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Argélia: “Eles têm as armas? Nós temos o tempo”

Revolução popular iniciada a 22 de fevereiro demonstra fôlego para prosseguir até pôr em xeque o regime argelino. Com um presidente interino e um primeiro-ministro desmoralizados, o último defensor do “sistema” é o Exército. Por Luis Leiria.
“Eles continuam? Nós continuaremos. Eles têm as armas? Nós temos o tempo. Eles têm todos 80 anos? Nós temos todos 20 anos.”
“Eles continuam? Nós continuaremos. Eles têm as armas? Nós temos o tempo. Eles têm todos 80 anos? Nós temos todos 20 anos.”

Uma pancarta exibida na manifestação dos estudantes argelinos terça-feira, 16 de abril, resume bem o momento que atravessa o levante popular iniciado na Argélia no dia 22 de fevereiro: “Eles continuam? Nós continuaremos. Eles têm as armas? Nós temos o tempo. Eles têm todos 80 anos? Nós temos todos 20 anos.”

A revolta popular, que tem levado milhões às ruas todas as semanas, conseguiu frustrar os planos do presidente Abdelaziz Bouteflika para se eternizar no poder, provocou a sua demissão, e uns dias mais tarde a saída de outro símbolo do regime, Tayeb Belaïz, presidente do Conselho Constitucional.

Mas quem continua a ocupar o poder são outras “caras bouteflikianas”, como definiu um manifestante na última sexta-feira, citado pelo jornal argelino El Watan. O atual presidente interino, Abdelkader Bensalah, assumiu o cargo após a demissão de Bouteflika por ser o presidente do Conselho da Nação, o senado (câmara alta) da Argélia. Ainda em fevereiro se demonstrara um fervoroso defensor da candidatura de Bouteflika a um quinto mandato. O primeiro-ministro, Noureddine Bedoui, foi nomeado por Bouteflika antes da renúncia, quando o clã presidencial ainda tinha a intenção de controlar a transição. Durante quatro anos foi ministro do Interior, período em que organizou as eleições legislativas e comunais de 2017, que foram marcadas por denúncias de fraude e de manipulação dos resultados.

O povo parece ter tomado o gosto de demonstrar o seu poder e está consciente de ter o tempo do seu lado.

Bensalah e Bedoui são dois dos “três B” que o povo quer ver fora do poder o mais rapidamente possível (o outro já se demitiu), e não há indícios de que a mobilização vá abrandar. A palavra de ordem “Fora o sistema” continua a ser a mais gritada nas ruas, e o que é certo é que o povo parece ter tomado o gosto de demonstrar o seu poder e está consciente de ter o tempo do seu lado. Como dizia a pancarta citada acima, “Eles têm as armas, mas nós temos o tempo.”

Sexta-feira é todos os dias

O ritmo desta revolução inédita, que já conseguiu abalar o regime e demitir o presidente apenas pela força de manifestações pacíficas, tem estado a ser ditado pelas mobilizações de milhões de argelinos em todas as cidades do país que se realizam às sextas-feiras depois da oração. Desde o dia 22 de fevereiro, que marcou o início, até à última sexta, foram ao todo nove – a décima será na próxima sexta-feira dia 26. Mas a revolução não se reduz a essas gigantescas mobilizações. Há outra data fixa, a terça-feira, que é a das manifestações estudantis que também se espalham por todas as cidades, levando à rua a criatividade dos jovens. As universidades estão em greve mas, tal como no Maio francês, fervilham de debates, propostas, iniciativas.

E entre estes duas jornadas “fixas”, a mobilização não descansa.

Magistrados não vão avalizar eleições de 4 de julho. Captura de ecrã.
Magistrados não vão avalizar eleições de 4 de julho.

São os magistrados que se manifestam, vestidos de toga, diante do tribunal de Argel para dizer que não vão supervisionar as eleições presidenciais marcadas para 4 de julho.

São 40 presidentes de câmara que se manifestam na região de Cabília prometendo boicotar as eleições de 4 de julho e afirmando o seu apoio à reivindicação popular de desmantelamento do sistema.

São os milhares de trabalhadores e de sindicalistas que se concentram diante da sede da central sindical UGTA para exigir a demissão do seu secretário-geral, Abdelmajid Sidi Saïd, que ainda em 31 de janeiro afirmava que “Bouteflika é o candidato dos trabalhadores argelinos”.

É o povo de três municípios da província de Tlemcen, Aïn Youcef, Sebaa Chioukh e Aïn Fettah, que se revolta e fecha as sedes das câmaras municipais exigindo a saída dos seus presidentes, acusados de ajudarem à fraude nas eleições e de serem batoteiros e corruptos quando se trata de elaborar as listas de beneficiários dos alojamentos sociais.

Caça aos símbolos do regime

As pressões pela saída dos símbolos do “sistema” não se ficam pelas manifestações. Na verdade, percebe-se porque o atual primeiro-ministro teve tantas dificuldades de formar o seu gabinete. Se um ministro for surpreendido na rua, corre o risco de passar um mau bocado diante das vaias dos populares que o identifiquem. O mesmo ocorre aos walis, os representantes do Estado nas províncias, e aos ex-ministros.

