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Antes de 25 Abril 74 nunca estive confinado, estive só preso

Da minha cela via um pouco de mar e a estrada que ia para Caxias e Cascais. Havia uma ou duas crianças que às vezes surgiam numa das curvas da estrada e pensava como seria Portugal quando tivessem a minha idade de então – 21 anos. Por Domingos Lopes.

 

O esquerda.net tem publicado um testemunho por dia de resistentes antifascistas sobre o seu quotidiano na prisão e/ou na clandestinidade e as estratégias que encontraram para combater o isolamento.

Todos os testemunhos publicados até ao momento estão reunidos aqui:

Confinamento(s) em tempo de ditadura

Projeto organizado por Mariana Carneiro.


Antes de 25 Abril 74 nunca estive confinado, estive só preso

Antes de 25 de abril de 1974 nunca estive confinado, antes preso no forte de Caxias. E a razão da prisão: exercer os direitos cívicos mínimos – expressão, reunião, associação. Era dirigente da Associação Académica de Coimbra. Para me prenderem apontaram-me uma arma e levaram-me. Na prisão tiraram-me o cinto, os cordões dos sapatos, a esferográfica e os papeis que tinha. Cortaram-me o cabelo. Encerraram-me numa cela que mesmo durante a noite tinha uma luz acesa. De tantas em tantas horas abriam o postigo e olhavam para dentro da cela. Quando chegou o pijama tinham tirado o cinto.

 O recreio de uma hora só dava para ver o céu e o caminho da cela ao terraço, bloqueado de muros altos, era cuidadosamente preparado para não ver nenhum outro preso. Vinham a meio da noite e levaram-me de Caxias para a Rua António Maria Cardoso para, por meio da tortura do sono, fazer com que eu confessasse que pertencia ao Partido Comunista, o que significava no mínimo dois anos de cadeia. Ali estive “confinado” a pé sem me poder sentar sequer três ou quatro dias e noites, já não me recordo.

As cartas que escrevia eram entregues abertas e as que recebia abertas estavam com o carimbo da DGS, a PIDE com outro nome. Os maços de cigarros vinham abertas e a comida inspecionada e cortada para ver se lá havia algo.

Da minha cela via um pouco de mar e a estrada que ia para Caxias e Cascais. E a mudança de turno dos GNRs. Ouvia o ruído da vida através das grades. Raramente via passar pessoas ao pé do forte. Havia uma ou duas crianças que às vezes surgiam numa das curvas da estrada e pensava como seria Portugal quando tivessem a minha idade de então – 21 anos. Uma vez deu me vontade de assobiar para alguém, mas o castigo esperado impediu-me de o fazer. No recreio, às vezes, via gaivotas, pardais e um ou outro avião.

Com tantos companheiros presos só ouvia as carrinhas partirem e chegarem. Para saber quantos eram os dias de torturas tomava nota do dia da partida do preso e depois esperava para o ver chegar se fosse de dia.

Quando me deixaram chegar livros, estudava e lia. Aprendi a comunicar por pancadas na parede, mas os guardas também conheciam o abecedário.

No recreio atirava miolo de pão com um papel dentro com o meu nome à espera que o vizinho fizesse o mesmo.

 Não entrava nenhum jornal, nem rádio. Não havia notícias no reino do terror. Quem ali chegasse devia saber que não era dono de si próprio e teria de vomitar o que a PIDE queria. A única notícia seria a confissão, se houvesse.

Havia um silêncio feito de terror que oprimia a alma até quando se dormia com a tal luz acesa vinte quatro horas. Silêncio e no lado da minha cela livre o vento no seu lúgubre assobio, indiferente à sorte dos que não podiam ir fazer compras, nem passear o cão... Apenas com quatro ou cinco metros entre a porta e as grades, sem nunca poder sair, a não ser “acompanhado” pelos Guardas.

Tudo isto sob o manto da infamante justificação de que era o resultado de atentarmos contra a segurança do Estado, isto é, de não nos resignarmos e deixar cair os braços para o fascismo pudesse dominar o país na tal segurança. Num dos registos da PIDE era acusado de incentivar a população a recensear-se para poder votar.

Diante de uma pandemia tão poderosa como a do coronavírus os cientistas de vários ramos dentro dos seus saberes aconselharam os governantes a determinar medidas de confinamento para proteção da população. E foi o que se fez através do estado de emergência.

O confinamento permite a cada um defender-se e defender a comunidade num elevado exercício de cidadania e solidariedade. O sacrifício que impõe não visa os que não concordam com o governo. Visa a defesa da comunidade. É um confinamento relativo, pois há espaço para ir fazer exercício físico e compras e até passear o animal de estimação. É seguramente aborrecido. Mas entre esta medida de elevado grau de civismo e o terror a diferença é monumental.

Não há qualquer semelhança entre o terror e a consciência de uma medida que visa a proteção de toda a comunidade.

Domingos Lopes
28.04.2020

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