You are here

Ada Colau: “Há que voltar a fazer política na rua”

A autarca de Barcelona defendeu que "um governo de mudança passa por um aprofundamento da democracia, que significa participação e transparência, eliminar os mecanismos que alimentam a corrupção e que submetem a política ao poder bancário”, esclareceu Ada Colau.
Foto: Fernanda LeMarie - Cancillería del Ecuador/Flicr

“A política é feita de pessoas, não é um algoritmo. O progresso, que nasce da sociedade e se reflete com o tempo, às vezes vai para a frente, volta atrás, estanca, gera dúvidas. Não é uma linha em que após A, vem B e depois C. O Podemos entrou em cena e imediatamente obteve um grande resultado nas eleições europeias, depois ganhou as grandes cidades nas autárquicas: parecia que a consequência lógica era que nas primeiras eleições legislativas superasse o PSOE e inclusive ganhasse ao PP. Mas não. Era mais lógico que isso não acontecesse. Falamos de estruturas de poder que governam há décadas, que estão aliadas com poderes económicos, com os media mais poderosos. Era evidente que não seria fácil”, afirmou Ada Colau durante uma entrevista à La Republica.

“Claro que existiu um erro na campanha eleitoral e há que saber fazer autocrítica”, sublinhou a autarca de Barcelona, eleita pela lista Barcelona em Comú, avançando, contudo, que não se pode pensar que “toda a gente é estúpida ou preguiçosa”.

“Tinha-se criado uma grande expectativa e as pessoas não foram votar. Não podemos esquecer o que sempre dissemos: a mudança real tem que se produzir na sociedade. Se deixarmos de trabalhar nos bairros, na vida quotidiana, nos lugares de trabalho e de vida, por muito que se acerte com a mensagem ou com o candidato, a vitória será sempre efémera. O que muda um país não é uma pessoa ou um lema. O Podemos ganhou entre os jovens, entre quem não vota e nas classes populares: neste sentido é um voto de ‘classe’. Tem que ficar aí para crescer. Há que ser ambicioso e utópico para mudar mas há que ficar nas coisas concretas”, acrescentou.

A autarca de Barcelona assinalou que “as causas da abstenção são muitas: cansaço por demasiadas convocações às urnas, frustração por não ter sido possível criar governo após as primeiras eleições, o Brexit, a crise, o medo”.

Sobre a possibilidade de, depois do Brexit, o apoio do Podemos à independência catalã ter assustado os eleitores, Ada Colau referiu que “este é um exemplo da impressionante máquina de propaganda de que dispõem o PP e o PSOE”.

“Fizeram campanha com o financiamento na Venezuela, com a independência catalã e por último com o Brexit. Desfazer este medo é o nosso trabalho, mas faz falta tempo. As explicações são simples, querem induzir-nos em erro. Não se trata de querer ou não a independência catalã: trata-se de fazer um referendo que é reivindicado por 80% da população. Há que defender com força a soberania de todos os povos, não só a dos catalães. Descentralizar o poder, que os cidadãos tenham a última palavra. Quanto mais se tentar impedir os cidadãos que se expressem, pior será. Sempre”, defendeu.

“Dicotomia entre eficácia de governo e horizontalidade de participação é falsa”

Questionada sobre se é possível governar dando tantas vezes a palavra aos cidadãos, a autarca afirmou que “isto do excesso de democracia é uma criatura muito difundida entre os que não querem que as coisas mudem”.

 “Quando falo da soberania dos cidadãos, falo de práticas democráticas que pusemos em marcha. Não de assembleia permanente: seria estúpido e infantil. O sistema político tem que se aproximar e acompanhar os processos que se produzem por si sós. Um governo de mudança passa por um aprofundamento da democracia, que significa participação e transparência, eliminar os mecanismos que alimentam a corrupção e que submetem a política ao poder bancário”, esclareceu Ada Colau.

“A sociedade está muito adiantada: trabalha em rede para alcançar objetivos e é bem mais ágil do que as instituições. As pessoas organizam-se. Os movimentos sociais cresceram com os telemóveis, as redes fizeram política muito ágil e eficaz. A dicotomia entre eficácia de governo e horizontalidade de participação é falsa. Nós demonstrámo-lo”, frisou.

Ada Colau apontou que “há uma forma não masculina mas machista de fazer política - uma forma de poder vertical e autoritário - e há outra maneira onde a autoridade não procede da imposição senão do reconhecimento e da valorização. Quando os demais reconhecem que és útil. Durante décadas a sociedade machista e capitalista pôs no centro do poder a acumulação, o dinheiro. Acho que hoje há muitas mais mulheres e homens preparados para pôr no centro a proteção”.

“As mudanças que precisamos são sobretudo na forma de organizar a sociedade”

Relativamente à sua relação com o dinheiro, salientou que, “como autarca mais do que como ativista”, está “consciente do facto de que nunca é o dinheiro o que resolve as questões principais”.

“As mudanças que precisamos são sobretudo na forma de organizar a sociedade. Nunca me encontrei numa situação que pudesse ser resolvida só com dinheiro. No entanto, estou consciente do seu valor”, frisou.

“Venho de uma família popular, em casa sofremos com a pobreza. Quando és pobre, te falta dinheiro para te vestires, para apanhares o metro, porque os teus amigos saem e tu não. Em jovem, quando tinha dinheiro, gastava-o em livros: ainda hoje a minha única propriedade é minha biblioteca. Não preciso de uma casa, posso alugar. Mas os livros são meus. De pequena, escondia-os em cima do armário”, acrescentou.

Termos relacionados Internacional
(...)