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Anticiclone dos Açores está a expandir-se e provoca invernos mais secos

Um estudo publicado na revista Nature Geoscience conclui que a expansão e subida de intensidade do anticiclone que condiciona o clima na Península Ibérica está relacionada com o aquecimento global provocado por ação humana.
Anticlone dos Açores. Imagem EUMETSAT

"A expansão do anticiclone dos Açores não tem precedentes nos últimos 1.200 anos" - este é o título de um artigo científico publicado na Nature Geoscience e que resulta do trabalho de investigadores de departamentos de Oceanografia e Ciências Atmosféricas, Geológicas e Planetárias de várias universidades norte-americanas, liderados por Caroline Ummenhofer.

"O nosso estudo centrou-se especificamente nos meses de inverno, uma vez que é a principal estação em que a Península Ibérica recebe a maior parte das suas precipitações. As mudanças no tamanho e na posição das altas pressões dos Açores durante estes meses têm um grande impacto no transporte da humidade desde o Atlântico ao dirigir os sistemas portadores de chuva", afirmou a cientista ao El Pais.

O estudo analisou os dados de pressão atmosférica na região, recorrendo a registos de estações meteorológicas de Lisboa e dos Açores desde o ano 1850. Para recuar mais no tempo, usaram a informação indireta recolhida nas estalagmites de uma gruta portuguesa e concluíram que no último século houve 15 eventos extremos, enquanto a média dos onze séculos anteriores foi de 9,9 fenómenos extremos relacionados com as altas pressões. Quando o anticiclone é mais intenso, a média mensal de pluviosidade no inverno cai um terço.

Descoberta tem "grandes implicações para os recursos de água disponíveis"

À medida que a expansão do anticiclone torna os invernos ibéricos mais secos, a sua relação com a depressão da Islândia, um sistema de baixas pressões que leva a humidade oceânica para a Europa e provoca as fortes chuvas, também se altera, empurrando-a para norte, "com a Noruega e no norte das ilhas britânicas a viverem condições húmidas foram do comum", relata Ummenhofer.

Ouvido pelo El Pais, o climatólogo Pablo Ortega, do grupo de previsão climática do Barcelona Supercomputing Center, confirma que os modelos usados neste estudo permitem ver que "os gases de efeito de estufa produzem uma expansão e intensificação do anticiclone dos Açores, promovendo condições mais secas na Península Ibérica". E acrescenta que as observações mostram "de forma inequívoca" que a resposta ao aumento dos gases emitidos nos últimos séculos podem explicar a mudança registada nas últimas décadas. Outros investigadores, como M. Vicente-Serrano do Instituto Pirenaico de Ecología, afirmam que os modelos são necessários, mas não são uma verdade absoluta. E depois há "o problema de deslindar que parte se deve às alterações climáticas e qual a que pode ser atribuída à variabilidade natural climática".

Estas descobertas são consistentes com estudos anteriores e "têm grandes implicações para os recursos de água disponíveis para a agricultura ou outras atividades com uso intensivo de água ou para o turismo", diz Caroline Ummenhofer ao Guardian, prevendo dificuldades maiores no futuro, à medida que o anticiclone se vai expandindo e assim agravando a seca na Península.

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