You are here

Argélia: 29ª sexta-feira do ‘hirak’. “Não vamos dar-vos trégua”

São mais de sete meses de manifestações semanais. A 29ª marcou um regresso em força do movimento popular, com o fim do Verão, e mostrou que o povo argelino não aceita as ordens do chefe do Exército e rejeita a realização de eleições com a manutenção no poder dos representantes do regime. Por Mustapha Benfodil, El Watan.
A mobilização popular revigorou-se com o final do Verão. Foto de Souhil B, El Watan
A mobilização popular revigorou-se com o final do Verão. Foto de Souhil B, El Watan

Há várias semanas que alguns previam um regresso em força do movimento popular com o fim do Verão – período em que, apesar dos grandes calores e das viagens de férias, a “permanência” foi valentemente assegurada. A marcha de sexta-feira 6 de setembro registou, de facto, uma mobilização impressionante.

Dezenas de milhares de cidadãos, com um fervor excecional, marcaram assim uma rentrée social digna dos primórdios da “Silmya” (Pacífica). Terminadas as orações, os argelinos acorreram como um só homem, e o dilúvio torrencial tomou ruidosamente as principais artérias da capital aos gritos de “Dawla madania, machi askaria!” (Estado civil, não militar!), “Les généraux à la poubelle, we Dzair teddi l’istiqlal!” (Os generais para o lixo e a Argélia chegará à independência!), “Makache intikhabate ya el issabate!” (Não a eleições com gangues).

Um dos cantos mais repetidos ao longo deste 29º “referendo” foi uma resposta cortante ao calendário eleitoral “sugerido” pelo patrão do Exército que propôs a data de 15 de setembro para convocar o corpo eleitoral: “Makache el vote wallah ma eddirou, Bedoui we Bensalah lazem itirou. W’idha b’erressas hebbitou ettirou, Wallah marana habssine!”(Nada de voto, não vão votar, Bedoui e Ben Salah têm de ir-se embora. Mesmo que disparem contra nós, por Deus não nos deteremos!).

O dia anunciava-se com um sol brilhante temperado por chuviscos refrescantes. Primeira imagem: o dispositivo de polícia é maior, dezenas de camiões, de veículos 4x4 e outros engenhos pouco amenos. “Na autoestrada era verde, e aqui é azul”, diverte-se Aïssa, bibliotecária vinda de Boufarik. Alusão às operações stop da Gendarmeria, que impedem muitos, vindos do exterior, de chegar à capital, e às forças de polícia intramuros.

Como na última sexta-feira, Argel está morta até praticamente às 11h. Então forma-se subrepticiamente um cortejo composto de várias centenas de manifestantes que arranca pela rua Didouche e começa a cantar sobre uma música gnawi1: Gaïd Salah – Ben Salah tarahlou!” E logo apenas a palavra de ordem “Tarahlo!” (Fora!) é martelada em coro.

Um jovem casal desfila com um bebé, envolto no emblema nacional, balançando no carrinho. O casal exibe este cartaz: “O povo soberano não votará até o momento em que ele mesmo o decida”. 

Um jovem casal desfila com um bebé, envolto no emblema nacional, balançando no carrinho. O casal exibe este cartaz: “O povo soberano não votará até o momento em que ele mesmo o decida”. Uma mãe levanta o retrato de um harag [migrante clandestino que enfrenta o mar], provavelmente o seu filho, com esta mensagem pungente: “Harraga desaparecidos desde 8 de novembro 2018, onde estão as autoridades? Não sabemos quem vendeu a pátria, mas sabemos quem pagou o preço disso!”

O vosso crédito não é suficiente para organizar eleições”

O tema do voto reaparecerá com insistência num grande número de pancartas. Um jovem levanta este escrito sarcástico: “O vosso crédito não é suficiente para organizar eleições, gangues!” Um senhor de uma certa idade gravou palavras fortes num pedaço de cartão: “A nossa Revolução não está à venda; é a Revolução de um povo que aspirou o cheiro da vida. Sim a um período de transição livre e íntegro. Abaixo o poder dos militares”.

O imponente dispositivo da polícia cerca rapidamente a Praça Audin. Uma fileira de homens de azul forma-se ao longo da calçada para encaminhar os manifestantes. A multidão oscila entre a praça Audin e os troços da rua Didouche localizados a montante. Os seus clamores fazem vibrar os edifícios em volta: “Asmaâ ya El Gaïd, dawla madania, asmaâ ya El Gaïd, machi askaria!” (Escuta, Gaïd Salah, Estado civil, não militar), “Makache el vote wallah ma eddirou…!”

Podia-se ouvir também: “Imazighen, anerrez wala neknou!” (Amazighs, podemos estourar, mas não nos ajoelhamos), “Imazighen zkara fel Gaïd!” (Somos Amazighs, goste ou não Gaïd Salah). Há vozes que dizem: “15 septembre, issyane madani!” (No dia 15 de setembro, desobediência civil).

Quando se aproxima a hora da oração, os manifestantes dispersam-se para regressar como um tsunami referendário após a oração de El Djoumouâa. No momento em que um cortejo interminável atravessa a rua Didouche para se dirigir ao Grande Correio, um outro chega de Bab El Oued, enquanto um terceiro braço impetuoso desemboca na rua Hassiba.

