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Bielorrússia: tensão nas vésperas das presidenciais

Lukashenko tentou impedir o comício final da oposição marcando eventos oficiais para todos os locais onde podia acontecer. A candidata da oposição cancelou a iniciativa mas milhares aproveitaram um concerto para expressar a sua revolta. Eleições são domingo.
"Apoio eleições livres", um dos cartazes que surgiu no espetáculo marcado pelas autoridades em Minsk. Foto de TATYANA ZENKOVICH/EPA/Lusa.
"Apoio eleições livres", um dos cartazes que surgiu no espetáculo marcado pelas autoridades em Minsk. Foto de TATYANA ZENKOVICH/EPA/Lusa.

O comício final da campanha de Svetlana Tijanovskaya para a presidência da República da Bielorrússia foi cancelado. Segundo Anna Krasulina, a sua porta-voz, a oposição não foi autorizada a realizar o ato em nenhum lugar da capital, Minsk, nem em Slutsk ou Soligorsk, o que “é um decisão completamente ilegal por parte das autoridades”.

Não houve propriamente uma proibição, mas as autoridades marcaram iniciativas ou anunciaram a existência de obras em todos locais onde tal evento poderia ocorrer.

Estes obstáculos surgiram depois da candidata da oposição ter juntado anteriormente uma multidão estimada em 60 mil pessoas num comício em Minsk, uma mobilização inédita num momento de crise política e social.

Esta responsável prometeu na mesma ocasião que a campanha não ia apelar aos seus apoiantes para saírem às ruas. Só que milhares de oposicionistas não deixaram de o fazer na noite de quinta-feira, aproveitando um dos concertos marcados para essa altura. Os Djs passaram a música que se tornou símbolo da oposição e acabaram presos pela polícia anti-motim.

As eleições do próximo domingo não serão acompanhadas por observadores internacionais, antes sempre tinham contado com a presença de observadores da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa e de membros da Comissão eleitoral russa. A oposição denuncia que já começaram a existir fraudes com o voto antecipado dos trabalhadores da Função Pública.

O voto antecipado representa cerca de 40% do total de votos e o seu controlo independente é escasso. Alguns observadores independentes contabilizaram 2056 infrações mas denunciam que não lhes está a ser permitido acesso aos locais de votação. Mais uma vez, o governo joga com expedientes. Não impede o acesso, mas reduziu o seu número total de três observadores por local de voto. Assim, “os únicos observadores autorizados a entrar são os que apoiam o governo.” É o que explica, ao jornal Libération Yuliya Artisiukova, que é observadora creditada em Novopolotsk, cidade média do norte do país. Explica ainda que a redução foi feita “oficialmente para limitar a propagação da covid, mas Lukashenko sempre troçou do vírus”.

Apesar disso, Alexander Lukashenko, presidente da Bielorrússia há 26 anos e recandidato, revela sinais de intranquilidade e insiste que a oposição está em conluio com forças estrangeiras que planeiam desestabilizar o país. “Uma guerra híbrida está a ser travada contra a Bielorrússia e devem-se esperar truques sujos de todos os lados”.

E pode-se mesmo dizer que Lukashenko joga em todos os tabuleiros. Depois de ter prendido um grupo de mercenários russos de passagem no país, acusando-os de terem sido enviados para atos de sabotagem, na quinta-feira foi a vez de anunciar a detenção de um número não especificado de cidadãos dos EUA ou pessoas casadas com eles e portadoras de passaportes, “trabalhando para o Departamento de Estado”.

A Bielorrússia tem sido um aliado tradicional da Rússia mas há um afastamento recente. A visita de Mike Pompeo, Secretário de Estado dos EUA, em fevereiro passado, foi vista como uma aproximação inédita.

Entretanto, a oposição denunciou que Maria Moroz, uma das dirigentes da campanha de Tijanovskaya foi brevemente detida por agentes do Ministério do Interior. A versão contada à Agência France Press pelo governo é que a oposicionista foi “convidada para uma conversa”. A oposição fala em manobras intimidatórias.

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