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Beiras: “O PP é um partido putrefacto que deveria estar ilegalizado”

Xosé Manuel Beiras é um dos dirigentes políticos no ativo mais experiente da esquerda. Lançou-se na política nos anos 60, fundando o Partido Socialista Galego na clandestinidade. Em 1982 participou na construção do BNG e em 2012 fundou o Anova. Hoje é visto como referência política para dirigentes como Pablo Iglesias ou Alberto Garzón.
Xosé Manuel Beiras num comício do En Marea. Foto retirada do facebook Xosé Manuel Beiras (videos e fotos orixinais)

É um dos dirigentes políticos no ativo mais experiente da esquerda. Lançou-se na política nos anos 60, fundando o Partido Socialista Galego na clandestinidade. Em 1982 participou na construção do Bloco Nacionalista Galego (BNG) e em 1985 tornou-se deputado autonómico no Parlamento Galego, no qual permaneceu por várias legislaturas. Em 2012 fundou o Anova, partido que emerge de uma corrente do BNG, a Encontro Irmandiño.

Atualmente é deputado e porta-voz de um dos partidos que juntamente com a Esquerda Unida (IU) concorreu dentro da coligação Alternativa Galega de Esquerda (AGE) às eleições autonómicas galegas nesse mesmo ano. Esse projeto conquistou 9 assentos e os seus integrantes consideram-no crucial para a formação do embrião do qual anos depois nasceram “as marés” (las mareas) e outras confluências.

O Anova, juntamente com a IU, o Podemos, o Equo, é também parte integrante da coligação “Em Maré” (En Marea), “fórmula” com a qual se apresentou às eleições gerais (nacionais) de 20 de Dezembro de 2015 e com a qual voltará a fazê-lo no próximo dia 26 de Junho de 2016. Xosé Manuel Beiras (Santiago, 1936), visto como referência política para dirigentes como Pablo Iglesias ou Alberto Garzón, recebeu a cuartopoder.es num café madrileno, um dia depois de ter participado numa conferência com Julio Anguita, histórico dirigente da Esquerda Unida e antigo Secretário-Geral do Partido Comunista Espanhol.

O Anova e a Esquerda Unida têm valorizado sempre a criação da AGE para o que resultou na junção de várias forças. Que experiência retira daquilo que levou a essa aliança?

Significou a rutura com um tabu que existia desde os tempos da organização do nacionalismo galego na clandestinidade antes do franquismo. Existia uma barreira intransponível ou seja, entre a expressão da esquerda orientada para a nação galega e a expressão da esquerda de carácter estatal [espanhol] presente na Galiza. Essa barreira foi ultrapassada com a AGE. O Anova nasceu como uma organização impulsionada por segmentos vindos do nacionalismo que haviam militado o BNG, só que com um processo de muita abertura na primavera de 2012.

Foram convocadas assembleias por toda a Galiza, mais de 40 em dois meses, sem qualquer documento preliminar que medisse a adesão das pessoas, unicamente com os princípios que tinham que ver com a defesa da identidade, o direito do povo galego enquanto objecto político e um novo projeto estratégico com uma natureza de rutura e de esquerda. Foi recebida resposta afirmativa da Esquerda Unida, seguida do Espaço Ecossocialista e do Equo. O BNG rejeitou, entretanto, esse apelo. A AGE foi a forma através da qual se materializou uma ampla frente que atravessasse as fronteiras da esquerda, e que depois disso continuou um processo que se foi ampliando e que metamorfoseou pelo caminho, até dar lugar às “marés”.

Como viveu o Anova o aparecimento do Podemos e o seu envolvimento nesses mesmos processos até chegar ao “Em Maré”?

Para compreender tudo isso, é necessário mencionar o processo relativo às municipais. As “marés” galegas, nascidas como alternativa nas eleições de 2015, e o legado que deixam, representam um salto na mudança política fundamental na sociedade espanhola. A cidadania, cada vez mais desencantada com os partidos que não a representa, incluindo os partidos de esquerda, começa a pensar em organizar-se autonomamente e em ser protagonista de uma alternativa política eleitoral. Isto é, os cidadãos querem ser não apenas representados, querem também ser representantes. Quando isso começou a surgir no Verão de 2014, o Anova manifestou-se favoravelmente ao envolvimento dos partidos no processo das “marés”, ao invés de concorrerem a eleições com as suas próprias siglas. Essa linha de orientação atraiu a IU. Já o Podemos decidiu não apresentar-se às eleições municipais como Podemos e facilitou esse processo. Decidiu-se então ceder-se o lugar às “marés”, que não se resumem às maiores e mais conhecidas de Santiago de Compostela, da Corunha e de Ferrol, tendo em conta que tinham sido geradas mais de 70 candidaturas de unidade popular. Imediatamente após isso, as próprias “marés” das grandes cidades estabeleceram relação entre si, declarando a intenção da necessidade pôr fim ao localismo, aos conflitos entre cidades, etc. Lançaram a ideia de cidades rebeldes em conexão com o Estado Espanhol e a mensagem de que tal haveria de originar uma “maré” galega. Foi sobre essas bases que se encetou o diálogo com o Podemos. Foi complicado porque o Podemos tinha decidido que iria apresentar-se como Podemos às eleições gerais de 2015 e não havia outras opções. Mas prontamente reconheceu que poderia haver exceções na Galiza ou na Catalunha nas quais poder-se-ia criar uma fórmula e uma linha de orientação conjunta. Na Galiza conseguimos que tal se materializasse no “Em Maré”, embora os partidos surjam como parte integrante.

