Joe Biden conseguiu unir contra si os líderes do novo governo talibã e os que fugiram do país após aqueles terem tomado a capital do Afeganistão. O motivo é a decisão de confiscar as reservas do banco central afegão depositadas no banco da Reserva Federal em Nova Iorque e congeladas desde o ano passado com a queda do governo em Cabul. Dos cerca de seis mil milhões de euros que pertencem ao povo afegão, a Casa Branca decidiu gastar metade em “ajuda humanitária” ao Afeganistão e a outra metade em indemnizações aos familiares das vítimas do 11 de setembro que apresentaram queixas contra os talibãs pela autoria desses atentados.
"Os ataques de 11 de setembro não têm nada a ver com o Afeganistão", disse o vice-porta-voz do Governo talibã, Inamullah Samangani, em comunicado citado pela Lusa, qualificando a apreensão dos ativos como "um roubo". Nos protestos do passado sábado em Cabul, o presidente da Associação de Corretores da Bolsa do Afeganistão, Mir Afghan Safi, defendeu que “se alguém merece compensação, deve ser os afegãos”, uma vez que “no nosso caso, foram todos os distritos e todo o país que foram destruídos",
Para Moustafa Bayoumi, escritor e jornalista de origem egípcia a viver nos EUA, a administração norte-americana está a “fazer um assalto como castigo coletivo” de uma população que foi vítima dos talibãs e da al-Qaeda, grupos que nasceram e cresceram no país com apoio financeiro norte-americano. Mas também vítima da destruição causada pelos ataques dos EUA e seus aliados, que nos raros casos em que deu origem a compensações, estas em nada se assemelham ao montante agora em causa. Numa coluna de opinião no Guardian, Bayoumi conclui que o confisco de Biden envia “uma mensagem clara: as vidas americanas são mais importantes do que as vidas afegãs, e a tragédia americana é mais importante do que a dor afegã”.
Num momento em que o país atravessa uma crise humanitária grave, com a malnutrição a atingir três milhões de crianças, a falta de alimentação em 95% dos lares, uma seca prolongada, a pandemia e o congelamento da ajuda internacional, “o que o Afeganistão precisa em última análise é da sua própria economia em funcionamento, o que agora se tornou ainda mais difícil uma vez que os EUA basicamente faliram o Banco Central Afegão”, prossegue o jornalista.
Por outro lado, acrescenta Bayoumi, a ideia de que levar o banco central afegão à bancarrota irá secar o financiamento aos talibãs é contraditória com as regras seguidas pelos EUA que autorizam as ONG no país a pagarem impostos e taxas aos talibãs no decurso das suas atividades.