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Boris Johnson: a remodelação do apartamento, as festas e o custo de vida

Nos últimos dias foram conhecidas mensagens do primeiro-ministro britânico a pedir dinheiro a um financiador do seu partido para remodelar o apartamento e soube-se de mais uma festa organizada em Downing Street na altura em que estavam proibidas. Somadas ao aumento do custo da energia, deixam o governo em maus lençóis.
Boris Johnson numa conferência de imprensa sobre a Covid. Foto de Number 10/Flickr.
Boris Johnson numa conferência de imprensa sobre a Covid. Foto de Number 10/Flickr.

O caso da remodelação milionária do apartamento privado do primeiro-ministro britânico em Downing Street parecia ter sido definitivamente ultrapassado pelo das festas organizadas em tempo de confinamento obrigatório, que por sua vez ia perdendo força nos noticiários dado o número de contágios da variante Ómicron da Covid-19 no Reino Unido. Agora, ressurgem os dois com força para deixar Boris Johnson sob ataque. Ao mesmo tempo que a subida do custo da energia o faz enfrentar críticas até do seu próprio campo político.

O caso do apartamento nasce porque David Brownlow, um financiador do partido conservador, tinha avançado com cerca de 135.000 euros para as obras de remodelação. E só depois do assunto ter chegado aos jornais é que o primeiro-ministro reembolsou a verba. Um inquérito do conselheiro independente de ética tinha chegado à conclusão de que não tinham sido cometidas quaisquer ilegalidades. Ainda assim, Christopher Geidt escreveu que o primeiro-ministro “agiu insensatamente”. E o “donativo” valeu ao Partido Conservador uma multa de mais de 21 mil euros aplicada pela Comissão Eleitoral britânica por não ter declarado a entrada do dinheiro, o que foi considerada “uma falha grave”.

Mas em seguida ficou a saber-se que esta investigação não tinha tido acesso às mensagens de WhatsApp trocadas entre ambos. Johnson desculpou-se de não ter entregue as mensagens alegando ter trocado de telemóvel. Mas a oposição não perdoou. Angela Rayner, do Labour, declarou que se trata de “corrupção pura e simples” se se confirmar qualquer tratamento especial a Brownlow. Wendy Chamberlain, dos Liberais Democratas, chama-lhe “o último capítulo do escândalo” e afirma que a desculpa do primeiro-ministro por não ter revelado as mensagens “é equivalente a 'o cão comeu os meus trabalhos de casa'”.

Nas mensagens em questão, Boris Johnson pergunta ao lorde Brownlow se a designer de interiores Lulu Lytle o pode contactar “para aprovações”, ou seja, pede-lhe mais dinheiro, e acrescenta como post-scriptum que está a par da “grande exposição”, um projeto no qual este participava através do Royal Albert Hall, do qual é dirigente, que pretendia reproduzir uma exposição famosa acontecida em Hyde Park em 1851. Brownlow responde a agradecer-lhe e, segundo registos oficiais, seis semanas depois, encontra-se com o secretário da Cultura Oliver Dowden para discutir este evento.

Johnson salienta que a ideia não avançou e que, em 2022, o que vai acontecer afinal é o Festival UK, uma ideia que chegou a ser conhecida como o Festival do Brexit quando primeiro foi apresentada por Theresa May.

As festas de Downing Street

Para além do conhecimento destas mensagens de WhatsApp, os últimos dias acrescentaram mais um embaraço para o primeiro-ministro britânico. Foi revelada este fim de semana a existência de mais uma festa em Downing Street durante o tempo em que as reuniões sociais estavam proibidas. Segundo três fontes diferentes consultadas pelo Sunday Times, o secretário principal do chefe do executivo, Martin Reynolds, enviou os convites para uma festa “bring your own bottle”, isto é em que cada pessoa deverá trazer o que quer beber, com “distanciamento social”. O próprio primeiro-ministro terá estado neste evento ocorrido em 20 de maio de 2022 e que terá juntado perto de 40 pessoas.

A 15 de maio de 2020, um outro encontro social, uma “festa de vinho e pizza”, terá ocorrido nos jardins de Downing Street, como testemunha uma foto de Boris Johnson e da sua equipa, sentados numa mesa guarnecida de vinho e de queijos.

A dirigente trabalhista Angela Rayner também critica o Governo pela “cultura de total desrespeito pelas regras” que “parece ter estado embebida na vida de Downing Street desde o início da pandemia”. E acrescenta “quando grande parte do país enfrentava prateleiras vazias e um confinamento total sem serem permitidos encontros, parece que o Nº10 [gabinete do primeiro-ministro] organizava festas” e, por isso, “Boris Johnson e a sua equipa tomavam o país por parvo”.

A lista de festas é grande e foi sendo conhecida aos poucos, prolongando as críticas de hipocrisia ao longo dos tempos. O Guardian elenca, para além destas duas, que a 13 de novembro, na altura do segundo confinamento, foram ouvidos por várias fontes sons de festa e música alta provenientes do apartamento de Boris Johnson no que seria uma festa de despedida de alguns membros do seu gabinete. A 27 de novembro, outra festa de despedida terá ocorrido e uma fonte do jornal britânico diz que Johnson este presente e fez um discurso. A 10 de dezembro terá sido a vez do secretário de Educação Gavin Williamson fazer uma festa na cantina do seu departamento. Uma semana depois foi organizado um “quiz” pelo secretário do gabinete Simon Case com bebidas e snacks. No dia seguinte aconteceu a festa de Natal de Downing Street, ainda com os eventos sociais oficialmente proibidos, que terá contado “várias dezenas” de pessoas. Um outro “quiz” de Natal aconteceu no dia 15, tendo sido convidados todos os que trabalham no Nº10. Houve quem tivesse entrado pela aplicação de conferência de vídeo Zoom, mas muitos estiveram presencialmente e foi também publicada uma foto de Boris Johnson participando. Decorre uma investigação pública sobre estes casos para determinar se foram quebradas as regras do confinamento.

Energia e custo de vida aumenta

Com o aumento do custo de vida a fazer-se sentir na bolsa dos cidadãos, nem só de indignação moral se faz a oposição a Boris Johnson. Os preços da eletricidade e do gás estão em alta e é esperado que subam até 50% em abril. E vários deputados conservadores têm criticado o primeiro-ministro por não querer baixar o IVA relativo ao aquecimento das casas. Também no campo trabalhista se exige esta medida, bem como uma subida de 10% dos impostos sobre combustíveis fósseis - que seria utilizada para ajudar os lares mais carenciados - e uma alteração de regras que permitiria a mais pessoas recorrer a apoios para pagar o aquecimento das suas casas.

Em abril aumentarão também os pagamentos para a Segurança Social de trabalhadores dependentes, independentes e patrões, com a criação de uma taxa extra devido à pandemia, o que é igualmente criticado.

Para além de declarações de deputados do seu partido, o primeiro-ministro enfrenta igualmente editoriais e títulos nada favoráveis em meios de comunicação que lhe são habitualmente favoráveis, como o Sun, o Express, o Daily Mail e o Daily Express.

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