Se um ministro for surpreendido na rua, corre o risco de passar um mau bocado diante das vaias dos populares que o identifiquem

Na segunda-feira, a polícia foi chamada a intervir para “libertar” o ministro da Energia, Mohamed Arkab, bloqueado por uma concentração de trabalhadores da Sonelgaz, a empresa que ele dirigia antes da nomeação ministerial, e que reagiram, mal souberam da sua presença no prédio.

Na terça-feira, o wali de Argel, Abdelkader Zoukh, teve de fugir da fúria da população do bairro de La Casbah devido ao desmoronamento de um edifício que provocou a morte de cinco pessoas. No mesmo dia, o ex-ministro Hamraoui Habib Chawki foi alvo de assédio verbal por argelinos no voo de Argel para Lyon (França). O registo do momento em vídeo tornou-se muito popular nas redes sociais.

E houve também o caso do ex-primeiro-ministro Ahmed Ouyhaia. Quando a TV estatal anunciou que ele fora convocado a depor num tribunal do centro de Argel acerca de investigações sobre delapidação de dinheiros públicos, centenas de pessoas foram fazer-lhe uma espera levando iogurtes. Ouyhaia ficou famoso por ter dito uma vez, em tempos de crise económica, que os argelinos não eram obrigados a comer iogurtes. Como o ministro não compareceu à convocação, foi o seu advogado que se viu aspergido pelo produto lácteo arremessado pelos manifestantes.

A “caça” ao ministro e ex-ministro atravessa mesmo as fronteiras da Argélia. Domingo, em Paris, Bouguerra Soltani, antigo presidente do Movimento da Sociedade pela Paz e ex-ministro, cometeu o descuido de passar pela Place de La Republique, no momento em que decorria um dos protestos que a comunidade argelina residente em França faz contra o regime de Argel todos os domingos. Resultado: identificado, levou uns encontrões, ouviu o que não queria e ainda foi alvo de um banho de cerveja antes de conseguir desaparecer numa entrada do Metro.

Para negociar, é preciso credibilidade

Entre a revolta popular e as autoridades que se aferram ao poder não há margem para negociação?

O problema é que para isso, seria necessário, em primeiro lugar, que quem está no poder tivesse credibilidade. Ora esse não é manifestamente o caso do presidente interino.

Conferência convocada por Abdelkader Bensalah para discutir uma comissão de gestão das eleições foi um fracasso. Foto de B. Souhil
Conferência convocada por Abdelkader Bensalah para discutir uma comissão de gestão das eleições foi um fracasso. Foto de B. Souhil

A conferência convocada por Abdelkader Bensalah para discutir uma comissão de gestão das eleições, que teve a sua primeira sessão segunda 22, atraiu mais jornalistas que participantes. Os partidos da oposição boicotaram a conferência. E mesmo os líderes dos partidos da coligação que apoiava Bouteflika, o RND e a FLN, optaram por não aparecer, delegando a presença a dirigentes secundários. De uma centena de convidados, entre representantes de partidos e personalidades, apenas uns poucos se fizeram presentes, definidos pelo El Watan como “chefes de partidos microscópicos amadores de projetores que acabaram por ser apanhados em flagrante fora de jogo”. Nem o próprio Bensalah compareceu, fazendo-se representar pelo secretário geral da Presidência.

Aonde vai Gaïd Salah?

Se o presidente interino e o primeiro-ministro estão desmoralizados, se os ministros são assediados nas ruas quem, então, detém o poder na Argélia? O Exército, evidentemente. E o representante máximo do Exército é o chefe do seu Estado Maior, o general Ahmed Gaïd Salah. O general deve o seu posto a Bouteflika, e estava entre os que desde logo apoiaram o quinto mandato do presidente incapacitado. Mas foi também ele que compreendeu a força do recado dado pelos milhões de argelinos nas ruas e acabou por frustrar o plano do clã Bouteflika, que em troca de o presidente abdicar da sua quinta candidatura, via o seu mandato prolongado por pelo menos um ano e mantinha o lugar determinante para fazer a transição de regime.

Gaïd Salah acabou com estes planos e no dia 2 de abril forçou a renúncia de Bouteflika com um discurso ameaçador. A partir daí, tem insistido na aplicação do artigo 102 da Constituição, que já está neste momento a determinar o seu plano – posse de Bensalah como presidente interino e realização de novas eleições presidenciais em 4 de julho. Ora é isso precisamente que está a ser posto em causa, todos os dias, nas ruas.

Nas últimas semanas, os discursos e a prática do general parecem ziguezagueantes. Chegou a afirmar que todas as saídas eram possíveis e que o povo é que iria decidir, e ameaçou os que quereriam ir contra a vontade do povo (quem?), garantindo que o Exército sempre defenderia a vontade popular. Estes ziguezagues coincidiram com alguns episódios repressivos que não foram à frente e, ao contrário do que se esperava, não houve repressão na 9ª sexta-feira da revolução.

Mas Gaïd Salah tem um problema: para manter a aplicação do artigo 102 tem de permanecer com um presidente interino e um governo sem prestígio, até umas eleições de 4 de julho cada vez mais contestadas. E, sobretudo, tem de conviver com uma revolução que fala claramente: “Eles têm todos 80 anos? Nós temos todos 20”. Gaïd Salah tem 79 anos e 3 meses.

Sobre o/a autor(a)

Jornalista do Esquerda.net
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