Centenas de milhares de vozes gritam em uníssono: “Les généraux à la poubelle, we Dzair teddi l’istiqlal!” (Os generais para o lixo e a Argélia chegará à independência), “Echaâb yourid isqate el Gaïd!” (O povo quer a queda de Gaïd Salah)… Houve também o regresso desta palavra de ordem: “Atalgou ouledna oueddou ouled el Gaïd!” (Libertem os nossos filhos e prendam os filhos de Gaïd Salah).

A propósito, deve-se notar que muitos manifestantes exibiam o retrato de um detido de opinião: Lakhdar Bouregaâ, Hamza Djaoudi, Bilal Bacha… Um grupo de mulheres e de homens trouxe posters com a efígie de Ali Ghediri, e esta mensagem: “Libertem o nosso irmão Ali Ghediri preso em Argel a 13 de junho de 2019” [antigo alto militar, diz-se candidato à Presidência desde fins de 2018].

Eleição imposta = Presidente rejeitado”

O tema das eleições dominou também as mensagens escritas. “Intikhab mafroudh = Raïs marfoudh”, resume com subtileza um jovem cidadão (Eleição imposta = Presidente rejeitado). Podia-se ler também: “Eleições de um poder corrupto, armadilha para idiotas”, “Ocupantes indevidos de El Mouradia2, fora!” Um manifestante filósofo agita este ditado sagaz: “Cogito: penso, logo não voto”. Um outro trouxe um caixote do lixo e este pedaço de papel bem visível: “RND [Reunião Nacional Democrática, aliado da FLN], FLN, governo Bedoui”.

Um manifestante filósofo agita este ditado sagaz: “Cogito: penso, logo não voto”. Um outro trouxe um caixote do lixo e este pedaço de papel bem visível: “RND [Reunião Nacional Democrática, aliado da FLN], FLN, governo Bedoui”.

Assinalemos igualmente esta outra mensagem poderosa: “Esta geração não se contentará com uma semiliberdade.” E esta frase vista noutro painel: “T’roh t’voti, oulidek iroh fel boti” (Tu vais votar e o teu filho vai-se embora numa barca). Sarah, uma “hirakista” experiente, manifesta-se com este slogan incisivo: “Não às eleições com os gangues, sim à escalada”.

Rabéa, 40 anos, vem todas as sextas-feiras de Sidi Moussa para palmilhar as calçadas das entranhas da capital cercadas pela polícia. Reagindo aos últimos discursos de Gaïd Salah, diz-nos: “O povo não pode aceitar que ele (Gaïd Salah) nos comande, decida sozinho e faça discursos às dúzias. Ele não tem habilitações para isso. Só ele fala. Nem Bedoui, nem Bensalah, nem algum ministro se exprime. Em princípio, cada ministro tem a sua área de competência, e o da Defesa deve limitar-se ao Exército. Não tem por que se imiscuir nas presidenciais. Se o faz é porque desde 1965 o Exército foi sempre o coração do poder e continua a dirigir o país.” E lança: “Gaïd Salah tem 80 anos, deve deixar o seu lugar aos mais novos. Temos quadros, intelectuais, jovens brilhantes cujas competências beneficiam a França, os Estados Unidos, o Canadá… É uma infelicidade.”

Maratona hirakiana

Khaled, 36 anos, técnico superior em informática, martela: “Estamos envolvidos numa maratona hirakiana. Na verdade, não é um hirak, é uma revolução e, inchallah3, esta revolução vai continuar até que se vão embora” (dirigindo-se às atuais lideranças). A propósito das eleições presidenciais, declara: “Quando vejo os nomes que se envolveram no diálogo, constatamos que são pessoas que não nos representam. Este poder está numa lógica de “taghanant” [teimoso], mas nós também somos teimosos. Estamos numa maratona contra vós. Não vamos dar-vos trégua até que se vão embora. Disparem contra o povo, embarquem a juventude, ponham-nos na prisão, sujem a nossa ficha judicial… O que quer que façam, acabareis por ir-vos embora. Digo-vos pacificamente, todos vós ir-vos-eis embora. Não vai haver eleições e o 15 de setembro será uma revolução!”

Mohamed, 60 anos, dirá, por seu lado: “Queremos a nossa dignidade, a nossa liberdade, queremos a independência real que esperamos desde 1962. Estamos fartos. Eu sou reformado, os meus filhos fizeram estudos, o mais novo é titular de um mestrado em Estruturas, mas não consegue emprego. Sou eu que lhe dou dinheiro. Queremos uma mudança radical, não queremos uma reciclagem!” Mohamed estima que os ingredientes de uma eleição honesta não estão reunidos: “É preciso começar por mudar Bensalah e Bedoui, tal como este îssaba [bando] em torno de Karim Younès [figura do “diálogo”], que estava na Assembleia Popular Nacional [Parlamento] e que querem utilizar para reciclar as figuras do sistema. Queremos verdadeiras eleições, com gente vinda do hirak, que nos represente realmente. Não queremos reciclagem nem clonagem das mesmas cabeças.”

7 de setembro de 2019

Publicado originalmente em El Watan

Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net

1Género musical de reminiscências subsaarianas

2Palácio de El Mouradia: sede da Presidência da República, em Argel.

3Se Deus quiser.

Termos relacionados Internacional
(...)