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Alain Badiou: Os quatro princípios do marxismo

Um marxismo vivo reaparecerá e inscrever-se-á a possibilidade do comunismo na consciência geral da humanidade?, questiona o filósofo Alain Badiou nesta entrevista em que apresenta esta posição política como a possibilidade de transformação do princípio de classe na sociedade humana.
Alain Badiou en 2011. Foto de Jean-François Gornet/Flickr.
Alain Badiou en 2011. Foto de Jean-François Gornet/Flickr.

Nesta pequena entrevista conduzida por Alexis Cukier e Isabelle Garo em 2019, o filósofo francês Alain Badiou fala sobre o que considera ser quatro princípios fundamentais do marxismo. Trata também da conjuntura e das lições do maio de 1968 em França, bem como do circulo althusseriano. Alain Badiou é um filósofo de renome mundial, ex-professor de Filosofia da École Normale Supérieure em Paris e autor de vários livros, incluindo Teoria do Sujeito, Ser e Evento, Lógica dos Mundos e muitos mais.


A. Cukier e I. Garo: Como encontrou o pensamento de Marx e como começou a usá-lo? Em que contexto teórico e político, respondendo a que urgências e a que problemas? Como mudaram esses usos, quais foram as relações dessa evolução, por um lado com as transformações no campo dos estudos marxistas, e no domínio académico mais amplo, e por outro lado com os acontecimentos políticos e os seus engajamentos como militante?

A. Badiou: Encontrei o pensamento de Marx bem tarde, nos anos 1950, e primeiro sob os constrangimentos impostos pela situação mais geral da guerra na Argélia, uma situação de violência intolerável que exigiu de mim um firme compromisso. Comecei assim, sob a influência de Sartre – meu mestre filosófico da época – a pensar a situação à luz das análises marxistas do imperialismo, do colonialismo e, de forma mais geral, das relações de classe que subentendiam a horrível guerra colonial da época. Ao mesmo tempo, aliás, Sartre estava a deslocar-se de um existencialismo baseado na fenomenologia alemã para um marxismo renovado. Escreveu que “o marxismo era o horizonte insuperável da nossa era”. Com os meus amigos, lemos a recém-publicada Crítica da Razão Dialética que nos abriu para um marxismo não dogmático, um marxismo que tinha sido “desestalinizado” em certo sentido.

É preciso notar que, neste momento, eu ainda era um social-democrata de esquerda, no que diz respeito à política organizada. Com alguns amigos, fundei uma secção socialista na École Normale Supérieure, que, embora pertencendo à SFIO, lutava diretamente contra a política colonial do partido. Um pouco mais tarde, não podendo mais tolerar as abjetas políticas coloniais que o nosso partido apoiava, participámos ativamente da cisão do SFIO criando primeiro o PSA (Parti Socialiste Autonome) e depois o PSU (Parti Socialiste Unifié) do qual eu permaneci militante até 1969. Em suma, eu era um reformista, informado por um marxismo ainda muito geral e que considero retrospetivamente bastante superficial.

A minha radicalização (para usar este termo num sentido positivo…) começou em meados da década de 1960, quando eu era professor de Filosofia numa cidade do interior. Interessei-me na controvérsia da cisão sino-soviética, que lidava com o caráter de classe do poder do Estado, a natureza precisa das contradições com o imperialismo americano e com o próprio estatuto do comunismo. Eu era então secretário federal do PSU no departamento: organizava reuniões, supervisionava campanhas eleitorais e assim por diante. Mas, paradoxalmente, senti-me atraído pelas posições chinesas na dura luta ideológica travada pelo Partido Comunista Chinês contra a postura pós-estalinista de Nikita Khrushchev. Isso levou-me a ler mais de perto os textos do cânone marxista, particularmente aqueles que lidam com as noções fundamentais de “luta de classes”, “revolução” e “comunismo”.

