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Angola: Mais familiares de vítimas do 27 de Maio interpelam governo

Irmãos de Rui Coelho e filho de Edgar Ademar Valles enviam cartas ao ministro da Justiça pedindo a identificação dos restos mortais das vítimas, a identificação dos algozes e a reposição da Verdade Histórica.
Edgar Ademar Valles
Edgar Ademar Valles

Frederico Penaguião Valles, filho de Edgar Ademar Valles, fuzilado na sequência dos acontecimentos do 27 de Maio sem que lhe fosse feita qualquer acusação, enviou uma carta ao Ministro da Justiça de Angola, Francisco Monteiro de Queiroz, que é também o presidente da Comissão para Implementação do Plano de Reconciliação Em Memória das Vítimas de Conflitos Políticos. Na carta, Frederico Valles considera positiva a reconciliação e a homenagem das vítimas que a comissão de Reconciliação se propõe fazer, mas sublinha que para haver reconciliação e perdão é preciso que se admita a existência de crimes e seja feita a identificação dos seus responsáveis.

Na carta, Frederico Valles recorda o generoso empenho do seu pai e da tia Sita Valles na fase final da luta de libertação nacional que culminou com a independência de Angola. Porém, na sequência dos acontecimentos do 27 de maio, ambos seriam fuzilados sem que lhes fosse dada qualquer possibilidade de defesa.

O órfão de Edgar Ademar Valles pede assim a localização identificação e devolução dos restos mortais do pai e da tia; a identificação dos algozes e dos responsáveis políticos dos assassinatos, e o esclarecimento das circunstâncias que rodearam os acontecimentos.

Irmãos de Rui Coelho

Carta de teor semelhante foi enviada por cinco irmãos de Rui Coelho, ex-diretor do Gabinete de Estudos do Ministério da Administração Interna e ex-chefe de gabinete do primeiro-ministro Lopo do Nascimento.

Rui Coelho não estava em Angola no dia 27 de maio de 1977. Mesmo assim, foi fuzilado
Rui Coelho não estava em Angola no dia 27 de maio de 1977. Mesmo assim, foi fuzilado

“À data dos acontecimentos do 27 de maio de 1977, Rui Coelho não estava em Angola”, recordam. “Estava em serviço na Argélia, para onde se deslocara em 23 de maio de 1977. Regressou a Luanda a 1 de junho e foi preso, juntamente com a mulher, a 2 de junho de 1977, tendo sido, depois, assassinado. Não lhe foi dada a mínima oportunidade de defesa, designadamente um julgamento – violando-se assim os mais elementares direitos humanos e o reconhecido no Direito Internacional.”

Os irmãos recordam também possuírem duas certidões de óbito de Rui Coelho, passadas pela 3ª Conservatória do Registo Civil de Luanda, não coincidentes e com datas distintas de morte”.

Comissão de Reconciliação

Recorde-se que, em maio deste ano, o governo do presidente de Angola, João Lourenço, anunciou a decisão de criar uma Comissão de Reconciliação em Memória das Vítimas de Conflitos Políticos, sem distinguir as vítimas que resultaram do conflito armado pelo qual o país passou até 4 de abril de 2002, das vítimas decorrentes do 27 de Maio de 1977.

O 27 de Maio foi um episódio militar-civil em que os seguidores do dirigente do MPLA Nito Alves foram esmagados pelas tropas cubanas então estacionadas em Luanda, a pedido do presidente Agostinho Neto. Deu origem a uma espiral de violência e execuções sumárias que custaram a vida a dezenas de milhares de angolanos (o número mais citado é o de 30 mil vítimas) na capital e em todo o país.

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