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Bielorrússia-Polónia: Na floresta vejo refugiados a morrer e com eles a nossa dignidade

Na fronteira, migrantes tornaram-se em “armas não convencionais” de uma guerra alheia. Tania Paolinou falou com Nawal Soufi, uma ativista italo-marroquina que está na primeira linha do apoio humanitário e que contou as histórias dramáticas que acompanha.
Wafa Ali Mustafa, refugiada síria, numa manifestação pelo direito de asilo em Berlim.
Wafa Ali Mustafa, refugiada síria, numa manifestação pelo direito de asilo em Berlim.

A situação na fronteira bielorrusso-polaca está a piorar de hora a hora. Os migrantes – na realidade refugiados em fuga da guerra que deveriam ser protegidos pelo direito internacional – tornaram-se "armas não convencionais", reféns inocentes do que está a ser planeado nas suas costas e às suas custas. Enquanto se espera que as instituições europeias tomem decisões, cabe a voluntários e ativistas tornar a sua situação menos difícil e tentar evitar a morte de milhares de pessoas presas na floresta.

Nawal Soufi, por exemplo, uma ativista italo-marroquina empenhada na defesa dos direitos humanos dos migrantes, que já conhecemos porque a seguimos na rota dos Balcãs, está aqui para documentar com imagens e testemunhos aterradores, as consequências do cínico jogo político em que os interesses partidários prevalecem, desafiando os princípios humanitários. "Os bebés estão sem leite e as mães já não podem amamentar, uma vez que vivem há muito tempo em condições desumanas", diz Nawal Sufi no seu diário de fronteira.

Os voluntários não podem sequer ajudar todos os que estão na floresta em território polaco: apenas a três quilómetros da fronteira, outros mais longe, a vinte quilómetros no interior. Para os que se encontram em território bielorrusso, a situação é ainda mais dramática: são completamente deixados à sua sorte.

Grandes corações

Nawal Soufi é por vezes ajudada por um taxista local a transportar pessoas para Minsk. Viagens para salvar a vida dos que não comeram durante dias. De facto, não há muito mais a fazer, exceto comprar comida e entregar-lhe para que ele depois a faça chegar aos migrantes.

Anteontem, uma mulher, após 25 dias deste inferno, conseguiu chegar a Varsóvia. Assim, Nawal pediu aos seus contactos sociais para procurarem um lugar para dormir nesta cidade. A resposta da Itália chegou finalmente: felizmente, há muitas pessoas de coração bondoso.

A ativista voluntária vê imagens horríveis e ouve histórias de testemunhas sobre a polícia a bloquear famílias inteiras, com crianças assustadas e famintas a quem até lhes é negada água. Os jovens sírios detidos na Polónia e hospitalizados devido ao seu estado crítico serão deportados assim que recuperarem. Parece que alguns deles pediram asilo político e o direito internacional exige que os seus desejos sejam respeitados. Mas é pouco provável que isto aconteça.

Uma mulher a vaguear durante dias na floresta, a sofrer de fome, frio, solidão e com um telemóvel quase descarregado, estava em perigo de morte. Felizmente, foi alcançada e resgatada. Uma de entre muitas. Também uma família de dez pessoas, uma pequena comunidade à qual alguém se soma a cada dia: "Já tentaram oito vezes atravessar a fronteira polaca e de cada vez, após pedirem asilo, foram conduzidos de volta para a floresta. Há mulheres no grupo, incluindo uma mulher idosa. Mas, ontem, à noite, algo muito grave aconteceu e o grupo desapareceu depois de nos enviar esta mensagem: um cão-polícia atacou um rapaz de Deraa (Síria) e mordeu-o na cabeça. A partir desse momento, não tenho notícias. Não consigo descrever o que sinto", diz Nawal Sufi.

Cólera e frustração

Só podemos imaginar, mas ela está lá, seguindo de perto esta tragédia humanitária com raiva e um sentimento de frustração, de impotência. E há as crianças, cada vez com mais frio, que precisam de comer: "Ontem à noite, entre as 3 e as 4 horas, um helicóptero aterrorizou as crianças. Era a primeira vez que conseguiam adormecer depois de um dia terrível", diz ela. Outros imploram: "Meu Deus, estou com fome. E os destinos individuais tornam-se o paradigma de um trágico fracasso. Esta criança", diz Nawal, escolhendo um dos muitos exemplos, "está às portas da Europa. Ele é uma das que enterrarão a dignidade de uma "Europa unida".

Sim, a União Europeia perdeu a sua dignidade nesta fronteira. A criança ainda está a tentar sorrir, teve ambas as pernas amputadas e não conseguiu obter comida e água durante demasiado tempo. Talvez um dia regresse ao seu país de origem ou talvez morra perto desta fronteira devido ao frio e à fome e nos próximos anos ficaremos com a difícil tarefa de nos vermos ao espelho".Sim, ela tem razão, Nawal, e quando olhamos um para o outro, veremos o rosto daquele que fechou os olhos e o seu coração: o rosto do carrasco e do seu cúmplice.


Artigo publicado, em 12 de Novembro de 2021, no website italiano Striscia Rossa, traduzido para francês por FSD-Femmes Syriennes pour la Démocratie e publicado no A L’Encontre.

Traduzido por António José André para Esquerda.net

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