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Bloco da Trofa denuncia que Câmara gastou 75 mil euros com chamadas para concurso

Os Santeiros do Coronado foram eleitos uma das 7 Maravilhas da Cultura Popular num concurso da RTP. As chamadas contratualizadas pelo executivo municipal ajudaram. Um "desperdício" e "má gestão da despesa pública", defende o Bloco.
Santeiros do Coronado, foto da Câmara Municipal da Trofa.
Santeiros do Coronado, foto da Câmara Municipal da Trofa.

O contrato de aquisição de serviços foi tornado público no portal Base a 21 de setembro. Mas só se tornou verdadeiramente conhecido quando o Bloco de Esquerda denunciou a situação. A Câmara Municipal da Trofa tinha contratado a MEO para “aquisição de serviços de reforço da votação e promoção dos Santeiros de São Mamede do Coronado” por 74.899,20 euros. O serviço era realizar chamadas telefónicas de valor acrescentado para o concurso da RTP, "7 Maravilhas da Cultura Popular".

Cada chamada custava "0,60 euros + IVA" segundo o regulamento do programa. E o investimento municipal tornou efetivamente esta tradição uma das escolhidas.

A concelhia do Bloco da Trofa reagiu em comunicado, classificando o valor despendido “num período de pandemia sem precedentes, onde o futuro é de uma completa incerteza” como “demasiado elevado, abjeto e vergonhoso”. Acusou assim o executivo do PSD e CDS-PP de "desperdício" e "má gestão da despesa pública".

Para o Bloco, quando "centenas de famílias do nosso concelho estão a viver um período de dificuldades sem igual” é mesmo mais do que “má despesa”: é “um insulto deste executivo a todos os trofenses".

Acrescenta-se que "num concelho onde as carências são mais que muitas e a todos os níveis, as consultas no centro de saúde ocorrem a conta-gotas por falta de recursos físicos e humanos, que o custo da água é o mais elevado do país, o IMI mantém-se na taxa máxima, esta é uma despesa que os trofenses não merecem suportar".

Apesar de dizerem compreender "a necessidade de promoção do concelho", acusam o executivo de “batota” que “em nada dignifica a Trofa e muito menos os Santeiros do Coronado”.

Uma maravilha de negócio

A despesa da Câmara Municipal da Trofa com este concurso não é caso único no país. O Observador fez o retrato do “negócio 7 Maravilhas”, um concurso televisivo que já teve nove edições e que recebeu de entidades públicas, em 62 contratos por ajuste direto, “mais de 3 milhões e 699 mil euros”.

O dinheiro é justificado pelas autarquias como forma de “promoção”. Umas autarquias gastam verbas a promover uma candidatura, outras para realizar no seu concelho as “galas” onde são apresentadas e escolhidas as "maravilhas".

A empresa por detrás deste bem sucedido negócio à custa do dinheiro público é a EIPWU de Luís Segadães. Mas o mesmo dono lucrou também sob outros nomes. A sua empresa Seven Wonders recebeu em 2010 mais de 1,5 milhões de euros da Associação Turismo dos Açores a título de “prestação de serviços de organização e promoção da realização do evento ‘As 7 Maravilhas Naturais de Portugal’ no Arquipélago dos Açores”. E, sob o pretexto de promover os Açores, a mesma entidade pagou-lhe mais 86 mil euros. E mais 50 mil euros por uma “campanha de divulgação na comunicação social da declaração Oficial das 7 maravilhas naturais de Portugal”.

Em 2011, o Turismo de Lisboa e Vale do Tejo pagou mais de 487.500 euros à EIPWU para uma gala em Santarém. Em 2012, foi a vez do Turismo do Alentejo pagar 772.357,72 euros para uma gala em Troia, a que acresceu outro contrato no valor de perto de 24 mil euros.

Para além das Associações de Turismo, foram “centenas os contratos com as autarquias” revela o Observador. O negócio começa logo com as candidaturas, que foram por exemplo 907 em 2019, e que são pagas ainda antes de serem selecionadas por um “conselho científico” convidado pela organização. As galas serão uma fatia bem maior. A Câmara da Batalha, que concorreu já a nove destes concursos, pagou, em 2018, 65.050 euros por uma gala de semi-final, para além de acarretar com os custos de deslocação, alimentação ou alojamento das equipas. A de Bragança pagou menos 50 euros para realizar a final da edição deste ano. Tomar pagou 85 mil euros por uma gala de semi-finalistas.

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