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Assalto aos Reformados

Uma curta metragem de “alerta social” pelo cineasta David Rebordão, que declara “uma das razões que me fez criar este filme, foi o de constatar que os artistas portugueses estão muito virados para o seu umbigo”, em entrevista de Rui Matoso para esquerda.net.
“Assalto aos Reformados” é uma curta metragem de “alerta social” do cineasta David Rebordão

David Rebordão(1974), é um dos realizadores com mais visualizações na Internet graças à sua famosa curta-metragem Curva. No ano passado filmoucom o carismático Rutger Hauer o filme RPG - Real Playing Game, e recentemente resolveu expressar o seu sentimento de revoltaem o Assalto aos Reformados.

Assalto aos Reformados é uma alegoria tétrica filmada como se fosse um traillera anunciar a exibição de um filme em que a dura coincidência com a realidade é na verdade mais real que a ficção, pois, segundo o professor catedrático jubilado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, Boaventura de Sousa Santos, “Os cortes que o Governo está a aplicar aos pensionistas são um crime organizado, cometido pelo Estado, um ato de terrorismo, contra o qual todos devemos lutar” (APRE).

Historicamente os artistas têm sido um importante contra-poder, não fosse a arte uma configuração do “aspeto” do mundo e por isso mesmo o reforço da capacidade de ver e ler interpretações alternativas da vida social e política. Todavia, pelo menos em Portugal, escasseia a produção artística contemporânea comprometida com a denúncia direta dos abusos do poder político-administrativo, sendo que é mais usual observar essa motivação ativista em artistas da Street Art.

A propósito do lançamento online do Assalto aos Reformados, trocámos via email algumas perguntas e respostas com o realizador David Rebordão:

Este é o teu primeiro filme com um carácter de "intervenção social" ? Porquê agora?

A situação neste país está insuportável, e cada um marca as suas "linhas vermelhas", a minha foi o ato de mexerem nas reformas dos idosos da nossa terra. Ouvia constantemente a frase "Assalto aos reformados" e isso fez despertar em mim um sentimento de revolta face ao que se estava a passar. Na altura andava à procura de ideias para uma curta-metragem que queria colocar na net e a imagem de um assalto a um idoso, por alguém bem mais forte que ele, fez surgir esta história na minha cabeça. Nunca fui seguidor de nenhuma força política, nem tenho nada a ver com os discursos que praticam. Sou apenas um livre-pensador que pegou naquilo que sabe fazer e procura passar uma mensagem de alerta social.

Apesar de ao longo da história os artistas (alguns) produzirem "arte crítica", nos últimos anos parece que esta dimensão desapareceu. O que pensas sobre a atualidade artística portuguesa neste aspeto?

Uma das razões que me fez criar este filme, foi o de constatar que os artistas portugueses estão muito virados para o seu umbigo. Pelo menos, aqueles que podem levar as mensagens ao maior número de pessoas. Ainda não perceberam que as coisas estão realmente a mudar, e que o povo precisa de um empurrão para que se possa dar a mudança. Nunca tive medo de correr riscos e tenho pago fortemente por alguns. É claro que também me preocupo com a minha carreira, mas prefiro sair a ganhar apostando naquilo que acho certo do que ser amorfo aceitando tudo calado.

Neste "assalto aos reformados", os assaltantes são muito especiais... porque decidiste caracterizá-los como uma espécie de tropa de elite?

A minha intenção era mostrar a desproporcionalidade da situação, tal como ela é na vida real. Não existe a mínima hipótese do reformado sair vencedor nesta história. O "armamento" do Estado é bem superior.

De futuro pensas continuar a criar metáforas visuais que sejam também uma reflexão acerca da miséria social que chegámos?

Tudo é possível. Tento ser surpreendente em tudo o que faço. Provavelmente, o humor irá ser a minha próxima ferramenta, se entretanto não for "assaltado" pelo Estado.

David Rebordão (1974-05-28)

Começou pelo Teatro, onde experimentou todas as áreas, representação, cenografia, luminotécnia e produção. Tirou o curso de realização na ETIC e parte para a sua maior aventura, fazer uma longa metragem em Portugal. Como a tarefa não seria fácil, nem imediata, inicia o percurso realizando vários trabalhos em Publicidade, Institucionais, Videoclipes e Curtas metragens. Um desses trabalhos ganha destaque a nível mundial, o famoso vídeo "A Curva", também conhecido como "O fantasma de Sintra". Milhões de pessoas veem o vídeo, assustam-se, comentam, discutem e satirizam. Torna-se um fenómeno global. 2013 foi um ano importante na sua carreira, com a estreia da sua primeira longa metragem em 40 salas de todo o país, sendo o 3º filme português mais visto do ano.

Filmografia

2014 - O Assalto

2013 - RPG - Real Playing Game

2004 - A Curva

2002 - O Atraso

o_assalto

Sobre o/a autor(a)

Investigador e docente universitário
Termos relacionados Cultura
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