Alemanha investiga mais casos de infiltração de extrema direita na polícia

23 de August 2020 - 13:29

No primeiro semestre de 2020 foram reportados mais de 40 casos de infiltração extremista nas forças policiais alemãs. Nos últimos anos são mais de 400 os incidentes com suspeita de atividade de extrema direita, racista ou anti-semita dentro da polícia do país.

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Fotografia de Eoghan OLionnain/Flickr.

Só na primeira metade de 2020, os ministérios do Interior dos estados federados da Alemanha e o nacional relataram pelo menos 40 casos de infiltração extremista, na maioria de direita, nas forças policiais. A estes números, divulgados pela agência de notícias DPA, faltam os dados dos estados da Renânia do Norte-Vestfália e Baviera, bem como a cidade-estado Berlim. 

A notícia é do jornal Público a partir de uma grande reportagem da revista Der Spiegel. Segundo os alemães, foram relatados pelo menos 400 incidentes em que se suspeita de actividade de extrema-direita, racista ou anti-semita nas forças policiais. 

Um dos casos mais graves, há dois anos sob investigação, está relacionado com um grupo que assina com o nome NSU 2.0 quando faz ameaças de morte. A referência no nome é a um grupo extremista que matou nove pessoas de origem turca entre os anos 2000 e 2006. Ao fazer ameaças de morte, o NSU 2.0 usa dados confidenciais que se sabe sairam de um computador da polícia de Frankfurt. As ameaças mais recentes foram feitas este mês a vários políticos.

Um outro caso é o do grupo Nordkreuz, liderado por Marko Gross, com experiência de oito anos nas forças armadas e vinte anos na polícia alemã. Segundo o divulgado pelo Público, Gross tinha em sua casa "uma metralhadora Uzi com milhares de caixas de munições, explosivos e facas”. O material seria de tal forma extenso que a lista levou 45 minutos a ser lida em tribunal, segundo revelou o New York Times. Mas a preocupação não se deve exclusivamente à quantidade de material que Marko Gross tinha em sua casa. Descobriu-se que muito deste veio de depósitos militares e de polícia, “fazendo supor que havia colaboração nos locais de onde saíram; mas nunca se descobriu quem as tirou, nem como foram parar às mãos” do ex polícia. 

O “Dia X”

Marko Gross acabou com uma pena suspensa. Isto porque o juiz concordou com o argumento da defesa, que dizia que o ex polícia estava apenas a preparar-se para o “Dia X”, não tendo planos para assassinar ninguém. 

O “Dia X” é um dia mítico para neonazis e militantes da extrema-direita, em que perante o fim da ordem pública alemã lhes caberá salvar-se a si próprios, e salvar o país. 

Heiko Böhringer, um político alemão, foi alvo de ameaças de morte em 2015. Na sequência dessas ameaças, foi visitado por dois polícias que fizeram um desenho da sua casa, procurando saber, entre outras informações, por onde entrava e onde dormia. Três anos depois, o desenho de sua casa seria encontrado em buscas a integrantes do grupo Nordkreuz, estava na casa de um polícia que trabalhava na sua cidade. “Foi difícil acreditar que quem dizia que me ia proteger foi dar a informação a alguém para me fazer mal”, contou ao New York Times.

Em entrevista à mesma publicação, Friedriszik, deputado do estado Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, onde o grupo foi fundado, alerta que esta pode ser apenas a ponta do icebergue. “Estas células estão em todo o lado. No exército, na polícia, nas unidades de reservistas”, disse.