outro apoio exuberante foi do bispo Edir Macedo, da Igreja Universal, que sinalizou o voto em Bolsonaro aos evangélicos e pôs a sua rede Record de televisão ao serviço da campanha. No dia do último debate entre os candidatos, na rede Globo, Bolsonaro teve o desplante de não comparecer, argumentando indicações médicas; mas no mesmo horário foi ao ar uma entrevista que ele deu à Record, na sua casa, numa tribuna privilegiada de meia hora que fez subir as audiências da rede de Edir Macedo. 

Um “teto” sempre a subir

Muitos, à direita e à esquerda, subestimaram a capacidade de crescimento de Bolsonaro, apesar de este aparecer nas sondagens sempre em segundo lugar, atrás apenas de Lula. Ora como todos sabiam que a Justiça não deixaria que o ex-presidente, preso, se apresentasse às urnas, Bolsonaro era na verdade o líder isolado. A elite brasileira não morria de amores pelo imprevisível capitão, e esperava que o ex-governador de S. Paulo, Geraldo Alckmin, com quase metade do tempo de antena durante a campanha eleitoral, ultrapassaria o candidato da extrema-direita sem dificuldades. 

Mas a candidatura de Bolsonaro substituiu os 8 segundos de tempo de TV (contra 5 minutos de Alckmin) por uma competente atividade na Internet, que demonstrou a sua inegável preponderância e edicácia sobre os meios de comunicação tradicionais. Alckmin nunca descolou, defraudando as esperanças dos que apostavam num segundo turno sem a extrema-direita.

Analistas afirmavam que Bolsonaro tinha um teto que não conseguiria ultrapassar: primeiro seriam os 18%, depois os 22%. Quando o capitão reformado superou ambos, a teoria do teto desabou.

À esquerda, houve setores, como a candidatura de Guilherme Boulos, do PSOL, que priorizaram na sua campanha o combate à extrema-direita. Outros preferiram ignorá-lo ou até tratá-lo bem, de acordo com mirabolantes posicionamentos táticos.

#EleNão: unidade antifascista

Mas foram as mulheres brasileiras que tomaram a vanguarda da luta antifascista, ao lançar o movimento #EleNão, uma unidade surgida de baixo para cima, espontaneamente e como reflexo do crescimento do movimento feminista no Brasil. As posições misógenas do candidato de extrema-direita detonaram o movimento: Bolsonaro defende que as mulheres devem ter salários menores do que os homens porque ficam grávidas e ameaçou violar uma deputada, afirmando que só não o fazia porque era feia. Logo se incorporaram no movimento os negros, as povos originários, o movimento LGBT, todos alvo do discurso de ódio do capitão; e finalmente todos os brasileiros ciosos da defesa da democracia.

As manifestações de 29 de setembro, que levaram às ruas de 26 estados e do Distrito Federal (Brasília) mais de um milhão de pessoas, com as mulheres na liderança, foram um marco importante. Pela primeira vez a esquerda demonstrou capacidade para voltar a ter a hegemonia das ruas do Brasil. Não foi pouco. E a unidade antifascista, evidentemente, não se esgotou nesse dia – vai continuar.

Sondagens apontam para nova subida de Bolsonaro

A moralização e entusiasmo que tomaram conta da esquerda depois do dia 29 receberam um balde de água fria quando a sondagem do Ibope, e logo a seguir a do DataFolha registaram um novo crescimento de Bolsonaro e a estagnação de Haddad. Cabeças mais frias apontaram como causas desse crescimento a retomada da campanha do candidato – que ficara impedido de a fazer devido à facada que recebeu de um tresloucado – e ao apoio da principal liderança evangélica. O crescimento aconteceu, não por causa das manifestações #EleNão, como se apressou a dizer a imprensa, mas apesar destas. Sem elas, a subida de Bolsonaro poderia ter sido maior.

A prova disso é que continuam a ser as mulheres a garantir que Bolsonaro, tenha de disputar o segundo turno. Segundo a última sondagem do DataFolha, no segmento feminino que ganha até 2 salários mínimos, Bolsonaro perde para Haddad por 25% dos votos válidos, contra 32% do petista.

