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Annie Ernaux, a Nobel insubmissa

A vencedora do prémio Nobel da Literatura de 2022 é de esquerda, é parte do parlamento da União Popular francesa, feminista, e pensa que “os sonhos não existem no passado, continuo revoltada, não posso ficar calada”. Por François Jarlier.
Foto de CATI CLADERA/EPA/Lusa.

Na sequência da atribuição do Prémio Nobel da Literatura de 2022 à escritora Annie Ernaux, publicamos um perfil dela traçado na altura em que se juntou ao “parlamento” da União Popular, apoiando o processo unitário de esquerda que se apresentou as últimas legislativas francesas.


A escritora Annie Ernaux junta-se ao Parlamento da União Popular para a campanha presidencial de Jean-Luc Mélenchon. Recordamos a obra e carreira fora das normas de uma resistentes

Annie Ernaux: a invenção da literatura sociológica

Aos 81 anos, Annie Ernaux não renunciou ao combate. “Os sonhos não existem no passado. Continuo revoltada. Não posso ficar calada”: estas palavras da escritora levaram ao rubro as 5.000 pessoas presentes no último comício de Jean-Luc Mélenchon a 5 de dezembro passado no qual foi anunciada a criação de um Parlemento da União Popular.

“Revoltada”, “feminista”, esta escritora nunca deixou de o ser e de o reivindicar. Cultora da “abordagem sociológica” em literatura, através do estudo de si, sempre exprimiu na sua escrita a clareza de uma consciência que se abre ao mundo como este é. Sem nunca esquecer que é preciso mudá-lo todo. Retrato de uma personalidade iluminante.

Annie Ernaux, uma filha de operário com agregação em Letras Modernas

O seu primeiro combate foi tornar-se professora de Letras depois de uma licenciatura em Letras Modernas e um CAPES, o concurso para professores. Porquê um combate? Porque Annie Ernaux é uma filha de operários que se tornaram donos de uma mercearia-café em Yvetot (Seine Maritime), na Normandia. E no seu meio modesto, ainda que se possa ser bem sucedido, nada predestina para isso. Sabe-se como os estudos são um fardo e uma esperança enorme para aqueles que não nasceram nos bairros ricos.

Para além disso, as pressões são infinitas para uma mulher jovem na faculdade: psicológicas, físicas, sociais: entre um aborto clandestino nos anos 1960 antes da legalização da IVG e o abandono de si nas tarefas de cuidado do casal, Annie Ernaux percorreu um caminho difícil. Ainda assim concluiu o CAPES e depois a agregação em Letras Modernas em 1971.

1974: Les Armoires vides, primeiro romance

Fica-se por aqui? Não. Porque o que vive desde a infância, os seus sucessos escolares que forçam a admiração do seu pai, o seu afastamento progressivo de uma família que deixa para trás, as suas feridas enquanto mulher, Annie Ernaux nunca vai esquecer. Decide contar isso, pensá-lo, passar “à faca” as suas paixões e ligações como dirá mais tarde.

Em 1974 sai o seu primeiro romance, Les Armoires vides. Narra aí a sua vida durante os estudos de Letras, o seu aborto e as suas recordações de infância. Depois vem La Femme gelée em 1981, no qual explica como encontrar aquele que se tornou o pai de uma criança em comum significou sacrificar a sua liberdade, os seus estudos, para se encontrar “gelada” e escondida por detrás dele, relegada a casa e às tarefas de educação e de cuidado, antes de conseguir construir a sua própria vida sem ele.

Prémio Renaudot em 1984 por La Place

La Place, de 1983, com o qual alcança o Prix Renaudot 1984, marca uma viragem: esta narrativa precisa, meticulosa, da sua infância normanda, do seu pai que esperava que ela fosse “melhor que ele”, da fronteira progressiva que se estabeleceu entre eles e a sua vida precária mas feliz, marca a literatura ambiente. Pela primeira vez, um desses percursos que são louvados nos meios de comunicação social como um “sucesso” lança um olhar para trás. Pensa esta violência que foi para ela, para os seus pais, esta ascensão social.

