You are here

Bolsonaro enfrenta os primeiros “panelaços” de repúdio

Sondagem mostra que caiu abaixo dos 30% o apoio ao governo e que 64% estão insatisfeitos com o comportamento do presidente em relação à crise do coronavírus. O filho do presidente abriu uma crise diplomática com a China. Por Luis Leiria.
Dizeres contra Bolsonaro projetados em fachadas de prédio durante o "panelaço". Foto Mídia Ninja
Dizeres contra Bolsonaro projetados em fachadas de prédio durante o "panelaço". Foto Mídia Ninja

Um vigoroso protesto contra o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, tomou conta da maioria das capitais de Estado no Brasil e muitas cidades do interior, na tarde e na noite desta quarta-feira. No dia anterior já ocorrera um “panelaço” em pelo menos cinco cidades. Os brasileiros, muitos em casa, de quarentena devido à epidemia de covid-19, bateram panelas, buzinaram, gritaram contra Bolsonaro e até projetaram dizeres anti-presidente em fachadas de prédios. Foram os primeiros “panelaços” que tiveram como alvo o atual presidente do Brasil. Convocado pelo próprio Bolsonaro, um “panelaço” a seu favor foi “tímido”, na definição da Folha de S. Paulo.

Os “panelaços” foram uma das armas favoritas do movimento da direita pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff em 2016.

Nesta quinta-feira foi divulgada pelo El Pais uma sondagem que comprova a insatisfação da maioria dos brasileiros (64%) em relação à forma como Bolsonaro tem se comportado face à crise do coronavírus. Pela primeira vez desde há muitos meses, a percentagem de aprovação de Bolsonaro ficou em 25,6%, abaixo dos 30% que mantinha regularmente, enquanto a desaprovação, que tinha caído, voltou a subir para os 41%. Ao mesmo tempo, as expectativas positivas em relação ao futuro da economia inverteram-se e agora 49,7% afirmam que vai piorar. E regista-se praticamente um empate entre os que são contra o impeachment (45,2%) de Bolsonaro e os que são a favor (44,8)%.
 

Gota d’água?

Os sucessivos zigue-zagues com que Bolsonaro vem gerindo a crise do coronavírus podem ter sido a gota d’água que o fará dar um trambolhão. Há uma perceção no Brasil de que a crise vai ser muito grande e que o sistema de saúde não está preparado para ela. E está a crescer a consciência das medidas que são necessárias para impedir que a epidemia no Brasil não atinja proporções catastróficas.

No meio disso, o presidente comporta-se como uma criança mimada, que um dia afirma que a crise provocada pelo covid-19 é uma fantasia, para em seguida afirmar, envergando uma máscara, que a epidemia é séria e que desconvoca manifestações a favor do seu governo para evitar a expansão da doença, e logo depois participar na manifestação que tinha desconvocado, rompendo com as indicações do seu ministro da Saúde que lhe prescrevera uma quarentena, e cumprimentando centenas de adeptos seus. Na segunda-feira ainda falava de “histeria” em relação à doença e anunciava uma festa de comemoração do seu aniversário para o próximo sábado, mas na quarta-feira apareceu de novo de máscara, numa tentativa de emendar a mão e anunciar medidas contra a pandemia, numa encenação feita à pressa e que teve aspetos ridículos, como quando Bolsonaro, querendo ajustar a máscara, a pôs sobre os olhos.

Toda esta trajetória inconstante, cheia de reviravoltas, mostrou que do presidente nada se pode esperar em termos de liderança para combater a crise provocada pela pandemia. Bem pelo contrário.

A BBC Brasil ouviu algumas profissionais de saúde que mostraram a sua deceção diante das atitudes do presidente. “Eu fui me dececionando com ele gradualmente desde a eleição, mas para mim a gota d’água, como profissional de saúde, foi ver ele apoiando os protestos do dia 15", disse a cirurgiã Juliana Pacheco, de 35 anos. “Muitas pessoas ainda têm receio de aderir às medidas sanitárias de urgência porque ele criou essa narrativa de que não é nada demais, de que é histeria. Porque apesar de ele negar, ele incentivou sim, quando foi lá e quando disse que o povo é valente (por ir às ruas). Ele debochou dos médicos e da saúde pública”. Como esta cirurgiã, que votou em Bolsonaro, muitos terão deixado de o apoiar nestas semanas de março.

Nesta mesma quarta-feira, ficou a saber-se que dois ministros que participaram na recente viagem de Bolsonaro aos EUA se infetaram com o covid-19: o general Augusto Heleno, do Gabinete de Segurança Interna e Bento Albuquerque, do Ministério de Minas e Energia. Com estes, subiu para 17 o número de integrantes da comitiva que contraíram a doença. Bolsonaro afirma que os dois testes que já fez deram negativo.

Crise diplomática com a China

A imagem de irresponsabilidade do pai Bolsonaro reflete-se também no filho Eduardo, responsável pela nova crise entre o Brasil e a China, ao escrever o seguinte no Twitter: “Quem assistiu “Chernobyl” vai entender o q ocorreu. Substitua a usina nuclear pelo coronavírus e a ditadura soviética pela chinesa. Mais uma ditadura preferiu esconder algo grave a expor tendo desgaste, mas q salvaria inúmeras vidas A culpa é da China e liberdade seria a solução”, escreveu Eduardo no Twitter. O filho 03 retwittou também um post que afirma: “A culpa pela pandemia de Coronavírus no mundo tem nome e sobrenome. É do Partido Comunista Chinês”.

Yang Wanming e Bolsonaro: relação azedou. Foto de Fórum Brasil-China
Yang Wanming e Bolsonaro: relação azedou. Foto de Fórum Brasil-China

Foi imediatamente repudiado pelo embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, que não poupou palavras: “A parte chinesa repudia veementemente as suas palavras, e exige que as retire imediatamente e peça uma desculpa ao povo chinês. Vou protestar e manifestar a nossa indignação junto ao Itamaraty e a Câmara dos Deputados”, reagiu, também no Twitter. E acrescentou: “As suas palavras são um insulto maléfico contra a China e o povo chinês. Tal atitude flagrante anti-China não condiz com o seu status como deputado federal, nem a sua qualidade como uma figura pública especial. Além disso, vão ferir a relação amistosa China-Brasil”, acrescentou.

Diante do silêncio de Bolsonaro, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, pediu desculpas pelo post de Eduardo:

“Em nome da Câmara dos Deputados, peço desculpas à China e ao embaixador @WanmingYang pelas palavras irrefletidas do Deputado Eduardo Bolsonaro”, escreveu, acrescentando: “A atitude não condiz com a importância da parceria estratégica Brasil-China e com os ritos da diplomacia. Em nome de meus colegas, reitero os laços de fraternidade entre nossos dois países. Torço para que, em breve, possamos sair da atual crise ainda mais fortes”.

A China é o principal parceiro comercial do Brasil. Em 2019, exportou 224 mil milhões de dólares e importou 177 mil milhões, com um superávit de 46 mil milhões de dólares.

Sobre o/a autor(a)

Jornalista do Esquerda.net
Termos relacionados Internacional
(...)