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Argélia: oferta de diálogo desmentida pela repressão

No primeiro discurso após a eleição, Abdelmadjid Tebboune propõe o diálogo ao movimento popular que o contesta. Mas as suas boas intenções são desmentidas pelo aumento brutal da repressão e pelas centenas de presos dos últimos dias. Por Luis Leiria.
Abdelmadjid Tebboune: nas palavras, o diálogo; no terreno, a repressão. Foto de Hani-meguellati
Abdelmadjid Tebboune: nas palavras, o diálogo; no terreno, a repressão. Foto de Hani-meguellati

O novo presidente da Argélia, Abdelmadjid Tebboune, propôs o diálogo com os representantes do movimento popular que contesta a legitimidade da sua eleição. “Dirijo-me diretamente ao Hirak, que em muitas oportunidades qualifiquei de bendito, para lhe estender a mão a fim de encetar um diálogo sério ao serviço da Argélia e somente da Argélia”, afirmou, na sua primeira conferência de imprensa após as eleições presidenciais.

Segundo os números oficiais, que não contam com nenhuma verificação independente, Tebboune foi eleito com 58,15% dos votos, numas eleições em que 60% dos eleitores se abstiveram. A oposição contesta esses dados, reafirmando considerar todo o processo eleitoral uma farsa (mascarade). O Reunião pela Cultura e a Democracia (RCD), um dos partidos que chamou ao boicote, estima, apoiando-se nos seus próprios observadores, que a participação nas eleições não passou dos 8%, isto é, a abstenção terá sido de 92%. Assim, Tebboune é de facto um presidente nomeado, e “não pode nem ser qualificado de presidente nem gozar de qualquer crédito”.

Nas suas declarações, Tebboune não explicou que mecanismos propõe para a realização do diálogo, e sobretudo foi evasivo quanto à questão dos presos políticos do movimento popular, que superam a centena e meia, cifra que nos últimos dias terá sido ampliada com centenas de novas detenções.

Diálogo nas palavras, repressão no terreno

A verdade é que a brutal repressão que se abateu sobre os protestos no dia das eleições e no seguinte, a 43ªa sexta-feira do Hirak, na cidade de Oran e noutras cidades da mesma região, desmentem cabalmente qualquer boa intenção por parte do poder.

“Não se pode estender a mão ao Hirak ao mesmo tempo que assistimos ao uso da força. Isso não augura nenhuma acalmia. Contra manifestações pacíficas, assistimos a um uso desproporcionado da força”, denuncia Nourredine Benissad, advogado e militante dos direitos humanos, ouvido pelo site TSA (Tout Sur L’Algérie).

Saïd Salhi, vice-presidente da Liga Argelina dos Direitos do Homem (LADDH), acredita que os acontecimentos em Oran foram “uma operação planificada destinada a isolar o Ocidente” do país. Ele considera que está a ocorrer “uma nova etapa da repressão, impedindo as conexões entre as regiões, ao isolar a região centro que aparece como a mais frondosa, através do enfraquecimento das outras regiões.”


Saïd Salhi: repressão desproporcional em Oran

Salhi explica que o recrudescimento da repressão começou na quinta-feira, quando uma concentração foi atacada pela polícia, que fez muitas detenções. “Ontem [sexta-feira], os cidadãos iniciaram uma concentração, mas as forças de segurança não permitiram a realização da marcha. Houve uma repressão seguida de detenções em massa. Os nossos amigos locais falam em centenas de detenções.” O resultado é que pela primeira vez não houve manifestação em Oran numa sexta-feira. Segundo o vice-presidente da LADDH, era esse precisamente o objetivo pretendido pelas forças de segurança.

Reações ao discurso de Tebboune

A Frente das Forças Socialistas prestou homenagem “ao povo argelino que não esperou os resultados do escrutínio, que não reconhece, para exprimir, ao longo da 43ª sexta-feira, numa mobilização pacífica e unitária em todo o território nacional, a sua indignação e cólera quanto a um poder em uniforme e a sua cobertura civil, que vêm, através desta farsa eleitoral, sujar a imagem da Argélia no mundo.”

A FFS não rejeitou o diálogo proposto por Abdelmadjid Tebboune, mas pôs-lhe condições: “só uma verdadeira transição democrática e um diálogo nacional transparente e sério com todos os atores políticos representativos e os da sociedade civil mobilizados no movimento popular e associativo poderão chegar a uma plataforma consensual de saída da crise nos planos político, económico, social, ambiental e cultural, com um calendário e instrumentos de controlo e de execução, com vista à eleição da Assembleia Nacional Constituinte”.

Para o Partido Socialista dos Trabalhadores (PST), “a cooptação de Tebboune como presidente da república, apesar da rejeição massiva e gritante da farsa eleitoral, constitui uma violação qualificada da soberania do povo argelino. Assim, o poder de facto manteve-se até ao fim na sua lógica de normalização pelo golpe de força. Os nove milhões de eleitores e eleitoras que teriam participado na eleição, e que todas as cadeias de televisão, apesar de terem sido avisadas, não mostraram, são uma pura invenção”.

Os nove milhões de eleitores e eleitoras que teriam participado na eleição são uma pura invenção

Na declaração da direção nacional do partido, datada de 14 de dezembro, o PST afirma que não reconhece nem a legalidade, nem a regularidade, nem a legitimidade dos resultados das eleições, e chama “a rejeitar o golpe de força e a ampliar a mobilização popular que precisa mais que nunca de uma auto-organização democrática a todos os níveis.” Para o partido, a prioridade é impor o “fim da repressão, a libertação de todos os presos políticos e de opinião e o fim de todos os entraves ao exercício efetivo das liberdades democráticas”, na perspetiva de uma “transição democrática permitindo a instalação de uma Assembleia Constituinte soberana e representativa das aspirações democráticas e sociais da maioria do povo argelino.”

O Partido dos Trabalhadores (PT), cuja secretária-geral, Louisa Hanoune, é uma das presas e presos políticos, também aposta numa Assembleia Nacional Constituinte como a única solução que pode permitir responder favoravelmente às aspirações do povo argelino. Numa nota do seu secretariado permanente do bureau político, o PT considera que nenhuma solução é aceitável sem que previamente sejam imediata e incondicionalmente libertados Lakhdar Bouregaa, Louisa Hanoune, Karim Tabbou e todos os presos de opinião, e condena a repressão que se abateu sobre os manifestantes em Oran e cidades da região, quando da 43ª sexta-feira da revolução.

Sobre o/a autor(a)

Jornalista do Esquerda.net
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