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“A aventura maior da literatura é dizer o que até então estava sem nome”

O escritor Valter Hugo Mãe está a comemorar o 20º aniversário da sua carreira literária. Em entrevista ao esquerda.net fala da força transformadora da arte e do futuro do país que deixou de estar aprisionado pelo discurso miserável da culpabilização do povo. Por Pedro Ferreira.
Valter Hugo Mãe na Feira do Livro do Porto. Foto da Câmara Municipal do Porto
Valter Hugo Mãe na Feira do Livro do Porto. Foto da Câmara Municipal do Porto

Qual o papel que a arte em geral e a literatura em particular podem ter na vida das pessoas ?

A Arte ausculta o mundo. Ela é um retrato dos indivíduos, das suas capacidades e incompletudes, ela memoriza o que se sabe e o que se quer saber. É a época e todas as épocas.

Na sua opinião têm alguma capacidade para influenciar o curso dos acontecimentos?

A Arte, e a Literatura como Arte, é a materialização possível da subjectividade.

Tem uma visão negativa da contemporaneidade. Numa entrevista chegou mesmo a dizer que o mundo caminha para uma “espécie de disciplina de ódio”. Pode ser mais concreto?

Vivemos num tempo em que as pessoas se radicalizam em sentimentos de medo e de rejeição atrozes. Como se fossem perdendo a própria humanidade, ocupadas com uma sobrevivência elementar, como a de qualquer bicho irracional.

O modo como se tornam ferozes nas redes sociais e a perda da capacidade de serem solidárias revela uma dessensibilização triste e preocupante.

Sente necessidade de ter feedback dos seus leitores, ou vive distanciado dos mesmos?

Eu gosto das pessoas e acredito que valemos pelos outros. Não me aponto à solidão. Sou pela Humanidade. Quero acreditar ainda na Humanidade. Estar com os outros, desde logo dessa forma que pode ser empática da conversa com os leitores, é para mim fundamental.

E essa crença acaba por ter influência nos livros que escreve?

Talvez não tanto para continuar a escrever, mas para ser sempre chamado à normalidade. Sem deslumbres, apenas gente que partilha um tempo, partilha ideias.

Escreve para desassossegar como dizia José Saramago?

Com certeza. Os livros precisam de servir para deslocar os leitores do seu conforto passivo.

E porque é que o faz?

É importante que a Literatura se coloque como pensamento de charneira. Não valeria a pena, para mim, escrever entretenimento. Para perderem tempo as pessoas têm muitas opções. Eu nunca gostaria de pensar em mim como alguém que ajuda a perder tempo.

O mundo atravessa um momento de grande turbulência e os laços de solidariedade são cada vez mais ténues. É preciso voltar a humanizá-lo?

Exactamente o medo, e muita covardia, levam a essa falha humana. É, sim, fundamental investir num discurso ético de valorização da vida, contra todos os fanatismos e todas as divisões. A vida precisa de ser colocada acima das culturas todas do mundo.

A sua escrita é marcada por uma delicadeza incomum mesmo quando descreve situações violentas. Esse facto resulta apenas de uma opção?

A vida é estruturalmente difícil, o que nos compete é a sua redenção constante. Viver é construir a benesse possível. Sendo certo que estamos todos fadados à tragédia. A morte, bem como a perda contínua dos que amamos, é uma contingência.

Mas cultiva esse estilo por razões meramente literárias ou sente necessidade de imaginar um mundo menos cruel?

A Literatura que faço aspira muito a um apaziguamento com esta condição. Por isso mistura a consciência do terrível com o sonho da sua superação ou, ao menos, a ilusão da sua superação. Muito na vida nos propõe a ilusão como decência única. A Literatura é profundamente da categoria do ilusório e é pura decência.

Fale-nos do seu último livro e da mensagem que ele nos pretende transmitir.

O livro “Homens Imprudentemente Poéticos” busca ponderar a cordialidade necessária entre opostos. Uma maturação do gesto humano que se aponta para a capacidade de lidarmos cordialmente, respeitosamente, como os nossos antagonistas. Como para aprendermos a educação fundamental mesmo entre inimigos.

Apesar das tensões existentes em muitos dos seus livros, a prosa aproxima-se muitas vezes da poesia. Há alguma razão para se deixar envolver por essa linguagem?

A poesia é o que melhor permite a expansão da expressão. A poesia é o trabalho de busca do que até então se tinha como indizível. A aventura maior da Literatura é dizer o que até então estava sem nome.

Cidadão passivo já não é cidadão. A todos compete a vigilância e o protesto

Qual a função da poesia num tempo esmagado por números e estatísticas?

O seu papel é o de sempre, reclamar. Exigir que gente seja sempre gente. Para isso é fundamental que a cidadania seja um exercício e nunca um dado adquirido. Cidadão passivo já não é cidadão. A todos compete a vigilância e o protesto.

Vai agora ao Brasil  que atravessa um momento conturbado. Que opinião tem sobre os recentes acontecimentos neste país que culminaram com a destituição de Dilma Rousseff?

O Brasil é um complexo que se entende sempre menos. Fico convencido de que Dilma foi tramada. Mas também de que o PT [Partido dos Trabalhadores] foi quem se tramou. A esquerda brasileira ruiu na corrupção. Lula aponta sinais de megalomania que podem ser psicóticos. No entanto, ao menos Dilma foi eleita.

Mas o afastamento de Dilma foi visto por muitos como um golpe levado a cabo pelos setores mais conservadores da sociedade.

Retrato do escritor da autoria de Duarte Vitória

Um presidente tem de ser decisão do povo, e não coisa processual. Infelizmente, o que me parece é que opção nenhuma traz esperança. A classe política no Brasil, e eventualmente no mundo, urge em ser completamente renovada.

E em Angola, onde nasceu, acompanha a luta daqueles que estão a pôr em causa a forma como Eduardo dos Santos exerce o poder?

Em Angola o caso parece mais grave. O actual presidente devia interessar-se em ser lembrado como alguém que desempenhou uma missão e soube partir.

E se assim não for?

Arrisca-se a ser lembrado como mais um torpe ditador. É pena. Os homens do poder iludem-se com a posse material mais do que com o brio de efectivamente favorecerem a vida de um povo.

Nesta breve viagem por algumas geografias onde se fala a mesma língua, acha que Portugal é um país condenado à tragédia da pobreza e às desigualdades?

Nada disso. Bastou sair aquela direita alarmista do poder para se respirar de outra maneira. Caramba.

Podemos ao menos aspirar à esperança?

A cada dia ouço alguém dizer que faz planos para regressar ao país porque, ao menos, terminou o discurso miserável da culpabilização do povo pela merda que andaram os bancos e o governo a fazer.

Portugal terá futuro. As pessoas precisam de o ter e haverão de o ter.

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