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Acesso para todos, respeito por quem trabalha e mais orçamento para a cultura

Num almoço em Queluz com pessoas da área da cultura, Catarina Martins exigiu um por cento do PIB para a cultura e mais acesso a esta porque “a cultura é um serviço da democracia”.
José Luís Peixoto e Catarina Martins num almoço com pessoas da cultura em Queluz. Foto de Paula Nunes.

No arranque oficial do período eleitoral, a coordenadora do Bloco esclareceu como entende uma campanha: “um exercício de respeito pelas pessoas” com milhares de bloquistas “empenhados em esclarecimento e mobilização, sem energia perdida, sem palavras ocas, sem provocações”. O Bloco apresenta-se assim como “alternativa programática e fazedor de pontes que sempre foi”. E pretende “continuar o que se começou com mais esquerda, mais coragem, mais justiça”.

O Bloco quis marcar o início da campanha com um almoço com pessoas da área da cultura em Queluz. E contou com a presença de figuras da cultura como a jornalista Pilar del Rio, os escritores José Luís Peixoto, Filomena Marona Beja, Afonso Cruz e Tatiana Levy, as atrizes Cristina Carvalhal, Cucha Carvalheiro, Lúcia Moniz, Lucinda Loureiro, Sara Carinhas, Sara Gonçalves, Sofia de Portugal, os músicos Fernando Tordo, Francisco Fanhais, Luanda Cozetti de Freitas, os realizadores Miguel Gonçalves Mendes, Manuel Pureza, para além dos mandatários por Lisboa, Diana Andringa, e pelo Porto, Pedro Lamares (na foto em baixo). 

Pedro Lamares

Catarina Martins mostrou a cultura como sendo a área primeiro atacada pelos autoritarismo e das consideradas mais descartáveis e menosprezadas em tempo de crise. Sobre o autoritarismo lembrou que “enquanto Trump distraía o mundo com twitts mais ou menos absurdos acabava com os apoios públicos à arte nos Estados Unidos” e que “Bolsonaro, das primeiras ações que teve, foi proibir determinadas expressões artísticas, foi atacar as universidades, é atacar o conhecimento”. Mas até “na Europa também já temos ataques a serem feitos”.

Antes de ir à segunda ideia, a coordenadora do Bloco parafraseou uma citação utilizada numa das últimas intervenções públicas de Maria de Lurdes Pintassilgo que, face a quem colocava os problemas do mundo como muito complexos, retorquia que “na verdade não é assim tão complicado queira-se ouvir quem tem soluções, queira-se se ouvir os escritores, os artistas, os filósofos, os intelectuais e os cientistas”. Já Catarina Martins diz-se não tanto otimista porque não sabe “se as soluções já existem e se estão nos cientistas, nos intelectuais e nos artistas”. Mas sabe que “estes são quem tem ouvidos no mundo e são quem nos fala dos caminhos que existem porque aprendem com toda a gente, todos os dias”.

E foi isso que as pessoas das várias áreas da cultura fizeram “nos últimos anos de uma crise tão forte”, em que “as questões da cultura foram tão marginalizadas” e os financiamentos cortados. Apesar de tudo isso, “nesses anos de todos os cortes nós soubemos da vida deste país por estes artistas que ninguém conseguiu silenciar”. Porque “quando estava tudo a ser difícil, nós tivemos os filmes sobre o desemprego, tivemos quem tivesse cantado a emigração, quem tivesse escrito sobre o desespero, tivemos nos palcos deste país a crise que o país vivia e isso humanizou-nos” resistindo a um discurso político “violento” que “colocava geração contra geração, trabalhadores contra trabalhadores, as pessoas umas contra as outras”.

Assim, os artistas que tinham sido atacados “foram os mesmos que humanizaram as pessoas que estavam a ser perseguidas e mostraram de que elas eram feitas”, “foram cimento de empatia e de solidariedade”. Por isso mesmo, a dirigente do Bloco considera-os “grandes construtores da solução política que tivemos nos últimos quatro anos” uma vez que mostraram essa urgência”.

Só que “desgraçadamente a mudança que ajudaram a criar não chegou às políticas públicas para a cultura”. Contudo, algumas coisas positivas foram alcançadas: a Televisão Digital Terrestre passou a ter mais canais, o IVA da cultura baixou, “um passo simbólico mas que é importante para algumas instituições”, criou-se uma lei que reconhece que existe uma rede de teatros e cineteatros neste país mas “agora esta rede precisa dos meios”.

Não mudou o paradigma

Catarina Martins sabe, contudo, que “não mudou o paradigma”. Apresentou assim alguns exemplos disso mesmo:” continuamos a ter todo o debate sobre as artes plásticas e visuais refém do que foram as coleções feitas por banqueiros” e até “tivemos de nos levantar para que o forte de Peniche não fosse um hotel e hoje pudéssemos ter um museu da Resistência”, a música, o cinema, que a literatura “continuam reféns da grande distribuição” e “temos um ministério com nome de ministério mas sem orçamento de ministério”.

E foi porque as pessoas que trabalham na cultura sabem que não mudou o paradigma que “saíram à rua nas maiores manifestações para exigir o respeito que merecem pelo trabalho que fazem”. Um respeito merecido porque a cultura é “um serviço da democracia de que o nosso país precisa” mas não dado porque “mantemos as instituições muitas vezes estranguladas”, e não se olha para quem trabalha no setor como um trabalhador. Para a coordenadora do Bloco prémios e agradecimentos a algumas pessoas da cultura “não pagam as contas de supermercado de ninguém”.

Portanto, há “dois passos essenciais”: “respeito por quem trabalha e orçamento para que o ministério seja digno desse nome”.

Sobre esta última ideia, Catarina Martins pretendeu clarificar quem insiste que o orçamento para a cultura está “espalhado dos Negócios Estrangeiros à Educação”. Para ela, “quando queremos um por cento do PIB para a cultura é mesmo para as artes e para o património”.

Para rematar, aos direitos dos trabalhadores culturais e ao financiamento, a dirigente bloquista voltou a juntar o direito ao acesso à cultura. Pintando o quadro de um país que “tem a menor quota de produção nacional nas suas televisões, nos seus cinemas, nas suas livrarias”, “em que menos gente lê um livro, vai a um concerto, a um espetáculo, conhece um museu”.

Socorrendo-se da ideia de João Semedo que dizia que quem tinha salvo o SNS dos ataques da direita e dos apetites privados foram os seus utentes, Catarina Martins disse que com a cultura também tem de ser assim e que esta “tem de chegar a toda gente porque é essencial à vida de toda a gente”.

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