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Aviação “não pode voltar a aumentar”, diz relatório da ATERRA

Num relatório enviado à Assembleia da República, 150 peritos e ativistas concluem que “a aviação não pode voltar ao normal se queremos manter o aquecimento global abaixo de 1,5ºC”.
“O aquecimento climático total causado pela aviação é 3 vezes superior ao efeito do CO2 por si só, devido à formação de rastros de condensação".
“O aquecimento climático total causado pela aviação é 3 vezes superior ao efeito do CO2 por si só, devido à formação de rastros de condensação". Foto via Flickr de Fdecomite.

Num momento em que “assistimos a uma redução significativa da aviação devido a pandemia de covid-19, que reduz imediatamente os impactos climáticos não-CO2 (enquanto o CO2 continuará a aquecer a atmosfera durante centenas de anos - mesmo que a aviação tenha sido interrompida neste momento)”, o relatório “Decrescimento da Aviação” afirma esta atividade “não pode voltar ao normal, se queremos manter o aquecimento global abaixo de 1,5ºC, como inscrito no Acordo de Paris, e manter o planeta Terra habitável para os seres humanos”.

Com autoria da rede global Stay Grounded, à qual a ATERRA e mais de uma centena e meia de organizações pertencem, o relatório avalia os reais impactos sociais e ambientais da aviação, propondo “passos concretos para reduzir o número de voos e construir um sistema de mobilidade justo e sustentável”. É resultado de uma conferência internacional que teve lugar em julho de 2019 em Barcelona, juntando mais de 150 peritos e ativistas, “sem que um só voo tenha sido tomado”.

Segundo a ficha informativa sobre os efeitos climáticos da aviação publicada pela Stay Grounded, com base nos mais recentes dados científicos (https://stay-grounded.org/fact-sheet-climate-impact/), “o aquecimento climático total causado pela aviação é 3 vezes superior ao efeito do CO2 por si só, devido à formação de rastros de condensação (“contrails”), nuvens cirrus, e de ozono em grande altitude”.

Em 2018, a aviação foi responsável por 5,9% de todo o aquecimento climático induzido pelo homem, quando se incluem os impactos não relacionados com o CO2.

Também a “Contestação abaixo-assinada sobre o EIA do Aeroporto do Montijo e suas Acessibilidades”,  apresentada a 18 de setembro de 2019 por 11 cientistas portugueses, revelou que o aumento previsto da capacidade do aeroporto de Lisboa faria ascender as emissões da aviação com origem em Portugal a seis milhões de toneladas em 2050, o que corresponde a 60% das emissões admissíveis a nível nacional no contexto do Roteiro para a Neutralidade Carbónica, sem sequer ter em conta os efeitos não-CO2.

A ATERRA lembra ainda que 90% da população mundial nunca pôs os pés num avião e apenas 1% dos passageiros frequentes representam metade das emissões da aviação mundial. No entanto, “são as populações mais vulneráveis que mais sofrem com os impactos da aviação, sem nunca terem voado”.

Por isso, propõem soluções: "eliminar isenções fiscais sobre querosene e bilhetes, incluindo IVA e taxa de carbono, que permitem voar a preços baixos e colocam em desvantagem as alternativas mais sustentáveis; fazer os passageiros frequentes pagar, através de uma tarifa progressiva para quem mais voa, desincentivando a utilização do avião e financiando alternativas; estabelecer limites nos voos, reduzindo e suprimindo voos de curta distância (como os voos dentro de Portugal e da Península Ibérica) e substituindo-os por viagens de comboio (nomeadamente noturnas); proibir a construção de novos ou a ampliação de aeroportos existentes (como aquela que se pretende fazer em Lisboa); promover alternativas às viagens aéreas, apostar na ferrovia e em destinos mais próximos; propor mudanças institucionais nas políticas de viagem através de regras que promovam a utilização de comboio e outros meios de transporte menos poluentes, a redução do número de deslocações em serviço, e a utilização de videoconferências".

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