You are here

Acabemos com a barbárie! Contra os bombardeamentos na Síria e no Iémen

Quem continua a ser fiel às esperanças geradas pela revolta árabe condena o assalto reacionário que cai do céu, qualquer que seja a sua origem. Por Gilbert Achcar.
Casas destruídas em Sanaa, capital do Iémen, pelos bombardeamentos da coligação encabeçada pela Arábia Saudita, maio de 2015
Casas destruídas em Sanaa, capital do Iémen, pelos bombardeamentos da coligação encabeçada pela Arábia Saudita, maio de 2015

A opinião política árabe divide-se em duas categorias principais. Por um lado, estão os média que condenam os bombardeamentos devastadores e mortíferos das cidades e campos da Síria por parte do regime e do seu mentor russo, enquanto mantêm silêncio sobre os bombardeamentos devastadores e mortíferos das cidades e campos do Iémen por parte da coligação dirigida pela Arábia Saudita, quando não os apoiam. Por outro lado, há quem condene os bombardeamentos devastadores e mortíferos das cidades e campos do Iémen por parte da coligação dirigida pela Arábia Saudita, enquanto mantêm silêncio sobre os bombardeamentos devastadores e mortíferos das cidades e campos da Síria por parte do regime e do seu mentor russo, quando não os apoiam.

Mal se ouve a voz de uma terceira categoria, a de quem condena todos estes bombardeamentos por considerá-los igualmente criminosos (apesar de ser inegável que os bombardeamentos por parte do regime sírio e do seu mentor russo têm causado muitas mais vítimas e destruições muito maiores). Não obstante, esta terceira categoria existe e provavelmente é mais importante e mais ampla do que parece indicar o seu silêncio. Trata-se da categoria de quem situa os interesses e a segurança das populações acima de qualquer consideração política e recusa a lógica deplorável de “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”, independentemente da natureza desse “amigo”, dos valores que representa e dos fins que persegue. A verdade é, efectivamente, que as forças contrarrevolucionárias que se mobilizaram contra a grande revolta árabe de 2011, conhecida pelo nome de “primavera árabe”, diferenciam-se pelas suas formas e pela sua natureza.

Tanto o regime sírio como o da Arábia Saudita constituem pilares do antigo regime árabe podre contra o qual se levantou a revolta popular, que sonhava com o a sua destruição e com o estabelecimento em seu lugar de uma ordem que lutasse por “pão, liberdade, justiça social e dignidade nacional”, como dizia a consigna gritada na praça Tahrir do Cairo e em muitas outras praças, uma consigna que representa o melhor resumo das aspirações da “primavera árabe”. O objectivo destes dois bombardeamentos – o que leva a cabo o regime sírio e o seu mentor russo e o que conduz o regime saudita e os seus aliados - é essencialmente o mesmo: ambos pretendem enterrar o processo revolucionário iniciado na Tunísia em 17 de dezembro de 2010, há seis anos.

Gilbert Achcar
Gilbert Achcar

O papel do regime sírio e dos seus aliados iranianos (acompanhados de forças auxiliares) e russos face à revolução síria, que reprimem da forma mais horrível e desprezível, à custa de um número incalculável de massacres e destruições, não poderia ser mais claro. Exceto talvez para aqueles que se negam a ver e continuam a negar a realidade ou se esforçam por justificar este papel, apresentando a revolta como produto de uma conspiração estrangeira, repetindo o argumento utilizado por todos os regimes reacionários que se confrontam com levantamentos populares e revoluções.

Quanto ao papel do regime saudita à cabeça da reação árabe, ele é atestado por toda a história do reino, especialmente desde que amainaram os ventos da libertação do colonialismo e do imperialismo no mundo árabe. A partir de 2011, este papel tomou formas muito diversas. Da repressão directa, como foi a intervenção armada no Bahrein, em apoio do antigo regime (março de 2011), passando pelos diversos apoios prestados aos antigos regimes, como nos casos do Egito e da Tunísia. Finalmente, tomou a forma de contribuição de ajudas e fundos a grupos salafistas na Síria com o fim de canalizar a revolta para uma ideologia confessional que convém ao reino e lhe permite desbaratar a ameaça democrática que representava a revolução síria para o despotismo árabe em todas as suas variantes, e não unicamente para o regime baasista sírio.

No Iémen, país vizinho cujos acontecimentos constituem a sua principal fonte de preocupação, o reino saudita interveio para favorecer um compromisso entre o reacionário Ali Abdullah Saleh e uma oposição dominada por forças reacionárias. Este frágil acordo estava condenado ao fracasso: acabou por afundar-se e na sua queda provocou o fracasso do Estado iemenita, levando o país para o inferno da guerra. Na guerra iemenita não se enfrentam um lado revolucionário e outro contrarrevolucionário, mas duas fações que se opõem às aspirações fundamentais por que se tinha rebelado a juventude iemenita em 2011. A intervenção levada a cabo pela Arábia Saudita apoia uma das fações numa guerra entre dois campos reacionários e por motivos estritamente associados à segurança do reino. A sua ferramenta principal encaixa na sua natureza reacionária: bombardeamentos aéreos de zonas povoadas sem preocupação com a morte de civis, deste ponto de vista idênticos aos bombardeamentos russos na Síria, sem falar já do assassinato deliberado de civis pelo regime.

Por esta razão, quem continua a ser fiel às esperanças geradas pela revolta árabe e manifesta a vontade de fazer reviver o processo revolucionário que pôs em marcha (e que se confrontou com uma forte recaída reacionária dois anos após o seu começo), continua a defender princípios sólidos e condena o assalto reacionário que cai do céu, qualquer que seja a sua origem. Este é um dos aspetos indispensáveis à construção no mundo árabe de um polo progressista independente de todos os polos e eixos dos antigos regimes árabes e dos seus concorrentes reacionários. Esta é a condição necessária se queremos que a revolução árabe renasça e retome o caminho que empreendeu há seis anos. Sem isto não há esperança de superar a situação catastrófica em que se encontra a região.

Artigo publicado em francês em alencontre.org, traduzido para espanhol por Viento Sur e para português por Carlos Santos para esquerda.net

Termos relacionados Internacional
(...)