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Ambientalistas denunciam chegada de primeiro carregamento de eucalipto da Navigator

"Este projeto neocolonialista está a usurpar terra e meios de subsistência a milhares de famílias camponesas", denuncia a ONG moçambicana Justiça Ambiental sobre a exploração da Portucel Moçambique, financiada pelo Banco Mundial.
Cartaz contra as plantações. Foto de Justiça Ambiental/Facebook.
Cartaz contra as plantações. Foto de Justiça Ambiental/Facebook.

Grupos ambientalistas portugueses receberam esta quarta-feira com fortes críticas o primeiro carregamento de toros de eucalipto que chegou a Aveiro proveniente do porto da Beira, em
Moçambique. A madeira vem de plantações exploradas pela Portucel Moçambique, uma empresa subsidiária da Navigator. E ainda mais dois carregamentos são esperados este ano, perfazendo um total de 100.000m3 de madeira.

Os ambientalistas dos dois países, que são também apoiados por coligações internacionais, criticam a violação de direitos das comunidades que vivem nas zonas destas plantações. Estas estarão a ter “impactos negativos” na sua “subsistência e segurança alimentar”. E a futura expansão da plantação pode ter impacto em 24.000 famílias.

Já estão plantados até agora, nas províncias de Manica e Zambézia, no centro de Moçambique, 13.500 hectares. Mas o total da área atribuída para exploração à Portucel Moçambique é de 356 mil hectares, o que corresponde a três vezes mais o que a Navigator Company controla em Portugal.

Segundo Anabela Lemos, diretora da Justiça Ambiental em Moçambique, “a Portucel Moçambique afirma que as suas plantações estão a melhorar as condições de vida das comunidades rurais e a trazer desenvolvimento económico para Moçambique. Na realidade, este projeto neocolonialista está a usurpar terra e meios de subsistência a milhares de famílias camponesas, deixando as mesmas sem opções de vida. Enquanto as famílias camponesas perdem tudo que de mais valor tem, a Portucel exporta madeira de baixo valor por mais de 11.000 km para abastecer as fábricas da Navigator em Portugal e ainda afirma que está a contribuir para o desenvolvimento das mesmas. As promessas feitas às comunidades de empregos, vidas melhores e infraestrutura aprimorada foram todas quebradas.”

Os ambientalistas portugueses reforçam estas críticas. Paula Silva, da Quercus, diz que “o modelo de plantação de eucalipto em Portugal está a ser exportado com grande custo para as comunidades e a biodiversidade em Moçambique. Não queremos que a Navigator Company reproduza o impacto que teve em Portugal, em Moçambique ou em qualquer outro lugar, onde décadas de influência sobre os políticos conduziram à desregulamentação do sector florestal e enormes impactos no ambiente.”
Por sua vez, para João Camargo, do coletivo pela justiça climática Climáximo, “as práticas da The Navigator Company mimetizam o modelo extrativista baseado na manutenção das lógicas do colonialismo, em que os países africanos são tratados como uma mina, onde tudo se extrai a baixo custo com enorme prejuízo para o povo moçambicano e ricas recompensas para os acionistas das multinacionais. Além disso, apesar do enorme esforço de publicidade, as plantações florestais industriais não são uma solução para a crise climática, não são florestas e têm um só objetivo: produzir lucro, mesmo que isso implique a destruição de florestas nativas, solos, águas e comunidades. Esse é o modelo de negócio das celuloses, o modelo capitalista de saque.”

Os ambientalistas apelam ao governo moçambicano para revogar as concessões de terras da
Portucel Moçambique e ao Banco Mundial para retirar o seu apoio financeiro, uma vez que a International Finance Corporation, propriedade do Banco Mundial, controla cerca de 20% das ações da Portucel Moçambique, e o Forest Investment Program, outra iniciativa do Banco Mundial, ajudou a financiar a plantação dos primeiros 40.000 hectares.

O coordenador regional da África para o Global Forest Coalition, Kwami Kpondzo, esclarece que “o Banco Mundial está a dar à Portucel milhões para plantar eucalipto em Moçambique sob o falso pretexto de que a florestação com plantações pode ajudar a resolver as alterações climáticas. O oposto é verdade. A conversão de florestas e terras agrícolas em plantações liberta grandes quantidades de carbono. Além disso, a madeira é enviada a milhares de quilómetros apenas para ser transformada em produtos de papel de vida curta, como papel de escritório, higiénico e embalagens de supermercado, ou queimada para gerar eletricidade nas fábricas de celulose do Navigator.” E Sergio Baffoni, ativista da Environmental Paper Network, diz que “as plantações de celulose planeadas pela Portucel Moçambique transformaram-se num bumerangue para as comunidades locais e para o ambiente. As plantações espalharam-se pelas terras das pessoas e por algumas das últimas florestas de miombo remanescentes, causando poluição, erosão do solo, perda de biodiversidade, aumento dos riscos de falta de água e incêndios florestais numa área já sujeita à seca.”

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