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"Bernie é a verdadeira escolha feminista"

Somos feministas e vamos votar em Bernie Sanders. Na verdade, apoiamos Sanders precisamente porque somos feministas. Por Nancy Fraser e Lisa Featherstone.
Bernie Sanders
Bernie Sanders num comício de campanha das primárias. Foto da página de campanha no Facebook

Elizabeth Warren, Amy Klobuchar e seus apoiantes, incluindo os do conselho editorial do New York Times, argumentam que chegou a hora de uma mulher ser presidente. Warren e os seus apoiantes têm repetido estes apelos à política de género. Se Bernie Sanders não estivesse na corrida eleitoral, estaríamos de acordo. Mas a campanha de Sanders é uma oportunidade histórica – para as mulheres.

Não nos interpretem mal. Também nós gostávamos de ver uma mulher presidente. Mas não se isso nos custar a hipótese de construir um movimento que possa mesmo melhorar as vidas da grande maioria das mulheres. A campanha Sanders oferece precisamente essa hipótese.

Toda a gente sabe que Sanders defende os interesses dos 99% contra os da “classe bilionária”. O que é bem menos compreendido é que a sua campanha – e o movimento crescente que está por trás dela – abordam efetivamente o sexismo, não apenas nas suas formas evidentes, mas também nas suas raízes mais profundas na sociedade capitalista.

Embora as bandeiras de Bernie – Medicare for All, fim das propinas nas faculdades públicas, salário mínimo de 15 dólares, um Green New Deal, fortalecer sindicatos – nem sempre sejam reconhecidas como feministas, elas dirigem-se às questões sociais causadas pelo género, mas também pela classe e raça.

Afinal de contas, a grande maioria dos trabalhadores com baixos salários são mulheres. Aumentar o salário mínimo é aumentar de imediato a liberdade feminina – tanto no trabalho como em casa. E alargar os direitos de negociação coletiva é dar-nos uma arma poderosa na luta contra o assédio e agressão sexual no local de trabalho.

Da mesma forma, o Medicare for All, que Sanders apoia sem reservas, beneficia sobretudo as mulheres, que recorrem mais aos serviços de saúde do que os homens e têm por isso despesas médicas superiores. Os ganhos são especialmente altos para mulheres negras, latinas e indígenas, ao terem taxas mais altas de não-cobertura por seguro no atual sistema com fins lucrativos.

Depois, há o Green New Deal, que é visto e bem como trazendo benefícios a todos. Mas isso acontece porque a política não é apenas ecológica e pró-classe trabalhadora, mas também anti-sexista e anti-racista. Atualmente, mulheres e comunidades racializadas são forçadas a lutar com unhas e dentes pelos elementos básicos de sobrevivência, como água limpa em Flint ou Dakota. São elas que irão ganhar mais com o investimento em infraestrutura verde – e com os empregos bem pagos e sindicalizados que ele implica. O Green New Deal encarna uma promessa ativista – de enfrentar as políticas capitalistas que incendeiam o planeta e os arreigados sustentáculos racistas e patriarcais que seguram o sistema.

De todos os candidatos hoje no terreno, Sanders também é de longe o mais forte no que costuma ser chamado de “questões de género”: direitos reprodutivos, assistência à infância, licença parental e direitos trans. É fácil falar detsas coisas, e alguns dos outros candidatos fazem-no, mas a campanha de Sanders identifica os recursos sociais materiais necessários para transformar os direitos no papel em verdadeiras liberdades. A versão de Bernie do Medicare for All, por exemplo, oferece acesso total aos cuidados de saúde reprodutiva, incluindo o aborto, algo pelo qual nós, feministas, lutamos há décadas. Esta é a única posição verdadeiramente pró-escolha: afinal, de que serve o direito ao aborto se não se o consegue pagar ou encontrar quem o faça?

Seguramente, Elizabeth Warren merece crédito por levantar questões sobre o apoio à infância e falar disso eloquentemente na campanha. Mas Bernie Sanders tem defendido a universalidade do apoio às crianças há décadas, promovendo uma lei em 2011 com o objetivo de fornecer apoio e educação infantil a todas as crianças, desde as seis semanas até ao jardim de infância. Sanders também é o único candidato nesta corrida a dar importância a proteger, melhorar e eliminar a segregação da educação do ensino público básico e secundário (que é o mais parecido que a nossa sociedade tem ao apoio universal à infância), inclusive aumentando o salário de sua (maioritariamente feminina) força de trabalho.

No geral, a campanha de Sanders não trata os “problemas femininos” como meros complementos. Ao contrário das propostas da maioria dos seus adversários, as de Bernie presumem que as reformas na organização do trabalho assalariado devem ir de mão dada com as reformas na organização do trabalho doméstico não remunerado – e vice-versa. Expressam então uma verdade feminista nuclear: as duas áreas estão tão profundamente entrelaçadas que nenhuma delas pode ser transformada sozinha e isolada da outra. Só uma transformação coordenada de ambas ao mesmo tempo pode permitir a participação por inteiro e por igual das mulheres na sociedade.