Ao mesmo tempo, na École Normale Supérieure, Althusser formava uma nova geração de jovens intelectuais num marxismo renovado, sob a influência do estruturalismo da época, oriundo dos textos mais teóricos de Marx, em particular, O Capital. Obviamente, eu estava interessado nessa orientação, embora Marx continuasse a ser para mim essencialmente o teórico de um comunismo militante mais do que o autor, muitas vezes tomado de modo académico, de uma ‘crítica da economia política’, o subtítulo, é claro, do próprio O Capital. As minhas referências mais importantes foram – e ainda são – A Miséria da Filosofia, o Manifesto do Partido Comunista, As Lutas de Classes em França, A Guerra Civil na França, a Crítica do Programa de Gotha, a Crítica do Programa de Erfurt, por outras palavras, todas as obras que fizeram de Marx o fundador de um corpo de pensamento militante e organizado para o qual a palavra-chave principal é “comunismo”.

Claro, o maio de 68 veio quebrar o meu compromisso entre a atração exercida pelo pensamento comunista, incluindo a luta ideológica global, e o meu estatuto organizativo como quadro no PSU e, portanto, meu estatuto como um social-democrata de esquerda. De imediato, o tema da classe tornou-se crucial com a articulação entre os destacamentos do movimento estudantil e a greve geral nas fábricas, da qual participei ativamente. Foi aí que ganhei uma imagem concreta do marxismo: a ligação militante, diretamente organizada e agitadora, entre os jovens intelectuais e os representantes das massas trabalhadoras. O facto de esses trabalhadores muitas vezes serem de origem estrangeira, na maioria das vezes vindos da África neocolonial, imediatamente deu lugar a uma dimensão internacional do processo político. Propusemos a palavra de ordem – “Organizar o proletariado internacional da França” – e, no final, foi esta palavra de ordem que para mim ligou a prática política e a convicção marxista.

Como as nossas tentativas foram confrontadas, às vezes de forma violenta, pela oposição do Partido Comunista Francês e da CGT (Confédération Général du Travail), que olhavam basicamente todas as mobilizações de 1968 e anos seguintes com suspeita, o meu interesse pelas posições críticas de Mao contra o revisionismo russo cresceu significativamente. Com os meus camaradas, estudámos de perto os textos que acompanharam e tentaram pensar os episódios sucessivos do que os chineses chamaram de “A Grande Revolução Cultural Proletária”. Essa revolução tocou-nos ainda mais porque tinha no seu cerne a questão da relação entre o movimento estudantil e o movimento operário, uma relação que encontrou sua forma mais nova e inspiradora na ‘Comuna de Xangai’ de 1966. Foi nestas condições que me tornei um ‘maoísta’, o que só significou uma coisa para mim: que, assim como Lenine ativou e renovou o marxismo no incêndio da Revolução Russa de 1917, Mao ativou um marxismo fundado no pano de fundo da degeneração da URSS e das novas possibilidades abertas pela Revolução Chinesa. Referir-se a esta revolução, às análises e diretrizes de Mao, à Revolução Cultural, e assim por diante, nada mais era do que pensar e praticar o marxismo no presente.

O longo período de contra-revolução, sob a miserável bandeira do capitalismo liberal desenfreado e de uma “democracia” parlamentar servil, que se seguiu ao fracasso da Revolução Cultural (após 1969), à morte de Mao (1976) e à queda da União Soviética (1989), inaugurou uma fase em que ainda nos encontramos, na qual o marxismo está de alguma forma ausente em todo o mundo, como possível elemento constituinte da opinião de massa. Refugiou-se no conservadorismo de alguns pequenos grupos e no academicismo. Em particular, o seu vínculo orgânico e militante com a visão comunista foi gravemente afetado, a tal ponto que até a palavra “comunismo”, que a propaganda dominante conseguiu criminalizar, praticamente não está mais presente na discussão político-ideológica. Continuo a ser um dos fiéis guardiães desta palavra, de tudo o que ela significou e significará, que é a vida real do marxismo.

 

Cukier e Garo: O que considera essencial no pensamento de Marx para pensar politicamente o período presente? O que foi e qual é hoje a sua conceção de comunismo?

Badiou: Para mim, o comunismo reside em última instância em quatro princípios, estabelecidos e legitimados tanto pela análise teórica marxista das sociedades humanas quanto pela herança militante do marxismo ao longo dos últimos dois séculos. Esses princípios dizem todos respeito às possibilidades de transformação do que constitui, pelo menos há cinco mil anos (desde a formação do Neolítico), o princípio de classe na sociedade humana.

