You are here

Bolsonaro promove desfile militar em dia de votação crítica

O presidente brasileiro está em campanha contra o voto eletrónico acusando sem provas este sistema de ser fraudulento. No dia em que a questão chegou à Câmara dos Deputados, promoveu um inédito desfile militar acusado de ser intimidatório.
Fumo a sair dos veículos no desfile militar promovido por Bolsonaro. Foto: Pedro França/Agência Senado.
Fumo a sair dos veículos no desfile militar promovido por Bolsonaro. Foto: Pedro França/Agência Senado.

Antes de acontecer era já acusada de ser uma forma de instrumentalização das forças armadas e um ato intimidatório face à separação de poderes. Deveria ser, claramente, uma demonstração de força.

Mas a parada militar patrocinada pelo presidente brasileiro em dia de votação na Câmara dos Deputados sobre o voto impresso acabou por ser tudo menos isso.

Jair Bolsonaro, em baixo nas sondagens, decidiu fazer da campanha pelo voto impresso contra o voto eletrónico em vigor desde 1996, uma espécie de cópia por antecipação das manobras de Trump quando perdeu as eleições presidenciais norte-americanas. Com ela, faz o discurso do golpe eleitoral e semeia suspeição sobre as eleições.

Na manhã desta terça-feira, 40 veículos da Marinha, blindados, camiões e jipes desfilaram durante dez minutos no Palácio do Planalto em Brasília. A vê-los desfilar, para além do presidente e vários ministros, estavam os comandantes dos três ramos das Forças Armadas, Paulo Sérgio (Exército), Almir Garnier (Marinha) e Carlos de Almeida Baptista (Força Aérea). Também estavam algumas dezenas de apoiantes bolsonaristas que gritavam em apoio a um golpe militar. E não passou despercebido o fumo que saiu de algumas das viaturas, gerando piadas e memes nas redes sociais.

Para além da iniciativa ter dividido as suas hostes e gerado fortes críticas da oposição, Bolsonaro acumula derrotas institucionais sobre a questão do voto impresso. A justiça eleitoral abriu, por unanimidade um inquérito para analisar as alegações presidenciais de que o Tribunal Superior Eleitoral está em conluio com o seu rival Lula para cometer fraude nas próximas eleições. O seu presidente, Luís Roberto Barroso, apresentou mesmo uma queixa-crime contra Bolsonaro. Para além do Tribunal Superior Eleitoral, também o Supremo Tribunal Federal não lhe tinha dado razão e tinha declarado a impressão do voto inconstitucional. Ao que o presidente do Brasil respondeu que “um ou dois juízes do Supremo Tribunal Federal não vão decidir o destino de uma nação”, tendo já ameaçado de que as eleições marcadas para 2022 podiam não acontecer se a decisão não fosse revertida.

Na Câmara dos Deputados, o dia da parada militar saldou-se por mais uma derrota. Bolsonaro teve a maioria dos votos, com 229 votos a favor da sua proposta, 218 contra e uma abstenção. Mas a aprovação do projeto, que foi apresentado como uma emenda à Constituição, dependia de ter pelo menos 308 votos em 513. 65 deputados estiveram ausentes.

Segundo Arthur Lira, presidente da Câmara e aliado de Bolsonaro, aquele “prometeu respeitar a decisão do plenário dos deputados”. Pelo menos para Lira, a questão está arrumada: “a democracia do plenário (…) deu uma resposta. E na Câmara eu espero que esse tema esteja encerrado”.

O presidente, é claro, tratou de contradizer estas promessas depois da votação. Manteve que "não se vai confiar nos resultados das eleições” e justifica que a derrota parlamentar apenas acontecer por medo de “retaliação” e “chantagem” supostamente por parte do presidente do Tribunal Supremo Eleitoral.

Termos relacionados Internacional
(...)