E por extensão, mostra todo o desprezo que pode comportar um meio cultural e social que se julga “competente” face ao mundo operário. Seguir-se-ão outras narrativas tão justas e rigorosas dos desconfortos de uma vida sobre a qual muitos se calam: Une femme sobre a morte da mãe em 1987, Passion Simple sobre uma relação amorosa tóxica com um homem casado em 1992, La Honte em 1997, L’Evènement em 2000 contando o seu aborto clandestino.

Annie Ernaux, grande leitora de Pierre Bourdieu

Annie Ernaux sempre cultivou um olhar aguçado e sincero sobre as realidades mais minúsculas e dolorosas da vida quotidiana e das relações de classe que aí acontecem: as dos meios burgueses face aos meios operários, dos homens face às mulheres. Grande leitora de Pierre Bourdieu e da sua obra La Distinction, que analisa precisamente o comportamento das classes burguesas ao procurar distinguir-se em todas as suas práticas quotidianas das classes inferiores e estabelecendo um “bom gosto” do qual só eles possuem a chave, é a primeira a praticar o que pode ser um olhar sociológico em literatura.

Face ao real, ela vai, como socióloga, pegar nos pequenos factos da sua própria vida, depois contá-los e dissecá-los para revelar toda a sua violência. Mas há também uma dimensão universal: se Annie Ernaux se conta a si própria é para melhor falar sobre a nossa sociedade, a condição de quem não tem voz, de quem não pôde falar. Era esta a ideia fundamental da sociologia de Bourdieu, a sua esperança: é compreendendo os meandros da sociedade que nos podemos libertar.

A revelação Simone de Beauvoir

Mas entre as figuras às quais se misturou Annie Ernaux na sua vida há outra que agiu, segundo as suas palavras, como uma “revelação”: Simone de Beauvoir. Não que a sua leitura do Segundo Sexo lhe tenha ensinado os privilégios e os fardos quotidianos com que uma mulher se tem de confrontar por ser mulher, ela já os conhecia. Mas porque mostrou como esmagar as humilhações e a culpa por escrever, pensar, estudar, conseguir abraçar o seu corpo e, ao mesmo tempo, o que é ser mulher.

O feminismo será desde então o seu grande combate, ainda antes do Maio de 68 ter colocado na ordem do dia a libertação das mulheres. Um combate no qual ela participou, como outras, mas talvez com um talento e rigor particulares, e que sempre manteve. Que outra pessoa fala tão bem da realidade das mulheres, da sua vida quotidiana, das dominações insuportáveis que são obrigadas a sofrer em silêncio? Beauvoir dizia que “basta uma crise económica, social, política, para que os direitos das mulheres sejam postos em causa”: por isso Annie Ernaux vela sem repouso.

Por fim, não podemos concluir sem recordar vários dos combates políticos que ela travou ao lado das pessoas abandonadas, incansavelmente. Annie Ernaux nunca deixou de se opor sempre que os nossos direitos estavam em causa: quando o governo Hollande aprovou a Lei do Trabalho em 2016, quando o estado de emergência foi instrumentalizado para silenciar toda a atividade democrática, ou quando os coletes amarelos lutavam corajosamente por um mundo melhor, ela estava lá para expressar a sua solidariedade e para organizar um apoio coletivo!

Uma constância infatigável ao lado dos abandonados, sempre com as palavras e o amor que ela produz quando a escutamos. É talvez nos seus romances que encontramos a fonte deste vigor. Porque por detrás da honra que sente pelo seu pai operário e pela sua mãe comerciante dedicando-lhes as biografias que se reservam aos importantes, por detrás da sua vida dilacerada entre dois mundos que ele nunca quis abandonar por facilidade, é a honra e dignidade que ela consagra a todas e a todos. Na batalha da União Popular, com uma consciência destas ao nosso lado, a visão do horizonte é mais clara, o céu é mais limpo. Sabemos para onde ir.


Por François Jarlier na página L’Insoumission. Traduzido por Carlos Carujo para o Esquerda.net.

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