Foi bastante tenso porque havia diferenças. Foi preciso perceber que quando se passou esta fronteira estávamos somando culturas muito diferentes. Culturas de grupo ou com esquemas ideológicos distintos que inclusive tinham estado muitas vezes em conflito no passado e isso requeria um processo de maturação, de consolidação. O que foi realmente alcançado foi a elaboração de um documento de princípios básicos ao Anova, à IU, ao Podemos, que possibilitou a integração em todas as “marés”. Só isso já foi uma conquista porque nesse documento encontram-se as bases daquilo que é o “Em Maré” como um movimento com a aspiração de constante alargamento e não apenas de concorrer a eleições. Há, por exemplo, grupos de militantes que saíram do BNG para envolver-se nas “marés” e cidadãos não vinculados a nenhum partido. É sempre um processo complicado, mas que tem seguido em frente, e isso é positivo.

Obtiveram um bom resultado na eleição de 20 de Dezembro e agora repetem a fórmula. O Anova, contudo, foi crítico do processo. O que se passou?

Para mim, o mais importante a retirar do que aconteceu, primeiro com a AGE, posteriormente a 20 de dezembro com o “Em Maré”, é que aquilo que se verificou é que a cidadania está à frente dos partidos. Por exemplo, todas as dificuldades no que respeita as listas, vivenciámo-las por dentro. Quando dizíamos que só havia duas saídas, o que se queria dizer é que se só conseguíssemos dois deputados, seria um fracasso. No caso da AGE acabámos por conseguir 9 deputados e um sorpasso [ultrapassagem] ao BNG. O mesmo sucedeu com o “Em Maré” a 20 de dezembro. Inicialmente afirmámos que teriam de ser as bases de cada um dos agentes no processo a decidir as listas, mas que os partidos fariam também uma proposta. 6 deputados e 410 mil votos na Galiza, que é um país com uma demografia em retrocesso, com menos habitantes do que há 30 anos atrás, e considerado um feudo do PP, é um resultado incrível. A referência tida era o melhor resultado eleitoral do BNG em 1997, ano em que ultrapassou o PSOE: foram cerca de 400 mil votos em eleições para o parlamento da Galiza e não gerais. Desta vez, as pessoas queriam unidade e premiaram-na com estes resultados. A questão é que temos de continuar ampliando e democratizando o processo intrínseco, porque registaram-se defeitos no funcionamento interno do “Em Maré”, precisamente devido à conduta de quadros políticos que continuam a operar com os esquemas da velha política, apesar de estarem integrados na nova. Há órgãos de coordenação e o “Em Maré” tem dois documentos políticos de base. É a mesa coordenadora quem tem de tomar as decisões políticas, que orientam o grupo parlamentar. Posto isto, interferências no grupo da coordenadora davam lugar a que não se tomassem decisões, acabando por tomá-las o grupo a quem não cabia tomá-las. Este tipo de coisas deu lugar a disfunções e é isso que estamos decididos a corrigir. E isso só se corrige ao longo do amadurecimento dos processos participativos. Se se ampliar ainda mais o “Em Maré”, isso poderá resultar num ineficaz funcionamento e atuação anómala de alguns quadros-membros do organismo que orientam o rumo. Terá, portanto, de ser algo que leve em diante as decisões do conjunto da militância.

Por exemplo, o 15 de maio organizou-se com uma assembleia aberta. Houve muitas reticências na coordenadora em convocá-la e, por fim, a maioria aprovou que a assembleia não poderia ser vinculativa, isto é, que não se podia votar se era criado um “partido instrumental”, ou se eram feitas primárias ou uma revalidação. Mil pessoas participaram no debate e o que ficou evidente pelo comportamento dos militantes foi que a esmagadora maioria estava de acordo naquilo que a coordenadora não tinha querido fazer. É isto que é necessário fazer para que sejamos coerentes com o discurso que apregoamos. Se queremos a autodeterminação dos povos, não pode haver interferências das cúpulas estatais nas decisões do “Em Maré” ou das suas próprias organizações na Galiza, como as do Podemos.