Ainda assim, os últimos dias introduziram na esquerda uma discussão bizarra sobre o voto útil, ou tático, no primeiro turno. Eleitores de Guilherme Boulos afirmando preferir votar em Haddad no primeiro turno, para assegurar a sua presença no segundo. Eleitores de Haddad defendendo o voto em Ciro Gomes, com o argumento de que este poderá mais eficazmente derrotar a extrema-direita no segundo turno. Acontece que no primeiro turno todos os votos que não sejam em Bolsonaro contam para evitar que este ganhe à primeira. E que a distância que já separa Haddad de Ciro (10 pontos) tornam quase impossível a ida de Ciro ao segundo turno. Se houver segundo turno, deverá ser entre Bolsonaro e Haddad. Até agora, as sondagens apontam para um empate entre os dois na eleição final. Mas o segundo turno é toda uma nova eleição, totalmente diferente do primeiro. Os candidatos têm tempo de antena igual, e será difícil a Bolsonaro escapar dos debates, prática que manteve até hoje.

Como se chegou a isto?

A sensação que temos é que um pesadelo mau tomou conta dos brasileiros e que em breve aquele povo generoso e alegre vai acordar e o sonho pavoroso se esvairá entre os meandros da memória. Mas não se trata de um sonho mau, ou seja, é um pesadelo, mas infelizmente é real. Como foi então possível chegar a este ponto, sendo Bolsonaro tão evidentemente despreparado para ocupar o cargo mais importante deste país continental?

O crescimento do apoio à extrema-direita é, em primeiro lugar, um resultado do fracasso dos governos do Partido dos Trabalhadores e da desilusão que eles provocaram. As esperanças de uma vida melhor que despontaram logo após a eleição de Lula e na sequência de algumas reformas dos seus governos, como o aumento do salário mínimo e a Bolsa Família, foram sepultadas pelos próprios governos petistas. Em vez de governar para e com os trabalhadores e o povo pobre que os elegeram, Lula, e depois Dilma, puseram em prática a política de fazer acordos com os partidos mais conservadores, com o PMDB de Michel Temer, sob o pretexto da governabilidade. Na ânsia de se manterem no poder, criaram esquemas de corrupção como o mensalão e o uso da Petrobras para financiar partidos, campanhas e criar fortunas pessoais.

Com isso, o PT foi se enfraquecendo face à sua própria base e perdeu aquilo que sempre fora a sua marca: a hegemonia das ruas, a confiança da maioria da classe trabalhadora e do povo pobre. Quando a elite do país se apercebeu que já não precisava do PT para governar, derrubou-o através do golpe parlamentar que foi o impeachment (afastamento) de Dilma Rousseff.

Pensavam que Temer poderia levar à frente todas as contrarreformas pretendidas, acabar com a Segurança Social, por exemplo, mas logo compreenderam que Temer era incapaz de o fazer a contento porque se tornou o governo mais impopular da história. E Lula preso, acusado de corrupção sem provas consistentes, tornara-se um mártir e voltou a despertar muita da simpatia que já perdera. O povo pobre, que não se mexera para defender o governo de Dilma, olhava para trás e via que os anos em que vivera melhor foram os de Lula na Presidência. Mesmo preso, Lula seria imbatível se pudesse concorrer. 

O golpe prosseguiu

O golpe que derrubara Dilma, porém continuou. O Judiciário brasileiro impediu Lula de aparecer na campanha de Haddad. Proíbe-o até de votar. Não autoriza que dê entrevistas à imprensa. A Folha de S. Paulo quis entrevistar o ex-presidente e foi proibida pelo vice-presidente do Supremo, Luiz Fux (nomeado por Fernando Henrique Cardoso), decisão confirmada por Dias Toffoli, o atual presidente do Supremo Tribunal Federal. Note-se que Dias Toffoli foi consultor jurídico na Central Única dos Trabalhadores de 1993 a 1994, assessor jurídico da liderança do Partido dos Trabalhadores na Câmara dos Deputados de 1995 a 2000, atuou como advogado de três campanhas presidenciais de Lula da Silva, que em 2009 o indicou para o Supremo. O mesmo juiz afirmou há dias que prefere se referir ao período de ditadura militar no Brasil como o "movimento de 1964”.

Entretanto, Bolsonaro, que é deputado federal desde 1991, vai no sétimo mandato mas posa de antissistema, montara uma equipa e candidatura sólidas, e crescia baseado no preconceito, no discurso do ódio e na defesa da violência, apresentada como melhor forma de garantir segurança. O seu símbolo de campanha é fazer com as mãos um gesto como se estivesse armado de pistolas.

Na última semana, observa o El País, quando ficou claro que Alckmin não tem mais qualquer hipótese de se impor, Bolsonaro foi de “outsider” a candidato do establishment.

Quem são os eleitores de Bolsonaro?

