Bolseiros acusam ministro de viver “numa realidade alternativa”

03 de February 2019 - 12:42

Manuel Heitor, ministro do Ensino Superior, afirmou na passada sexta-feira que há pleno emprego entre os doutorados. Os bolseiros e investigadores não gostaram e responderam-lhe numa carta aberta. Consideram as declarações “uma afronta” aos desempregados e precários do Ensino Superior.

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Foto de Paulete Matos

A carta foi redigida pela ABIC, Associação de Bolseiros de Investigação científica, e está aberta à subscrição das pessoas do setor. Os termos são duros: Manuel Heitor é acusado de viver “numa realidade alternativa àquela que tutela” e de confundir o prognóstico “com o final do jogo”, uma apreciação ilustrada com números: dos cinco mil contratos para doutorados prometidos pelo governo apenas foram formalizados até agora 1500.

Os signatários sentem-se ofendidos com as declarações sobre o “pleno emprego entre os doutorados” feitas na passada sexta-feira pelo Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino ao jornal Público. Estas são “uma afronta”: a quem espera “mais de dois anos” para que os concursos abram, a quem espera “há muitos meses pelo início do seu contrato já ganho” e a quem se encontra ainda desempregado.

A ABIC especifica. Recorda que os resultados do Concurso Estímulo ao Emprego Científico Individual de 2017 “ainda não são conhecidos” e que o número de vagas do concurso de 2018 “é muito inferior ao que é expectável”. Relembra também que 40% das vagas para o Concurso Institucional servem afinal para pagar parte do salário de professores e não para a investigação. Sublinha que nesta legislatura abriu apenas um concurso de Projetos de I&D e que os doutorados a contratar no âmbito desse tipo de projetos “ainda não assinaram contrato”.

Para além disto, o PREVPAP no setor do Ensino Superior estará longe de poder ser considerado um sucesso com a taxa “a rondar os 8%”. Considera-se que isto “deveria envergonhar” o ministro que “prefere ficar do lado das instituições, a quem a precariedade serve, em vez de resolver definitivamente o problema dos trabalhadores científicos”.

Os subscritores da carta aberta resumem esta situação dizendo que Manuel Heitor “não respondeu com seriedade às perguntas” porque há doutorados sem qualquer emprego, há doutorados com bolsas para doutorados ou para mestres sem perspetiva de passarem a contrato e há doutorados com bolsas à espera de um contrato que tarda em sair.

Também os Precários Inflexíveis reagiram a esta entrevista no mesmo tom. Consideram a declaração de Manuel Heitor “ofensiva” para com “os mais de 3.500 doutorados que concorreram em fevereiro de 2018 ao concurso da FCT para contratos de trabalho (...) e que tiveram a sua candidatura recusada” e “insultuosa” para quem “continua a trabalhar com uma bolsa de investigação” ou está no desemprego. Os PI julgam que este discurso está “completamente deslocado da realidade” considerando, por isso, que o ministério devia mudar de designação para “Ministério da Ficção Científica”.