A sua intenção é que sejam corrigidos estes erros tendo em perspetiva as eleições autonómicas?

Exatamente. E continuar a alargar o movimento. Será sempre um longo caminho. É uma opção que tem como intenção de ser uma ferramenta primordial, cujo objeto político é a maioria social galega, maioria social de um povo em rota de rutura dentro da segunda restauração borbónica no Estado Espanhol, em linha com a acumulação de forças disruptivas face àquilo que representa o “edifício” da União Europeia. E é necessária uma política de alianças.

A principal novidade com vista à eleição de 26 de Junho é a aliança entre IU e Podemos. Isso influencia de alguma maneira o contexto da Galiza? Esta coligação, com as várias aproximações, tem alguma hipótese de ganhar ao PP?

Creio que sim. No Verão passado fui convidado pelo Alberto Garzón para um “curso de verão” em El Escorial. Na mesa redonda da qual fiz parte disse que considerava necessário um acordo de base político-programáticas entre ambos e não com base em considerações demoscópicas, que era o que estava a acontecer. Por isso, parece-me que o acordo é positivo. Estou convencido de que terá o efeito de bola de neve no âmbito da cidadania, nesta esquerda social. A repercussão na Galiza também será positiva. Até porque não irá deturpar o perfil do “Em Maré” como força política galega autónoma, porque ficou explícito que o Unidos Podemos não apresentará candidaturas aqui. Logo, não interfere no processo. Poderia interferir com determinados comportamentos que não tivessem em conta que há algumas sensibilidades nas sociedades periféricas importantes por estarem consternadas. Há cidadãos nacionalistas que sempre votaram na opção nacionalista, e que chegaram à conclusão de que a nossa alternativa mantém esse mesmo eixo mas de forma mais aberta que as demais porque estão fechadas sobre si próprias. Contudo, se tomarem decisões nocivas, ainda que simbólicas, talvez essa gente não ficará mais à espera que venham de Madrid dizer-lhes o que têm de fazer. Porém, eu não sou pessimista a esse respeito, sendo uma aprendizagem que se vai fazendo. O efeito do acordo Podemos-IU será de aceleração do processo de acumulação de forças para a mudança eleitoral.

Pensam ter um grupo parlamentar próprio? O Anova defendeu a construção de um “partido instrumental” mas no final não aceitou. De que dependeu esta decisão?

O partido instrumental era o artifício técnico-jurídico que blindava o “Em Maré” contra qualquer decisão arbitrária da Mesa do Congresso. E blindava porque eliminava justificação utilizada. Os relatórios e pareceres dos peritos diziam que seriam decisões arbitrárias. O do partido dizia que seria técnico, sem conteúdo político relevante porque o partido deixaria de existir após as eleições. Porque é que se impediu essa resolução? Porque é que do lado da direção, sobretudo da organização responsável do Podemos, impediram que o próprio Podemos da Galiza tomasse essa decisão? As suas bases estavam a favor… É uma incógnita. Mas bom, deixemo-nos disso. A argumentação utilizada por destacados membros do “Em Maré” como Yolanda Díaz o Antón Gomes-Reino era o de que a Mesa seria extinta havendo hegemonia no Congresso. Por isso, sim, vamos ter grupo parlamentar. Falta demonstrar que com outra composição da Mesa no-lo deixarão ter.

Ou seja, tudo depende de uma vitória nas eleições.

Claro.

Citam-no muitas vezes referindo-se tanto a Iglesias como a Garzón. Este último, em entrevista ao Cuarto Poder, assinalava que seria importante que tanto o senhor como outras pessoas participassem num grande ato de campanha. Como vai ser a sua participação nela?

Ainda não a tenho planeada, nem sei qual vai ser a minha agenda nem o programa de campanha. Tenho os meus próprios critérios. Ando muito cansado, serei seletivo a esse respeito. Em contrapartida, farei um trabalho mais de proximidade, que sempre me saiu bem. Agora, o que mais importa é que dirigentes estatais mencionam-me em tom elogioso e dão-me como exemplo. Mesmo que, de alguma maneira, as minhas atuações fossem uma fonte de inspiração, como dizia Pablo Iglesias, que foi assessor de Yolanda Díaz na campanha da AGE em 2012. O que me importa nesses casos é que se atue em conformidade com isso. Isto é, que as direções desses partidos façam pressão para que aquilo que represento e o que proclamam seja respeitado na prática. O melhor elogio que me podem fazer é que se o Podemos na Galiza decide uma coisa, e tal é coerente e não desrespeita as bases ideológicas, que o faça livremente e que não diga que não o pode fazer. Esse é o melhor elogio. Posto isto, se for para participar num ato a nível de Estado, não hesitarei. Na verdade, participei num antes da eleição de 20 de dezembro com Mónica Oltra, Ada Colau e o próprio Pablo Iglesias.

