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Brasil: Ana Júlia, uma voz do novo movimento estudantil

Vídeo do discurso de uma estudante de 16 anos na Assembleia Legislativa do Estado do Paraná, em defesa das ocupações das escolas e contra as medidas do governo Temer, é visto por milhões de pessoas em poucos dias. Há mais de mil escolas ocupadas em todo o Brasil. Por Luís Leiria, do Rio de Janeiro.
Ocupação do colégio estadual do Paraná em Curitiba.
Ocupação do colégio estadual do Paraná em Curitiba. Foto de Mariana Franco Ramos.

Ana Júlia Ribeiro, 16 anos, começou o discurso na Assembleia Legislativa mostrando alguma dificuldade para controlar a emoção. Mas a sua voz, no início trémula, foi ganhando firmeza e decisão à medida em que apresentava as razões dos estudantes que ocupam mais de mil escolas secundárias e outras instituições de ensino do estado do Paraná (com mais de 800 escolas ocupadas) e de outros estados do Brasil. 

“A quem a escola pertence?”, questionou, lembrando que o “rolo compressor” das reformas promovidas pelo atual governo vai atingir os seus filhos e netos. “A reforma na educação é prioritária, mas precisa ser debatida, conversada”, defendeu, referindo-se à reforma do Ensino Médio que foi decretada por Medida Provisória, um recurso que permite ao governo legislar passando por cima da Câmara dos Deputados. Sem perda de tempo, pois dispunha de apenas dez minutos, a aluna de uma escola pública de Curitiba criticou a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 241, que congela (de facto reduz) os gastos públicos com a Educação, saúde e todos os outros ítens sociais por 20 anos, e o movimento ultrarreacionário “Escola Sem Partido”: “querem transformar os estudantes num exército de não-pensantes, que ouvem e baixam a cabeça”.  Esse projeto “nos insulta, nos humilha”, denunciou, “nos fala que a gente não tem capacidade de pensar por si próprio. Só que a gente tem, e a gente não vai abaixar a cabeça.”

No momento mais tenso do discurso, Ana Júlia referiu-se à morte do estudante Lucas Eduardo Araújo Mota, esfaqueado por um colega dentro de um colégio ocupado, e que foi aproveitada pelo governador do Paraná para pressionar pelo fim de todas as ocupações: “Ontem eu estava no velório do Lucas e eu não me recordo de ter visto nenhum desses rostos aqui lá”, denunciou, referindo-se aos deputados estaduais no plenário. "O sangue do Lucas está nas mãos de vocês”, acusou, provocando um rebuliço, com o presidente da casa ameaçando cortar-lhe a palavra. Nesse momento a estudante manteve o sangue frio e ripostou à altura: “Eu peço desculpa, mas o ECA [Estatuto da Criança e do Adolescente] nos diz que a responsabilidade pelos nossos adolescentes, pelos nossos estudantes é da sociedade, da família e do Estado”, atalhou, aplaudida pelos estudantes que assistiam à sessão nas galerias.

Viralizou

O vídeo da intervenção de Ana Júlia, gravado pela própria TV da Assembleia Legislativa do Paraná, foi parar às redes sociais e teve sucesso imediato. Como é costume dizer-se nestas ocasiões, “viralizou”: só no Facebook da Mídia Ninja, na hora em que escrevemos, já fora visto 5,8 milhões de vezes. No Youtube, dezenas de versões do mesmo vídeo ostentavam dezenas e mesmo centenas de milhares de visualizações. No site dos Jornalistas Livres, a entrevista com a estudante e os seus pais, gravada após o discurso, estava com quase 180 mil visualizações.

"Eu estava com as pernas tremendo, achei que ia cair ali e não ia conseguir mais andar", recordou a estudante, entrevistada no dia seguinte pelo El País-Brasil. "É difícil falar em público né? E alguns públicos são mais difíceis que outros".

Ao Tribuna do Paraná, Ana Lúcia disse estar orgulhosa de saber que os estudantes se sentiram representados pela intervenção que proferiu, mas apressou-se a desvalorizar a sua liderança: “Não, pelo amor de Deus, não quero ser líder de nada. Temos que ir com calma. A pauta, o movimento é muito mais importante”, enfatizou.

