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Bolsonaro faz crise política subir de patamar

Presidente do Brasil participa e discursa em manifestação contra o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal, e pelo fim das medidas de contenção para combater a pandemia da Covid-19. Por Luis Leiria.
Bolsonaro discursa em manifestação que pediu intervenção militar diante do Quartel-General do Exército. Foto de reprodução de vídeo.
Bolsonaro discursa em manifestação que pediu intervenção militar diante do Quartel-General do Exército. Foto de reprodução de vídeo.

A crise política instalada no Brasil subiu mais um degrau neste domingo quando o presidente Jair Bolsonaro compareceu a uma manifestação de algumas centenas de seguidores que pediam a intervenção militar, o encerramento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal e “um novo AI-5”, em referência ao Ato Institucional nº5, de 1968, que representou um endurecimento da ditadura militar instaurada em 1964. Os manifestantes pediam também o fim do isolamento social, a reabertura do comércio e das escolas.

A manifestação ocorreu no dia do Exército brasileiro e, depois de uma carreata em Brasília, os manifestantes concentraram-se diante do edifício do Quartel-General do Exército em Brasília, sem qualquer preocupação de distanciamento. Muito poucos usavam máscara. Bolsonaro apareceu e discursou em cima de uma carrinha de caixa aberta. Não havia palco nem sistema de som. Mas a intenção era deixar o recado: “Nós não queremos negociar nada. Nós queremos ação pelo Brasil”, afirmou o presidente, insistindo que não há mais lugar para a “velha política”. E prosseguiu: “Acabou a época da patifaria. É agora o povo no poder. Mais que direito, vocês têm a obrigação de lutar pelo país de vocês”.

Os manifestante gritavam palavras de ordem como: “Intervenção militar já”, “Fora (Rodrigo) Maia" (em referência ao presidente da Câmara dos Deputados); “AI-5”. As faixas seguiam a mesma tónica: pelo encerramento do Congresso e contra o Supremo Tribunal Federal.

Caravanas da morte”

Noutros estados foram organizadas carreatas a favor de Bolsonaro e pela retomada de atividades económicas interrompidas por governadores e presidentes de câmara, como forma de combater o avanço da pandemia. Todas elas seguiram a tónica de atacar o Congresso Nacional e o STF e pedir uma intervenção militar. Mas nenhuma destas “caravanas da morte” reuniu mais do que algumas centenas de manifestantes.

A crise começou quando Bolsonaro, no meio de muitos ziguezagues, se envolveu numa campanha para acabar com o isolamento social, reabrir comércios e escolas e “voltar à normalidade”, num momento em que a pandemia da Covid-19 cresce aceleradamente no país. Os últimos dados indicam que o Brasil tem 38.654 infetadas com o novo coronavírus, tendo ocorrido até agora 2.462 mortes. Mas os números oficiais estão muito abaixo da realidade, porque os testes para confirmar a contaminação chegam a demorar 20 dias para ficar prontos. A argumentação do presidente é de que a pandemia está a ser exagerada (já lhe chamou de “gripezinha”) e que vão morrer mais pessoas devido à interrupção das atividades do que pela doença.

Maior isolamento

A posição de Bolsonaro ampliou o isolamento político em que já se encontrava, levando-o ao confronto com a maioria dos governadores dos Estados – incluindo os de São Paulo e do Rio de Janeiro, que apoiaram a sua eleição –, com os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado e até com o seu próprio ministro da Saúde. A demissão de Luiz Henrique Mandetta ocorreu na última quinta-feira, e o seu sucessor, Nelson Teich, um médico que faz consultoria sobre saúde para empresas privadas do ramo, não parece estar à altura da responsabilidade. A sua tentativa de conciliar o fim do confinamento pedido por Bolsonaro com o combate à pandemia não augura nada de bom.

Segundo uma sondagem do DataFolha realizada na última sexta-feira, 68% dos entrevistados dizem acreditar que ficar em casa para conter o vírus é mais importante, ainda que isso prejudique a economia e gere desemprego.

Reações

As reações de repúdio à atitude de Bolsonaro vieram ainda no domingo. Juízes do Supremo, como Marco Aurélio Mello, Luis Roberto Barroso e Gilmar Mendes publicaram notas nas redes sociais repudiando a defesa da intervenção militar. Também se manifestaram os ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e Lula da Silva. Vinte governadores assinaram uma carta em defesa do Congresso e contrária às manifestações recentes de Bolsonaro.

“A mesma Constituição que permite que um presidente seja eleito democraticamente tem mecanismos para impedir que ele conduza o país ao esfacelamento da democracia e a um genocídio da população”, escreveu Lula da Silva.

Fora Bolsonaro

Em nota divulgada no site do partido, Juliano Medeiros, presidente do PSOL, afirmou o repúdio do seu partido “à presença de Bolsonaro no ato de hoje. Essa provocação soma-se a outras tantas e comprova que ele não tem mais condições de seguir governando. É preciso que Bolsonaro deixe o poder imediatamente, pelos meios constitucionais disponíveis, para que o Brasil não siga sob as ameaças de um genocida”.

Para o PSTU, “Bolsonaro não só se omite em relação à pandemia, mas hoje é o principal agente de disseminação do vírus no país, lutando contra as parcas medidas de quarentena. O partido defende que tirar Bolsonaro do poder é a principal urgência, “para evitar um genocídio e para impedir um autogolpe mais adiante”.

Até ao momento em que escrevo este artigo, não é conhecida qualquer posição assumida pelos militares. Mas parece muito difícil que não o façam, depois de terem recebido este desafio direto por parte dos bolsonaristas.

Crimes de responsabilidade

Só a participação de Bolsonaro na manifestação deste domingo já fornece material mais que suficiente para um impeachment. É crime de responsabilidade pedir o encerramento do Congresso Nacional e do STF e uma intervenção militar. É certo que no seu discurso Bolsonaro não mencionou aquelas instituições, mas é igualmente verdade que incentivou os manifestantes, sem se demarcar deles em qualquer aspeto.

Por outro lado, o desprezo em relação às recomendações da Organização Mundial de Saúde, com a participação numa aglomeração de centenas de pessoas, significa um incentivo a que a população desrespeite as medidas de contenção levadas a cabo pelos governadores.

E isto no momento em que a Covid-19 cresce descontroladamente no Brasil, e que a capacidade do Serviço Único de Saúde está a esgotar-se, como já ocorre no estado do Amazonas e pode acontecer em breve no Ceará, em Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo.

Estes crimes dão mais que base ao impeachment do presidente. Mas não é certo que já haja uma maioria de deputados e senadores suficiente para afastar Bolsonaro.

Sobre o/a autor(a)

Jornalista do Esquerda.net
Termos relacionados Governo Bolsonaro, Internacional
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