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Barcelona: Trabalhadores da Glovo em protesto pelo quarto dia consecutivo

Multinacional introduziu um novo modelo de retribuição para se adaptar à "Lei Rider", sem contratar os falsos trabalhadores independentes que compõem a sua frota. "Obrigam-nos a competir e a cobrar menos", relatam os estafetas.
Foto: Pedro Gomes Almeida.

Barcelona tem sido palco de protestos dos trabalhadores da Glovo nos últimos quatro dias. Em causa está o novo modelo de retribuição imposto pela gigante do setor das plataformas digitais desde a passada quinta-feira.

“Trabalho há anos para a Glovo e nunca tínhamos estado tão mal. Estão a matar-nos", afirmou um dos trabalhadores, citado pelo eldiario.es.

A multinacional introduziu uma variável que permite ao estafeta decidir se quer cobrar mais ou menos por um pedido, dentro do limite de 30% em ambos os casos. Na prática, a Glovo acaba por distribuir os pedidos a quem está disponível ou se vê obrigado a trabalhar por menos.

Trata-se do "fator multiplicador". Se até aqui os estafetas eram pagos mediante a consideração de vários critérios, que incluíam a tarifa base, os quilómetros, o tempo de espera ou as faixas horárias, agora o seu rendimento - e o trabalho que lhes é atribuído - depende deste novo critério. O preço do serviço pode ser multiplicado por um valor entre 0,7 até 1,3. O eldiario.es exemplifica: se o serviço é de 4 euros, com o multiplicador ao mínimo o trabalhador cobra 2,8. Já se o multiplicador for o máximo recebe 5,2.

"Na quinta-feira, quando nos informaram destas mudanças, pus o multiplicador em 1,3. Mas não me caía nada. Em dez horas, nesse dia sozinho fiz um pedido pela manhã e um pela noite. Fiz 7 euros ao todo", relatou um dos estafetas. "É claro que o algoritmo da empresa premeia os que aceitam preços baixos porque assim arrecada mais lucro",continuou.

Desde a entrada em vigor do novo modelo de retribuição, alguns trabalhadores têm visto os seus rendimentos caírem para menos de metade.

"É uma vergonha. Obrigam-nos a competir entre nós e a cobrar menos", apontou Ricardo, outro estafeta da Glovo. "Se continuar assim, vou ganhar somente uns 500 euros: como vou pagar a quota de 312 euros exigida aos trabalhadores independentes?", questionou.

A Glovo nega que o algoritmo premeia aqueles que aceitam preços mais baixos, avançando que o que existe é uma diminuição na procura.

Aquando da entrada em vigor da “Lei Rider”, que tinha como um dos objetivos principais reconhecer o vínculo laboral entre entregadores de encomendas e empresa, de modo a acabar com a falsa situação de trabalhadores independentes a que eram remetidos, a Glovo afirmou que ia manter 80% dos trabalhadores da distribuição como “autónomos” e que os outros “2.000 riders” seriam contratados. Para manter o esquema do “trabalho independente”, a par de introduzir este novo modelo de retribuição, acabou com os horários obrigatórios.

"O plano de transição de Glovo iniciou-se, incluindo os processos de contratação e o lançamento da nova app para o modelo inédito, que segue os critérios estabelecidos pela sentença do Tribunal Supremo e o auto do Tribunal de Justiça da União Europeia", referiu a Glovo.

As principais estruturas sindicais do país, CCOO, Confederación Sindical de Comisiones Obreras, e a UGT, defendem que a Glovo está a desafiar abertamente a lei. A estrutura catalã das CCOO, em cuja capital a multinacional nasceu, fez já queixa à Inspeção de Trabalho, alegando que as novas medidas impostas representam uma fraude à Segurança Social e uma forma de evitar a “Lei Rider”.

O diretor da Inspeção de Trabalho, Héctor Illueca, anunciou numa entrevista com eldiario.es que esta autoridade iniciaria um dispositivo para comprovar o cumprimento da legislação por parte das plataformas: “Vamos atuar com toda a contundência para garantir o seu cumprimento desde já", assegurou.

A par dos estafetas, os trabalhadores e trabalhadoras dos supermercados da multinacional (Glovo Market) também iniciaram uma mobilização em Barcelona, que levou ao encerramento de vários estabelecimentos. Estes trabalhadores exigem melhores condições de trabalho, um contrato de trabalho e a reposição dos descansos eliminados pela empresa, que eram de 20 minutos em seis horas.

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