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Bolsonaro faz o partido do “três oitão”

Presidente lança o Aliança pelo Brasil, um novo partido para onde irão passar os seus defensores incondicionais, saindo do PSL. A nova formação política adotou o número 38, o calibre do revólver mais popular do país. Não foi por acaso. Por Luis Leiria.
Nome do novo partido formado por cartuchos de balas. Partido do "três oitão".
Nome do novo partido formado por cartuchos de balas. Partido do "três oitão".

No Brasil, todos os partidos são identificados por um número. O PT é o 13, o PSDB é o 45, o PSOL, o 50. O presidente Jair Bolsonaro resolveu escolher o 38 para o seu novo partido, o Aliança pelo Brasil, que foi formalmente lançado numa convenção realizada quinta-feira 21 em Brasília. O número evoca o calibre do revólver mais popular do Brasil, conhecido como “três oitão”.

É preciso reconhecer que “partido do três oitão” é uma alcunha adequada para a formação política que será presidida pelo próprio Bolsonaro e que terá como um dos seus princípios mais importantes “o direito inalienável” de todos os brasileiros possuírem e portarem armas, e o “direito à legítima defesa”.

Guerra no PSL

Bolsonaro desfiliou-se do PSL, partido pelo qual se elegeu presidente da República, na semana passada. A saída já vinha a ser antecipada depois que se tornou pública a guerra que estava a dividir as fileiras do partido. O clã Bolsonaro tentou, sem sucesso, afastar o presidente do PSL, o deputado Luciano Bivar, e assumir o controlo – o que significava tomar conta das verbas que o partido recebe do Estado brasileiro, através do fundo partidário. Como o PSL passou, nas últimas eleições, de um partido “nanico” para o detentor da segunda maior bancada da Câmara dos Deputados, com 52 parlamentares, a verba a que tem direito para financiar as suas atividades passou de 8,2 milhões de reais no ano passado, para cerca de 103 milhões em 2019.

A disputa mostrou mais uma vez que Jair Bolsonaro e filhos só sabem conviver com quem os apoia incondicional e acriticamente, e têm muito pouco traquejo, ou sequer paciência, para transitar dentro de máquinas partidárias. Prova disso é a saída do PSL, deixando atrás alguns dos principais quadros partidários, como a deputada federal Joice Hasselmann, líder do governo no Congresso, ou o líder do PSL na Câmara de Deputados, Delegado Waldir, que chegou a chamar o presidente de “vagabundo”. “Ele queria a chave do cofre, que é a chave do fundo partidário”, acusou Waldir, referindo-se ao presidente da República.

Projeção feita pelo jornal O Globo prevê que 26 dos 53 deputados federais do PSL devem acompanhar o presidente para o Aliança pelo Brasil, 27 devem permanecer e dois ainda não decidiram.

Legalização pode demorar

De qualquer forma, a saída dos deputados e senadores fiéis a Bolsonaro não será de imediato. Por um lado porque o novo partido ainda não está legalizado, e por outro porque há regras duras para os deputados que mudem de partido que, a não serem cumpridas, podem ter como consequência a perda do mandato.

Bolsonaro na convenção de lançamento do novo partido. Foto de António Cruz, Agência Brasil
Bolsonaro na convenção de lançamento do novo partido. Foto de António Cruz, Agência Brasil

Para se legalizar, um partido precisa apresentar 500 mil assinaturas em pelo menos nove diferentes estados. As assinaturas têm de ser certificadas em cartório. Inicialmente, Bolsonaro pensava resolver toda essa burocracia com uma aplicação de telemóvel. Mas, para isso, teria de ser autorizada a assinatura digital, e não parece provável que o Tribunal Superior Eleitoral o faça. Como a legalização do “três oitão” teria de estar pronta em março para poder disputar as eleições municipais de 2020, Bolsonaro já aventa a hipótese de só ter o partido legalizado para as eleições de 2022.

Partido do clã e dos incondicionais

A composição da direção não esconde que o novo partido é, acima de tudo, do clã Bolsonaro. O presidente nacional é Jair Bolaonaro; o primeiro vice-presidente é o seu filho mais velho, o senador Flávio Bolsonaro. Outro filho, Jair Renan, estudante de 21 anos, foi anunciado como vogal.

Na comissão executiva provisória foram incluídos os dois advogados eleitorais de Bolsonaro, Admar Gonzaga, que é ex-ministro do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e será secretário-geral, e Karina Kufa, tesoureira.

Nos fundamentos do programa apresentados na convenção, pode-se ler: “o partido se esforçará para divulgar a verdade sobre os males e os crimes das mais variadas faces do movimento revolucionário, como o socialismo, o comunismo o nazifascismo e o globalismo. Ideologias nefastas que tanto mal causaram e ainda causam ao Brasil”.

Um destaque do lançamento do novo partido foi um quadro em que o nome do partido é formado por cartuchos de balas.

“O novo partido de Bolsonaro, a Aliança, terá o número 38, o mesmo do revólver. Eles definitivamente querem montar um partido miliciano. Trata-se de uma aliança para o atraso, com traços de fascismo e saudades da ditadura”, escreveu o líder do PSOL na câmara dos Deputados, Ivan Valente.

Sobre o/a autor(a)

Jornalista do Esquerda.net
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