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Argélia: presidenciais convocadas para 12 de dezembro

Presidente interino segue a “sugestão” do general Gaïd Salah e anuncia a realização de eleições presidenciais ainda em 2019. Presidente da autoridade eleitoral “independente” foi ministro de Bouteflika em duas oportunidades. Onda repressiva prossegue. Por Luis Leiria.
Bensalah foi à televisão no domingo 15 para convocar as eleições presidenciais em dezembro
Bensalah foi à televisão no domingo 15 para convocar as eleições presidenciais em dezembro

O presidente interino da Argélia, Abdelkader Bensalah, convocou este domingo 15 as eleições presidenciais para o próximo dia 12 de dezembro. Podia tê-lo feito segunda ou terça-feiras, mas não: escolheu exatamente a data “sugerida” pelo homem forte que detém as rédeas do poder, o general Gaïd Salah, chefe do Estado Maior do Exército e vice-ministro da Defesa. Não deixa assim margem para dúvidas sobre quem neste momento manda no país. Bensalah afirmou que “a organização da eleição presidencial é a única solução democrática viável” e comprometeu-se a “reunir as condições adequadas à organização de um escrutínio presidencial apresentando as garantias de transparência, regularidade e probidade.” Essas garantias seriam dadas por duas leis aprovadas à pressa no último sábado, sendo que aquela que dispõe sobre a autoridade eleitoral independente foi aplicada antes mesmo de ser assinada.

Ex-ministro de Bouteflika preside à “autoridade independente”

De facto, os 50 membros que compõem o organismo dito independente, que foram nomeados para o cargo com base em critérios desconhecidos, nomearam como seu presidente Mohamed Charfi, antigo ministro da Justiça em dois governos diferentes (2002-2003 e 2012-2013) durante a longa sucessão de mandatos do antigo presidente Bouteflika, e fizeram-no ainda antes que a lei orgânica que cria a autoridade fosse assinada, tal era a pressa de obedecer aos ditames de Gaïd Salah. É esta autoridade eleitoral que, segundo Bensalah, dá garantias de realizar uma eleição sem fraudes.

É óbvio que o povo que em 30 semanas sucessivas se manifestou pelo fim do regime, não está disposto a aceitar a lisura desse processo eleitoral de um processo eleitoral sob o poder de Bensalah ou do general Salah.

Karim Tabbou, um dos principais líderes do 'hirak'
Karim Tabbou, um dos principais líderes do 'hirak'

O poder tem consciência disso mesmo e está a demonstrá-lo na prática. Depois da prisão de Karim Tabbou, porta-voz da União Democrática Social e um dos mais influentes líderes do hirak (o movimento revolucionário e pacífico que vem abalando o país), um tribunal decidiu pela prisão preventiva de 23 pessoas detidas nas manifestações de sexta-feira. De acordo com relatos recolhidos pela imprensa, os presos são todos ativistas influentes das mobilizações.

A onda repressiva parece mostrar que o Exército e o governo vão tentar fazer uma espécie de rolo compressor de pressão sobre o povo e sobre o hirak de forma a conseguir defender o regime periclitante e garantir que um candidato de confiança saia eleito em 12 de dezembro. Mas para isso tem de dobrar a vontade de muitos milhões de argelinas e argelinos que se manifestam semanalmente desde fevereiro. Não será tarefa fácil.

Sobre o/a autor(a)

Jornalista do Esquerda.net
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