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Barcelona: trabalhadoras da limpeza dos hotéis criam portal ético

Chamavam-lhe Kellys para as diminuir mas elas apropriaram-se do nome e criaram um sindicato. Agora, as trabalhadoras da limpeza catalãs estão a promover um sistema de reservas que sinaliza os hotéis que cumprem normas laborais e de segurança.
Uma das ativistas das Kellys. Foto do Twitter da organização.
Uma das ativistas das Kellys. Foto do Twitter da organização.

A associação das trabalhadoras de limpeza dos hotéis Las Kellys de Barcelona conseguiu juntar mais de 60.000 euros para a criação de uma “central de reservas” de unidades hoteleiras que respeitem os direitos laborais. Este era o número mínimo calculado para o projeto poder iniciar-se e já foi superado. Até ao momento em que esta notícia foi redigida mais de 2.300 pessoas tinham depositado na recolha de fundos, feita através do site goteo.org, 72.899 euros.

Las Kellys é o acrónimo da expressão Las que limpian. Era um nome depreciativo usado para descrever as trabalhadoras da limpeza de quartos de hotéis, apartotéis e apartamentos turísticos. Mas foi este o nome que, em 2016, um grupo de mulheres adotou como seu quando decidiram criar na Catalunha uma associação “para denunciar a precariedade com perspetiva de género e com vocação para acabar com a brecha salarial no setor”. Em 2018, anunciaram que se iam constituir como sindicato. Nesse mesmo ano, a 25 de agosto, aconteceram as primeiras manifestações públicas de um grupo que passou a estar implantado um pouco por todo o Estado Espanhol, com grupos das Canárias, às Baleares, a Málaga, a Huelva, às Astúrias, Ibiza, Madrid e Sevilha para além da Catalunha.

As Kellys esperam ter o seu portal pronto em 2022. Primeiro baseado na realidade de Barcelona, depois o projeto irá expandir-se progressivamente, Visam criar um “selo de trabalho justo e de qualidade” que assegure aos hospedes que o local onde vão ficar alojados tem contratos de trabalho justos, respeita o contrato coletivo de trabalho, cumpre as regras de higiene e segurança no trabalho, garante salário igual para homens e mulheres e não externaliza nem subcontrata serviços como o das empregadas de limpeza.

Como as Kellys se juntaram contra a exploração

As Kellys juntaram-se para denunciar uma realidade bem diferente da contratação ética que pretendem promover. Serão cerca de 100.000 trabalhadoras no setor em todo o país vizinho, um trabalho marcado pela sazonalidade e que por isso aumentará até aos 250.000 no verão e diminuirá bastante na época baixa. Dizem que são obrigadas a limpar diariamente 20, 30 ou mais quartos em oito horas. Ao El Diario, Miriam, uma trabalhadora de 47 anos de Barcelona e que é porta-voz do movimento, conta: “estás obrigada a fazer quartos em quinze minutos e nesse tempo nem sequer dá tempo de tirar o lixo. Isto faz com que muitas companheiras acabem por fazer horas extraordinárias grátis”. Também a saúde é afetada: um estudo das Comisiones Obreras revela que 70% das trabalhadoras se auto-medica para conseguir suportar a dor ou conter o stress devido ao trabalho. Sobre o portal, esta ativista diz: “a nossa ideia é lançar uma mensagem clara aos hoteleiros e empresários. Ou deixam de nos explorar ou acaba-se o seu negócio”. O otimismo da tirada contrasta com as perspetivas imediatas. As Kellys dizem também temer que o fim das medidas de apoio à pandemia poderá provocar “despedimentos massivos” no setor.

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