Diz que a Galiza é uma colónia interior e que difere do País Basco e da Catalunha. Porquê? O nacionalismo galego tem tanta força e visibilidade como o basco e o catalão?

Não tem tanta visibilidade porque a dos movimentos políticos que levam anos de regime de restauração mede-se pelo cenário eleitoral. E isso é uma brutal deformação da visão. As eleições são um reflexo muito deformado da realidade sociopolítica. A realidade da IU, em termos sociopolíticos, será que são mesmo 2 assentos com quase um milhão de votos? Na Galiza, por exemplo, o sindicalismo de classe galego organizado nos anos 70 ombreava com grandes sindicatos como a UGT e a CCOO. Ganhavam nas empresas com maior número de trabalhadores. Na Catalunha nunca houve um sindicato de classe de lógica de base catalã. Nessa época, os dois sindicatos independentistas bascos estavam muito lá atrás. No plano eleitoral é diferente. Precisamente porque na Galiza nunca existiu um nacionalismo burguês equivalente ao da CiU ou do PNV. Porque a formação de uma burguesia específica foi muito tardia, tal como foi também com a formação de uma importante classe trabalhadora. Nunca houve um nacionalismo conservador e isso foi decisivo para a Transição. Pois os nacionalismos que pintaram esses momentos foram os do PNV e da CiU. É essa a explicação.

Isso de sermos uma colónia interna é algo que venho dizendo desde os anos 60. Tenho ilustres mestres como Pablo González Casanova que foi quem cunhou o termo “colonialismo interno” no México. A Galiza é uma colónia interna do Estado Espanhol mas o Estado Espanhol é um protetorado do IV Reich que é a UE. Nem a Catalunha nem a Euskadi se podem considerar como tal. Aí não existe espoliação. Nos últimos tempos, o pouco que ainda restava dos centros empresariais com centro de decisão na Galiza foi descabeçado. Por exemplo, a Fenosa foi absorvida pela Gas Natural. O Banco Pastor absorvido pelo Popular. Não se pode dizer que isto se tenha passado na economia catalã. E a colonização é também ideológica e cultural. Existe a diglossia no que concerne o idioma, e na Catalunha não. Eu sempre procurei o máximo possível de relações e amizades com o nacionalismo basco e catalão. Mesmo com o PNV, por exemplo. Mas sempre tive clara a ideia de que não temos Estado em nenhuma destas três nações. São oprimidas porque não são reconhecidas. Há, no entanto, muitas diferenças.

Disse na conferência de jovens que Tsipras não teve a coragem que o povo teve contra a austeridade. Neste quadro, dentro da UE, é possível mudar alguma coisa? A experiência da Grécia não é desanimadora?

Sim, claro que desanima, mas não a mim. Desanimar-me-ia se a efetivação do Estado de Sítio, as chantagens pulverizadoras com “estupefacientes mediáticos”, ou o golpe de Estado financeiro, tivessem derrotado o povo grego. Não derrotou o povo grego, embora tenha feito capitular o Governo, isso sim, é o mais relevante. Porque, se um governo capitulou e o seu povo não, isso resolve-se, mesmo a curto-prazo. Veremos se o resultado implica uma séria mudança pelo meio dessa esquerda que emerge através das “marés”, do “Em Comum, Sim Podemos”, do “Compromisso”, do Unidos Podemos, etc., sejam a primeira ou a segunda força. Deviam ser a primeira força porque o PP é um partido putrefacto que, na verdade, deveria estar ilegalizado. Se isso acontecer, e se se fizer frente à UE, se se constituir uma aliança que reforce o Governo português, se o Syriza mudar de posição “reativando” a Grécia, se começar por aí e houver um efeito de arrasto, então haverá mudança. Se ninguém der um passo em frente e arriscar, então pelo contrário. Mas quem é de esquerda, ou corre esse risco, ou terá de dizer que não é de esquerda. Não é possível ser-se de esquerda com esquemas conservadores. Não se pode dar passos atrás e depois espetarem-te uma espada no peito. Assim não, isso é conservadorismo.

Tradução de Hugo Arsénio Pereira para esquerda.net 

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