Primeiro, é possível organizar a vida coletiva em torno de algo diferente da propriedade privada e do lucro. Devemos retornar à declaração crucial de Marx, que, no Manifesto do Partido Comunista, declara repentinamente que tudo o que ele disse pode ser condensado num único ponto: a abolição da propriedade privada. Essa ideia está muito presente na história, pois podemos encontrá-la em certo nível já em Platão e ela animou, na verdade, praticamente a totalidade do pensamento emancipatório do século XIX. Hoje está em grande parte esquecida e deve ser revivida a qualquer custo. Dito de outra forma, o capitalismo não é, e não deveria ser, o fim da História. O que vem depois, como, com que resultado e assim por diante, é outra história.

Em segundo lugar, é possível organizar a produção em torno de algo diferente da especialização e da divisão do trabalho. Em particular, não há razão para manter a separação entre trabalho intelectual e manual ou entre tarefas de direção e execução. Não há racionalidade que prescreva a impossibilidade de entrar na era do que podemos chamar com Marx de ‘trabalhador polimórfico’. Não há nenhuma razão possível para considerar definitivamente racional que um africano cave um buraco na estrada, enquanto um homem branco fica a dar ordens aos seus lacaios. É patológico, mais profundo até do que a noção contável de igualdade. Na verdade, é a ideia de que as divisões que organizam o próprio trabalho são mortais, assassinas.

Terceiro, é possível organizar a vida coletiva que não se funde em conjuntos fechados e identitários, como nações, línguas, religiões e costumes. A política, em particular, pode unificar a humanidade como um todo para além dessas referências. Todas essas diferenças podem e devem existir. Não é o caso de dizer que elas deveriam desaparecer, que todos deveriam falar a mesma língua e assim por diante. Elas podem e devem florescer, de forma generativa, mas na escala política de toda a humanidade. Deste ponto de vista, o futuro é de um internacionalismo completo e devemos afirmar que a política pode e deve existir de forma transversal às identidades nacionais. Não é verdade que os coletivos humanos devam necessariamente organizar-se coletivamente com base nesse tipo de identidade. Novamente, não é o caso de dizer que elas não deveriam existir; elas devem coexistir sem serem fundadas em princípios de separação.

Em quarto lugar, é possível fazer com que o Estado gradualmente desapareça como um poder separado, com o monopólio da violência, da polícia e do exército. Em outras palavras, a associação livre dos seres humanos e a racionalidade que eles compartilham podem e devem substituir a lei e a restrição.

Para sintetizar: em certo sentido, estes quatro princípios constituem claramente um programa para uma saída do momento Neolítico, em que ainda vivemos, ou seja, uma saída do estado estrutural da humanidade nos últimos quatro ou cinco mil anos; ou seja, toda a época em que a propriedade privada dos principais meios de produção e troca resultou na divisão da humanidade em classes. Esta divisão está hoje no seu ápice, onde uma oligarquia de algumas centenas de pessoas possui o equivalente ao que pertence a mais de dois bilhões de outras, onde o património de 1% da humanidade equivale ao de 50% desta mesma população humana.

Mas, por outro lado, esses quatro princípios não são exatamente um programa no sentido forte. São princípios para a avaliação do que aconteceu historicamente, permitindo-nos responder à pergunta: “O que aconteceu no nosso mundo, como movimento, como organização, tem relação com algum destes quatro pontos, qual, e em que condições?” Se nenhum desses pontos for convocado de forma alguma, bem, julgaremos de qualquer maneira que o que aconteceu não está na direção estratégica geral necessária para que uma nova política possa ser criada e se tornar um novo desenvolvimento histórico.

A questão torna-se então: a realização destas quatro possibilidades está inscrita na história? Ou a história continuará simplesmente, ou terminará mesmo em catástrofe para a humanidade, sem ter conseguido essa saída do Neolítico? Essa questão é idêntica à seguinte: um marxismo vivo reaparecerá e inscrever-se-á a possibilidade do comunismo na consciência geral da humanidade?

Não posso no momento responder a esta pergunta. Foi formulada no início da época marxista como a palavra de ordem “comunismo ou barbárie”. Isto tornou-se simultaneamente óbvio, urgente e ausente. Mas o futuro, como Althusser disse uma vez, dura muito tempo.


Entrevista de Alexis Cukier e Isabelle Garo publicada originalmente em Positions Politics, traduzida por Diogo Fagundes para Lavra Palavra. Editado e adaptado para português de Portugal por Esquerda.net.

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