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Brasil: 63% querem a renúncia de Temer e eleições

Sondagem realizada pelo instituto Datafolha indica que 63% dos brasileiros é favorável à renúncia do atual presidente Michel Temer
Temer, Presidente do Brasil
Presidente Temer, Beto Barata/PR - Agência Bras

Depoimento de executivo da Odebrecht compromete o presidente e os membros do seu círculo político mais próximo. Documento disseca o tráfico de influências reinante no Parlamento. Por Luis Leiria, do Rio de Janeiro.

Sondagem realizada pelo instituto Datafolha indica que 63% dos brasileiros é favorável à renúncia do atual presidente Michel Temer ainda antes de 31 de dezembro de 2016 e à realização de eleições diretas para a Presidência. Apenas 27% dizem ser contra, 6% declaram-se indiferentes e 3% não sabem.

A data de 31 de dezembro é importante porque caso uma eventual renúncia ou destituição ocorra depois dela, a substituição do presidente só poderá ser realizada através de uma eleição indireta no Congresso Nacional. Isto é, os “eleitores” serão senadores e deputados. Ora uma outra sondagem, do Instituto Paraná Pesquisas, mostra que 90,8% dos brasileiros prefere eleger o próximo presidente por eleição direta e não por votação do Congresso.

A sondagem do Datafolha revelou também que 51% dos brasileiros consideram a gestão de Temer ruim ou péssima, um crescimento considerável desde julho (eram 31%). O nível de aprovação (ótimo ou bom) caiu para 10%, inferior já ao de Dilma quando foi afastada do cargo (era 13%).

Começou o terramoto Odebrecht

A sondagem foi feita nos dias 7 e 8 de dezembro, e por isso ainda não reflete os efeitos da divulgação na íntegra do depoimento de Cláudio Melo Filho, ex-diretor de relações institucionais da empresa Odebrecht, que envolve Temer e o seu núcleo político na teia montada pela empresa para que fossem aprovadas leis ou emendas que a favorecessem. Este tráfico de influências é bem resumido no depoimento de Cláudio Melo Filho: “A minha empresa tem interesse na permanência desses parlamentares e na preservação da relação, uma vez que historicamente eles apoiam projetos de nosso interesse e possuem capacidade de influenciar os demais agentes políticos”.

A maior parte das vezes, afirma o executivo, tratava das questões com Romero Jucá, braço-direito de Temer. Jucá foi ministro do Planejamento do Brasil já nesta administração, tendo renunciado após a divulgação de uma gravação em que sugeria um "pacto" para “acabar com a sangria da Lava Jato”.

Manual de corrupção

Vale a pena ler o documento de 82 páginas que foi parar à comunicação social, e que poderá ser encontrado aqui. É um verdadeiro manual para se compreender como as leis que são aprovadas no Brasil refletem quase sempre os interesses das empresas, representados por deputados e senadores que, além de receberem luvas e ricos presentes, foram eleitos com a ajuda de contribuições encobertas dessas mesmas corporações.

O alto executivo da Odebrecht detalha o seu relacionamento com ministros e parlamentares, e as leis ou emendas em que estes atuaram a favor da Odebrecht.

Um dos pontos mais explosivos do depoimento é aquele em que é descrito um jantar-reunião que Cláudio Melo Filho teve com Temer e Eliseu Padilha (o atual ministro da Casa Civil) no próprio palácio da vice-presidência (o Jaburu), reunião à qual compareceu também o presidente e dono da empresa, Marcelo Odebrecht. Nela, Temer pediu, de forma “pessoal e direta”, 10 milhões de reais não declarados (a chamada ‘caixa 2’) para a campanha eleitoral do PMDB. Recorde-se que este partido tem a maior bancada do Congresso e presidiu, após as eleições, a Câmara dos Deputados e ao Senado.

Outra passagem de alto impacto é aquela em que Melo Filho afirma que Romero Jucá e o presidente do Senado, Renan Calheiros, intercederam para que fosse aprovada uma lei acerca das taxas sobre os lucros que as empresas exportadoras brasileiras deveriam pagar. “Posteriormente à tramitação da medida provisória, (…) recebi pedido do senador Jucá de pagamento em contrapartida à conversão em lei da MP 627. Novamente, como já tinha ocorrido em outras oportunidades, Romero Jucá falou em seu nome e em nome de Renan Calheiros. Ou seja, ambos seriam beneficiários dos recebimentos financeiros.” O pagamento, desta vez, foi de 5 milhões de reais.

No total, ao longo dos anos, Romero Jucá recebeu, de forma encoberta, cerca de 22 milhões de reais, afirma Melo Filho.

No seu depoimento são citados 51 políticos de 11 partidos, entre os quais o atual presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, o presidente do Senado, Renan Calheiros, o inevitável Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara dos Deputados, Moreira Franco, atual secretário executivo do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), Geddel Vieira Lima, ex-secretário do Governo Temer, que renunciou recentemente. Também é citado Jacques Wagner, ex-governador da Bahia pelo PT e ministro de Lula e de Dilma Rousseff.

Noutra delação premiada de um executivo da Odebrecht, divulgada pela Folha de S. Paulo, o envolvido é o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, do PSDB, que teria recebido financiamento eleitoral de “caixa dois” da empresa, pago em dinheiro vivo, nas campanhas de 2010 e de 2014. Na primeira, o pagamento seriam dois milhões de reais e na segunda um valor não determinado.

Estas são apenas as primeiras delações de executivos da Odebrecht, empresa de construção que fechou com os juízes da Lava Jato um acordo envolvendo quase 80 depoimentos, incluindo o do próprio Marcelo Odebrecht, que é aguardado com ansiedade. O empresário está preso há 1 ano e meio e precisa de entregar à Lava Jato muita informação para se ver livre de uma boa parte da sua pena de 19 anos e meio de prisão.

Os depoimentos têm de ser validados pelo juiz do Supremo Tribunal que acompanha o caso, e por enquanto o que se sabe é fruto de fugas de informação. Mas já é suficiente para se duvidar que o governo Temer sobreviva por muito mais tempo.

Nova acusação a Renan Calheiros

Já nesta segunda-feira, o presidente do Senado, Renan Calheiros, foi denunciado pela Procuradoria Geral da República ao STF por lavagem de dinheiro e corrupção num caso relacionado à Lava Jato.

Se o Supremo aceitar a denúncia, Calheiros se torna réu em dois processos.

Renan Calheiros vira decretada na semana passada a sua saída da presidência do Senado por um juiz do STF, em decisão preliminar, mas essa decisão foi derrubada no plenário da entidade. Até ao plenário, Renan Calheiros teve de fazer alguma ginástica para se esquivar do oficial de justiça que o queria notificar que tinha de deixar o cargo. O plenário do Supremo optou por uma decisão conciliatória: Renan pode continuar presidente do Senado, mas não poderá nunca substituir o Presidente da República, por ser réu.

A nova denúncia contra Calheiros torna a sua situação ainda mais insustentável. Quase tanto quanto a de Temer.

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