Os alvos dos protestos

O detonador do movimento de protesto dos estudantes do Ensino Secundário foi a reforma decretada pelo governo Temer em 22 de setembro, mal tinha assumido. O diploma foi imediatamente criticado pela forma autoritária como foi imposto, sem passar sequer pelo Parlamento, e sobretudo pela ausência de qualquer debate com a comunidade escolar, os professores, os estudantes e os especialistas da educação. Uma das medidas mais polémicas da reforma é a que determina que as disciplinas de artes, educação física, filosofia e sociologia deixam de ser obrigatórias no Ensino Médio. A desvalorização das Humanidades foi de imediato relacionada com as propostas do ultrarreacionário projeto “Escola sem partido”, que despreza essas áreas do conhecimento. Outra crítica forte foi o aumento previsto da carga horária, no caminho da “escola em tempo integral”, sem a contrapartida de mais recursos para a educação pública. Para os professores brasileiros, que estão entre os mais mal pagos do mundo, a medida é vista como um prenúncio do aumento da precariedade.

A proibição do aumento do Orçamento para a educação é um ponto-chave da PEC 241, que introduz na Constituição a obrigatoriedade de congelar os gastos públicos de ano para ano, durante os próximos 20 anos, limitando-os estritamente à correção da inflação. Como esse congelamento não se estende ao pagamento da dívida pública, os resultados devastadores para o investimento do Estado nas despesas sociais é óbvio. A já apelidada “PEC do Fim do Mundo” foi aprovada em dois turnos pela Câmara dos Deputados e está agora no Senado, sendo previsível a sua aprovação. Reforma do Ensino Médio, projeto “Escola Sem Partido” e PEC 241 estão assim intimamente ligadas, como muito bem notou Ana Júlia Ribeiro no seu discurso.

Ocupações em todo o país

Um levantamento divulgado pela União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes) mostra que no dia 26 de outubro, havia 1.154 ocupações em escolas, institutos e universidades estaduais, federais e municipais. Depois do Paraná, onde estavam ocupadas 850 escolas estaduais, 14 universidades e três núcleos de educação, segundo o movimento Ocupa Paraná, vinham os estados de Minas Gerais, com mais de 50 instituições de ensino, Alagoas com pelo menos 16 unidades, seguida por Rio Grande do Norte, com 13, Santa Catarina, com 12, e Espírito Santo, 11, de acordo com um levantamento do portal G1. No Paraná realizou-se uma assembleia com a participação de representantes de mais de 600 escolas ocupadas, que aprovou uma lista de reivindicações, das quais se destacam: 

“1. Criação de um decreto que garanta a promessa do governo do estado que disse que irá vetar a aplicação da MP 746/2016 no Estado do Paraná.

2. Garantia da não criminalização e perseguição dos estudantes e professores durante e após as ocupações.

3. Garantia da realização de uma Conferência Deliberativa Estadual Livre e Aberta pela Reforma do Ensino Médio no estado do Paraná, para debatermos com toda a sociedade sobre a precarização do ensino e as condições das escolas publicas no Paraná, visto que, se não aceitamos a proposta de Temer, também não queremos que o governador decida sozinho sobre a reforma que queremos aqui no estado.”

Um novo movimento estudantil

A nova onda de ocupações de escolas, desta vez com o centro no estado do Paraná, é o ponto mais alto de um ascenso estudantil que já tinha surgido em S. Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e outros estados. Recordemos que no ano passado, entre 23 de setembro e 17 de dezembro, uma onda de ocupações de escolas do secundário enfrentou e derrubou o plano de reorganização escolar do Estado de S. Paulo, anunciado pelo governador Geraldo Alckmin. No seu ponto mais alto, foram 200 escolas ocupadas. Diante da súbita queda de popularidade provocada pela repressão feroz que se abateu sobre os adolescentes em luta, o governo preferiu recuar e o secretário de Educação Herman Voorwald renunciou ao cargo. 

O movimento estudantil brasileiro já desempenhou papéis muito importantes no Brasil. No derrube da ditadura militar instaurada em 1964, mais recentemente como principal protagonista do movimento que levou ao impeachment de Fernando Collor, gerações de jovens despertaram para a política e marcaram o curso da história do país. O atual movimento de ocupações de escolas mostra o surgimento de uma geração muito jovem que aprende os métodos coletivos de organização, a democracia das decisões, o espírito crítico e rebelde com rapidez e intensidade. Do alto dos seus 16 anos, Ana Júlia Ribeiro impressiona porque representa muito bem esta geração. Oxalá que volte a marcar a história do Brasil.

 

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Jornalista do Esquerda.net
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