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Argélia: irmãos de Bouteflika em prisão domiciliar

Demissão do presidente foi o ponto decisivo de uma luta de bastidores que veio à tona na terça-feira e que prossegue ainda com a proibição de saída do país de vários empresários. Por Luis Leiria.
Saïd Bouteflika: ex-eminência parda em prisão domiciliar.
Saïd Bouteflika: ex-eminência parda em prisão domiciliar.

Saïd e Nacer, irmãos do presidente Abdelaziz Bouteflika, que apresentou a sua demissão nesta terça-feira, receberam ordem de não sair de casa e são vigiados por membros da Guarda Republicana, informa o diário argelino El Watan.

No mesmo dia, foi preso o empresário Ali Haddad, dono da empresa de construção ETRHB e ex-chefe do FCE (entidade patronal), quando tentava passar a fronteira terrestre Argélia-Tunísia. Outro empresário, Réda Kouninef, apresentado pelo jornal como “próximo do círculo presidencial”, foi impedido de sair do país quando já se encontrava no aeroporto e teve o passaporte confiscado. Haddad e Kouninef são duas das doze pessoas que receberam uma ordem de Interdição de Saída do Território Nacional no domingo 31 de março.

O El Watan informa ainda que está em curso uma investigação que abrangerá uma centena de pessoas, entre importadores, homens de negócios e políticos, incluindo ex-ministros, que estariam implicados em casos de corrupção, desvio e fuga de capitais.

Eminência parda

Saïd Bouteflika, irmão mais novo e conselheiro do presidente, era considerado a “eminência parda” do regime, ou presidente de facto, desde que Abdelaziz teve um AVC em 2013 que o deixou praticamente paralisado e sem fala. O El Watan fala em prováveis acusações formais a Saïd por ter usado indevidamente o “selo presidencial”, isto é, por ter tomado decisões em nome do irmão.

Estas notícias confirmam que se trava uma luta surda entre setores do regime vigente, pressionados pelas poderosas manifestações de massas que começaram no último dia 22 de fevereiro.

As divergências vieram à tona quando o chefe do Estado Maior das Forças Armadas, general Gaïd Salah, num discurso transmitido pela televisão na terça-feira, 26 de março, defendeu o afastamento do presidente por incapacidade, uma solução que, segundo ele, respondia às reivindicações legítimas do povo argelino e garantia o respeito das disposições da Constituição.

O artigo 102 da Constituição regulamenta os procedimentos a seguir em caso de “doença grave e durável” do presidente, que se encontre assim “na impossibilidade total de exercer as suas funções”.

No dia seguinte, os dois partidos do governo – a Frente Nacional de Libertação (FLN) e o Reagrupamento Nacional Democrático (RND) – pediram também o impedimento ou a demissão do presidente, tendo a central sindical UGTA feito declarações no mesmo sentido.

Forças não constitucionais”

Mas o círculo do presidente resistia. No dia 31, Bouteflika ainda nomeou o governo formado por Noureddine Bedoui, que fora designado para o cargo de primeiro-ministro vinte dias antes. No dia seguinte, 1 de abril, Bouteflika finalmente anunciou através de um comunicado enviado à agência oficial de notícias que deixaria a presidência antes do dia 28 de abril (o final do mandato), mas ainda afirmava que tomaria decisões importantes de forma a “assegurar a continuidade das instituições do Estado”.

Na terça-feira o Exército, pela voz de Gaïd Salah, fulminou o comunicado presidencial da véspera, acusando-o de ser obra não do presidente mas de “forças não constitucionais” e “não habilitadas” que pretenderiam manter o controlo da transição política. O general advertiu que toda a decisão “tomada fora do quadro constitucional é considerada nula” e voltou a exigir a demissão imediata de Bouteflika, afirmando estar ao lado das mobilizações populares.
No final do dia, o círculo de Bouteflika capitulou: o presidente demitiu-se. Mas a guerra surda ainda mal começou.

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Sobre o/a autor(a)

Jornalista do Esquerda.net
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