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Agente laranja chega a julgamento em França, mais de 50 anos depois

Durante dez anos, os EUA utilizaram herbicidas para fazer guerra química contra os vietnamitas. Milhões sofreram e sofrem ainda as consequências. Agora, Tran To Nga, vítima destes ataques com nacionalidade francesa, leva às barras do tribunal multinacionais como a Monsanto.
Tran To Nga, a vietnamita-francesa que acusa as grandes multinacionais de cumplicidade na guerra química dos EUA contra o Vietname.
Tran To Nga, a vietnamita-francesa que acusa as grandes multinacionais de cumplicidade na guerra química dos EUA contra o Vietname.

O julgamento que começará esta segunda-feira no Tribunal de Grande Instância de Evry tem mais de 50 anos de atraso. Nele, apenas uma das muitas vítimas estará presente. Tran To Nga, cidadã vietnamita e francesa de 78 anos, acusa duas dezenas de multinacionais, entre as quais a Monsanto e a Dow Chemical, de partilharem responsabilidades pelos ataques químicos das forças armadas dos Estados Unidos da América com o herbicida conhecido como “agente laranja”.

Em conferência de imprensa na sede da União Geral dos Vietnamitas em França, citada pelo Mediapart, um dos seus apoiantes, Kim Vo Dihm, membro coletivo Vietnam Dioxine, explica os resultados dos “80 milhões de litros” deste químico lançados no seu país de origem. Para além do “ecocídio”, que atingiu 20% da floresta do Vietname, entre 2,1 a 4,8 milhões de vietnamitas foram expostos diretamente ao químico. A estes somam-se os contaminados pela cadeia alimentar desde o leite materno, ao leite de vaca, às carnes e peixes. Assim, houve milhões vítimas de cancros, leucemias, malformações, entre vários outros problemas graves de saúde. Uma herança passada de geração em geração e que atinge ainda hoje três milhões de pessoas.

Na mesma ocasião, Nga apresentou o processo que iniciou em 2014 como o último combate da sua vida: “a minha missão é fazer reviver este drama do agente laranja, dá-lo a conhecer mais ao mundo, assim como este crime da guerra química”. O primeiro diz que terá sido na resistência ao imperialismo norte-americano. Foi aí que no verão de 1966 foi “pulverizada” por um avião C-123. Depois disso, perdeu uma filha e teve problemas de saúde recorrentes.

Agora quer dar “uma esperança” aos milhões de vítimas mas não esquece as outras “vítimas do glifosato e dos pesticidas”. “Se me apoiarem por esse passado, estão também a apoiar aqueles que se batem pelo presente e pelo futuro”, vinca.

Apesar de ser o primeiro caso do género em França, nos EUA já houve alguns julgamentos em que o agente laranja chegou ao banco dos réus. Uma vez que o Estado Federal não pode ser acusado, as associações de vítimas decidiram ir atrás das multinacionais que produziram os tóxicos. Os resultados têm sido que este herbicida não era considerado um veneno de acordo com o direito internacional. Sorte diferente tiveram antigos combatentes americanos, sul-coreanos ou australianos que foram vítimas e que conseguiram indemnizações. Agora, este novo caso é visto como podendo abrir caminho a mais queixas do género. Por isso, está a gerar muita expetativa.

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