Um estudo do professor da Universidade de Caampinas Oswaldo E. do Amaral, diretor do Centro de Estudos de Opinião Pública (Cesop) da mesma instituição, mostra que a candidatura de Bolsonaro começou com um “núcleo duro” de apoio composto maioritariamente por jovens, homens, brancos, evangélicos e de maior nível de escolaridade. 

Por outro lado, e segundo o DataFolha, entre os eleitores que têm um rendimento superior a dez salários mínimos, Bolsonaro tem maioria absoluta: 53%, contra 12% de Haddad. Na base da pirâmide, porém, entre os que ganham até dois salários mínimos, é Haddad que lidera, com 28%. Bolsonaro tem 22% deste eleitorado.

Por regiões, Bolsonaro vence em todas menos no Nordeste, onde Haddad, herdeiro dos votos de Lula, tem 37% contra 20% do capitão na reserva. A região que mais vota no candidato de extrema-direita é a Sul (estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul), onde ele alcança 45%.

“Não queremos mais ditadura”

No último debate entre os candidatos à Presidência, Guilherme Boulos, candidato do PSOL, resumiu num discurso emocionado o que está em causa nas eleições deste domingo. Sem citar o nome de Jair Bolsonaro, Boulos aproveitou uma pergunta de Fernando Haddad sobre a retirada de direitos proposta pelo capitão para fazer o alerta: “O momento é grave. Estamos há meses em uma campanha marcada pelo ódio. Faz 30 anos que esse país saiu de uma ditadura. Muita gente morreu, muita gente foi torturada. Tem mãe que não conseguiu enterrar o filho até hoje. Faz 30 anos mas acho que nunca estivemos tão perto. Se estamos hoje discutindo o futuro do Brasil é porque gente derramou sangue para isso. Quando eu nasci o Brasil estava numa ditadura. Não quero que minhas filhas cresçam numa ditadura. Sempre começa assim. Acho que a gente tem que dar um grito, um basta: ditadura nunca mais!”.

Na madrugada de segunda-feira já saberemos se o pesadelo vence ou não.


Isto é Bolsonaro

“O erro da ditadura foi torturar e não matar.” (em discussão com manifestantes)

“Pinochet devia ter matado mais gente.” (Bolsonaro sobre a ditadura chilena de Augusto Pinochet. Disponível na revista Veja, edição 1575, de 2 de Dezembro de 1998 – Página 39)

“Seria incapaz de amar um filho homossexual. Prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí.” (Jair Bolsonaro em entrevista sobre homossexualidade na revista Playboy)

“Não te estupro porque você não merece.” (Jair Messias Bolsonaro, para a deputada federal Maria do Rosário)

“Eu não corro esse risco, meus filhos foram muito bem educados” (Bolsonaro para Preta Gil, sobre o que faria se seus filhos se relacionassem com uma mulher negra ou com homossexuais)

“A PM devia ter matado 1.000 e não 111 presos.” (Bolsonaro, sobre o Massacre do Carandiru)

“Não vou combater nem discriminar, mas, se eu vir dois homens se beijando na rua, vou bater.” (Afirmação de Jair Bolsonaro após ironizar FHC por este segurar uma bandeira com as cores do arco-íris)

“Mulher deve ganhar salário menor porque engravida” (Bolsonaro justificou a frase: “quando ela voltar [da licença-maternidade], vai ter mais um mês de férias, ou seja, trabalhou cinco meses em um ano”)

"Eu fui num quilombola em Eldorado Paulista. Olha, o afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada! Eu acho que nem para procriador ele serve mais. Mais de R$ 1 bilhão por ano é gastado com eles" (Em palestra no Clube Hebraica, abril de 2017).

“Fui com os meus três filhos, o outro foi também, foram quatro. Eu tenho o quinto também, o quinto eu dei uma fraquejada. Foram quatro homens, a quinta eu dei uma fraquejada e veio mulher. (Palestra no Clube Hebraica, abril de 2017).

“Deveriam ter sido fuzilados uns 30 mil corrutos, a começar pelo presidente Fernando Henrique Cardoso” (Em programa de TV, em maio de 1999).

“90% desses meninos adotados vão ser homossexuais e vão ser garotos de programa com toda certeza desse casal” (Em vídeo reproduzido no programa de Danilo Gentily, sobre adoção por casais gays).

“Não é questão de género. Tem que botar quem dê conta do recado. Se botar as mulheres vou ter que indicar quantos afrodescendentes” (Em entrevista em Pouso Alegre, questionado se aumentaria o número de mulheres no ministério, em março de 2018).

Sobre o/a autor(a)

Jornalista do Esquerda.net
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