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Argélia: general endurece o tom, mas manifestantes não cedem

Chefe do Exército acusa indivíduos e entidades não nomeados de quererem criar um vazio constitucional e defende as eleições de 4 de julho, rejeitadas pelas manifestações populares. Por Luis Leiria.
Manifestações não querem a continuidade do "sistema".
Manifestações não querem a continuidade do "sistema".

As manifestações populares na Argélia não dão mostras de cansaço e mesmo no mês do Ramadão (mês de jejum nos países muçulmanos) não perderam nem a grande participação nem o entusiasmo. Pelo fim do “sistema”, pela saída de todos os símbolos do regime do ex-presidente Abdelaziz Bouteflika, pela democracia e a vontade do povo, todas as sextas-feiras há grandes manifestações populares nas principais cidades do país; e todas as terças-feiras realizam-se grandes manifestações estudantis.

Por outro lado, o chefe máximo do Exército, general Gaïd Salah, encastelou-se na defesa da saída política através de eleições presidenciais em 4 de julho, e não dá mostras de ceder desta posição. Depois de ter passado duas semanas em silêncio, o general tomou a palavra na última segunda-feira e usou um tom duro contra os que não concordam com o que ele considera ser a única saída constitucional: a da realização das eleições presidenciais.

Acusações do general

Gaïd Salah acusou “entidades”, sem especificar a quem se dirigia, de querer impor um vazio constitucional. “Em resumo, os que querem manter o país no impasse são indivíduos e entidades que tentam conscientemente levar-nos a um vazio constitucional, com todos os riscos e ameaças que este pode comportar.”

E acrescentou: “O impasse político e o vazio constitucional planeados de forma deliberada por estas entidades representam um percurso de consequências desastrosas nos planos económico e social do país, nomeadamente no domínio dos investimentos e na preservação dos postos de trabalho e no poder de compra dos cidadãos.”

Quanto às manifestações que pedem o fim do “sistema” e a saída de todas as personalidades que o representam – incluindo o próprio chefe do Exército –, o general Salah apela a uma melhor organização “para evitar todas as formas de anarquia e de cair na armadilha da infiltração por indivíduos seguindo planos suspeitos, que utilizam as suas manifestações como um portal para gritar os seus slogans e brandir as suas bandeiras e uma passarela para transmitir certas reivindicações irracionais, tais com a exigência da saída coletiva de todos os quadros do Estado, sob o pretexto de que eles representam símbolos do sistema.”

Do lado dos traidores”

No dia seguinte, a manifestação dos estudantes em Argel respondeu à altura: “Djeich-chaâb, khawa-khawa, Gaïd Salah maâ el khawana” (O povo e o Exército são irmãos, mas Gaïd Salah está do lado dos traidores).

Outras palavras de ordem gritadas não deixam dúvidas de que a oposição à política do general não corresponde a “infiltrações”, mas sim à vontade dos estudantes e do povo: “Dawla madania, machi askaria” (Estado civil, não militar), “Fora Gaïd Salah!”, e cartazes que seguiram o mesmo tom: “Os nossos sonhos não entram nas vossas urnas”, “Eleições de 4 de julho: impossível”, e “Objetivos das eleições de 4 de julho: contornar as reivindicações populares, conferir legitimidade à quadrilha, matar a ambição de todos os argelinos e argelinas”.

E uma grande faixa exibia a inscrição: “Gaïd Salah, estás contra a vontade do povo”.

Apresente o seu pedido de reforma!”

Do lado dos partidos de oposição, uma resposta contundente veio de Mohcine Belabbas, presidente da Reunião pela Cultura e a Democracia (RCD), ao afirmar que o discurso de Gaïd Salah “não deixa qualquer dúvida sobre a vontade de chefe do Exército de ser o regente da vida do país” e é “uma demonstração do pouco caso que fazem os nossos dirigentes do futuro do país a curto prazo”.

Para o presidente do RCD, uma formação que se reivindica social-democrata e nasceu em 1989, “o poder de facto afunda-se na negação da realidade para apresentar as presidenciais de 4 de julho como um evento que tirará o país da rotina”, mesmo sabendo que essa saída é “unanimemente rejeitada e que nenhum candidato sério retirou os formulários e ainda menos reuniu as assinaturas de personalidades necessárias para validar o seu dossier diante do conselho constitucional”.

O presidente do RCD terminou de forma contundente, apelando ao general que “apresente o seu pedido de reforma, o senhor e todos aqueles que, como o senhor, envelheceram nos postos de comando e nos centros de decisão política.”

Na próxima sexta-feira, teremos uma nova resposta das mobilizações populares.

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Sobre o/a autor(a)

Jornalista do Esquerda.net
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