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Angola: Quem condenou ativistas foi Eduardo dos Santos, acusam Rafael Marques e Agualusa

Segundo Rafael Marques, com os ativistas na prisão o regime angolano pretende garantir "que até às eleições gerais de 2017 não haja mais oposição na rua”. Já José Eduardo Agualusa afirma que sentença foi "política" e um "erro estratégico" do MPLA.

Reagindo à decisão do Tribunal de Luanda, que condenou os 17 ativistas angolanos por crimes de “atos preparatórios de rebelião e associação de malfeitores” com penas de prisão efectiva que variam entre os dois e os oito anos, o jornalista e ativista Rafael Marques afirmou, em declarações ao jornal Público, que esta sentença não é uma surpresa.

“Conhecendo bem o poder ditatorial, esperava-se que os jovens fossem condenados, que as penas permitissem a sua liberdade condicional e que o caso fosse remetido para o Tribunal Supremo para decidir o veredito desta palhaçada, dando a ideia de que, quando os tribunais falham, o Supremo corrige a situação” e o poder judicial funciona, destacou.

“É assim que o regime tem dado a ideia de autonomia do poder judicial”, acrescentou o ativista, sublinhando que “esta decisão revela desespero de José Eduardo dos Santos, que se tornou o inimigo comum de praticamente todo o povo angolano.”

Segundo Rafael Marques, o facto de terem sido presos “permitiu ao Presidente vir a público anunciar [no dia 11 de março] que se iria reformar”, e com isso “parecer" que está a ter um ato de "estadista a abandonar o poder pelo seu pé” e “não um indivíduo que é afastado por causa da vontade da maioria dos angolanos”.

“Não tenho medo deste regime, nunca tive. Este tipo de ações só reforça a necessidade de intervenção. Não me calam, dão-me mais força para lutar pelos jovens que conheço e tudo farei para continuar a luta deles”.

O jornalista defendeu ainda que o general José Maria, chefe dos serviços secretos militares, é o “principal arquitecto desta operação” e que a detenção dos ativistas visa assegurar que “até às eleições gerais de 2017 não haja mais oposição na rua”.

Rafael Marques lembrou que, neste momento, todos “estamos a fazer comunicados contra a injustiça e o Presidente continua na mó de cima” quando “quem condenou estes jovens foi José Eduardo dos Santos”.

Sobre se esta decisão o intimida, o ativista garante: “Não tenho medo deste regime, nunca tive. Este tipo de ações só reforça a necessidade de intervenção. Não me calam, dão-me mais força para lutar pelos jovens que conheço e tudo farei para continuar a luta deles”.

Lembrando que Angola vive uma ditadura, Rafael Marques salientou que como jornalista tem “mesmo que ser ativista” para defender a sua liberdade de expressão.

O primeiro-ministro António Costa foi alvo de críticas por parte do jornalista angolano por ter recebido a filha do presidente, Isabel dos Santos, no âmbito das negociações com o espanhol CaixaBank sobre o BPI: “O Governo português, independentemente dos partidos, é solidário com os poderes económicos angolanos e com o regime instalado”.

“É uma sentença política”

O escritor angolano José Eduardo Agualusa defendeu, em declarações à agência Lusa, que o processo político “é um erro estratégico enorme por parte do partido no poder e do próprio José Eduardo dos Santos, porque o regime está muito enfraquecido, a atravessar uma situação muito difícil, com problemas económicos e sociais gravíssimos e com acusações graves por parte de instituições importantes, como o caso recente da Igreja Católica".

"É uma sentença política, uma vez que o processo é político, muitíssimo rocambolesco, com muitas situações estranhas ao longo do processo, que culminou com esta acusação final, de associação de malfeitores, que não era sequer uma acusação inicial"

"É uma sentença política, uma vez que o processo é político, muitíssimo rocambolesco, com muitas situações estranhas ao longo do processo, que culminou com esta acusação final, de associação de malfeitores, que não era sequer uma acusação inicial", acrescentou.

Segundo Agualusa, "no imediato, o que vai acontecer é a reativação de todo o movimento de solidariedade para com estes jovens e a reativação da contestação interna, além de um desgaste maior a nível internacional da imagem do próprio Presidente e do regime angolano".

"Este processo, insisto, é político, as decisões são políticas, tomadas a partir de cima, e ainda que haja um recuo depois, entretanto os estragos já terão sido feitos", referiu, sublinhando que, desta forma, "não há veredicto possível do ponto de vista de funcionamento da justiça", uma vez que as acusações são "fantasiosas".

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