Sanders também é a melhor escolha feminista em temas como a imigração e política externa. O nosso país desencadeou uma violência militar catastrófica no Afeganistão, Iraque e noutras zonas do Médio Oriente; patrocinou inúmeros ​​golpes e esquemas imperialistas desestabilizadores na América Central e do Sul – todos eles com consequências específicas de género. Nessas regiões, como em muitos lados, são as mulheres as principais responsáveis ​​pela segurança e sobrevivência das famílias e comunidades. Esse trabalho, sempre difícil, torna-se ainda mais castigador quando a violência, o conflito e a repressão autoritária tornam impossível a vida quotidiana normal. Para aquelas que são ​​globalmente encarregues de criar a próxima geração, tornou-se uma provação horrível tentarem proteger as crianças enquanto fogem da violência em casa, para em seguida enfrentarem uma fronteira militarizada e um regime norte-americano que prende até crianças. Sanders e o movimento que o apoia são as únicas forças políticas empenhadas em mudar as nossas assassinas políticas externa e de imigração, a primeira prioridade para qualquer movimento feminista sério.

Com a mesma importância, a campanha de Sanders identifica corretamente as forças sociais que se interpõem no caminho dos seus objetivos feministas e pró-classe trabalhadora. A classe bilionária e as megacorporações (banca, farmacêuticas, tecnológicas, seguradoras e combustíveis fósseis), como Bernie costuma sublinhar. Mas as feministas têm o dever especial de se oporem aos neoliberais progressistas entre nós: aquelas que gostam de confraternizar com os plutocratas enquanto abandonam a grande maioria das mulheres à predação corporativa. Também nos devemos opor àqueles que instrumentalizam as queixas de género, usando-as não para beneficiar as mulheres mas para minar Sanders, dividir a esquerda e reforçar as intriga centristas e conservadoras que nos prejudicaram de forma repetida e cruel nos últimos anos.

Pelo contrário, a campanha Sanders identifica corretamente os nossos mais prováveis e promissores aliados: sindicatos, anti-racistas, imigrantes, ambientalistas e todo o tipo de “trabalhadores” – tanto remunerados como não remunerados. Só uma aliança com estas forças é que as feministas podem reunir o poder que precisamos para derrotar os nossos inimigos e conseguir justiça social.

Sem esta perspectiva e as alianças que ajuda a promover, as feministas correm o risco de se deixarem levar no mesmo género de aliança funesta com Wall Street que garantiu a nomeação de Hillary Clinton em 2016 e dessa forma nos trouxe Donald Trump. A última coisa de que precisamos agora é repetir esse desastre!

Por fim, as feministas devem pensar com qual das candidaturas se pode contar para lutar pelas mulheres – e por todos os 99%. Outros candidatos têm algumas propostas feministas nos seus programas. Mas ao mesmo tempo já sinalizaram a disposição de fazer as pazes com a classe dos doadores mais à frente. Entre os candidatos, apenas Sanders entende a necessidade de uma luta popular de massas que vá além das eleições de novembro. Só a sua campanha está comprometida em construir um movimento para a dimensão da mudança estrutural que as mulheres precisam.

A campanha de Sanders também percebe que esse movimento exige alargar o nosso sentido de solidariedade. Ao pedir-nos para “lutar por pessoas que não conhecemos”, desafia as feministas a participarem nas lutas anti-racistas, ecológicas, pelos direitos dos imigrantes, laborais e outras lutas da classe trabalhadora, tal como lutamos também contra o sexismo.

Estaremos à altura deste desafio?

Esta eleição apresenta uma escolha clara. Qual é o nosso objetivo principal ou mais urgente: colocar uma mulher na Casa Branca e esperar para que os ganhos cheguem a toda a a gente? Ou participar e ajudar a criar uma campanha que dá prioridade às necessidades e esperanças da grande maioria das mulheres? Da mesma forma, qual é o verdadeiro significado do feminismo e da igualdade das mulheres: paridade masculino/feminino no interior das classes privilegiadas, que significa igualdade de oportunidades para a dominação do resto das pessoas? Ou igualdade de género numa sociedade organizada em prol dos 99%?

Noutras palavras: vamos deixar-nos levar por invocações cínicas do feminismo por parte daqueles que procuram minar um movimento progressista de massas? Ou vamos apoiar o único candidato nesta disputa que apresenta uma política para melhorar verdadeiramente as vidas de todas aquelas mulheres que pertencem aos 99%?

Bernie Sanders é esse candidato. Não é apesar mas porque somos feministas que orgulhosamente declaramos o nosso apoio a ele.

Bernie é a verdadeira escolha feminista.


Nancy Fraser é professora de filosofia e política na New School for Social Research. É autora de Fortunes of Feminism, Unruly Practices e co-autora do livro Feminismo para os 99%, editado em Portugal pela Objetiva.

Liza Featherstone é colunista da Jacobin, jornalista freelance e autora de Selling Women Short: The Landmark Battle for Workers’ Rights at Wal-Mart.

Publicado originalmente no site da revista Jacobin. Tradução de Luís Branco para o esquerda.net.

 

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