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93% da população assume baixo consumo cultural

Um inquérito sobre as práticas culturais dos portugueses antes do início da pandemia confirma que os níveis de rendimento e de escolaridade são determinantes no acesso à cultura.
Foto Paulo Valdivieso/Flickr.

Foi lançado esta terça-feira o estudo do Instituto de Ciências Sociais realizado em 2020 e intitulado “Inquérito às Práticas Culturais dos Portugueses”. Encomendado pela Fundação Gulbenkian e coordenado pelo sociólogo José Machado Pais, o especialista em inquéritos Pedro Magalhães e o programador cultural Miguel Lobo Antunes, este trabalho procurou fazer o retrato da fruição cultural dos portugueses antes do início da pandemia.

E as conclusões do inquérito não são animadoras, com 93% dos inquiridos a assumirem ter um baixo consumo de atividades culturais, incluindo atividades como o teatro, ballet, dança, ópera, cinema, circo, concertos, festivais e festas locais. Para os responsáveis pelo inquérito, citados pela agência Lusa, este aparente divórcio dos portugueses com as atividades culturais tem raízes históricas, dado que “o setor cultural não foi um pilar central no pós-25 de Abril, depois do longo período de ditadura, pelo que a democratização cultural tem ainda um longo caminho a percorrer”.

Dividindo os inquiridos na categorias de “omnívoros” e “unívoros” culturais, consoante apresentem “uma orientação cultural mais diversificada" ou demonstrem "uma menor frequência nas práticas culturais”, o inquérito conclui que os primeiros "são mais vezes estudantes e trabalhadores, com os rendimentos do agregado familiar mais elevados”, enquanto os segundos são sobretudo os inquiridos a partir dos 65 anos, que se identificam mais frequentemente como "domésticos não remunerados ou reformados", e com níveis de escolaridade mais baixos.

A conclusão óbvia é de que "o consumo cultural é socialmente estratificado" e que "a origem e posição social dos indivíduos, tendo em conta o nível de escolaridade dos pais, amplia os efeitos do capital escolar do próprio, reproduzindo velhas clivagens sociais e culturais, e, até certo ponto, limitando a progressão da frequência das gerações intermédias e mais antigas". De facto, acrescentam os autores, "quando os pais têm um nível de escolaridade superior, aumenta quase quatro vezes mais a hipótese de um indivíduo ter uma orientação de consumo cultural omnívoro, quando comparado com indivíduos cujos pais têm uma escolaridade inferior". No entanto, assinalam também que ambos os grupos "valorizam práticas, estilos e géneros que se baseiam em valores pessoais e sociais próximos da sua cultura”, o que pode abrir uma oportunidade para aumentar o acesso à cultura se “aprofundarmos a relação dos indivíduos com a Cultura que não é 'trabalhada' na escola, mas com diferentes tipos de instituições e equipamentos culturais”.

Os hábitos de leitura dos portugueses são baixos e o inquérito vem confirmar essa realidade. Nos 12 meses anteriores à pandemia, 61% dos portugueses não leram um único livro em papel, e, dos 39% que afirmavam ter lido, a maioria leu pouco. Os ebooks atraíram apenas um em cada dez inquiridos no mesmo período. A falta de estímulos à leitura em contexto familiar ajuda a esta realidade, com 71% dos inquiridos a assumirem que os pais nunca os levaram a uma livraria, a uma feira do livro (75%) ou a uma biblioteca (77%). 47% dizem que os pais nunca lhes ofereceram um livro e 54% afirmam que nunca lhes leram um livro de histórias. Para o investigador José Machado Pais, há que sublinhar que “as práticas culturais se associam bastante às práticas de leitura”, ou seja, um leitor de livros tem uma maior propensão a desenvolver outras práticas culturais, “de onde todos os investimentos feitos na sensibilização, no interesse pela leitura, como o Plano Nacional de Leitura são bem vindos”, bem como outras iniciativas em contexto escolar, familiar, associativo ou nos media para fomentar o interesse pela leitura. Quanto à leitura de jornais, está um pouco acima da dos livros (43%), embora aqui o formato digital atraia o dobro dos leitores (21%).

No que diz respeito às atividades culturais mais procuradas pela população, o cinema surge em lugar de destaque com 41% dos inquiridos a afirmarem ter ido ao cinema no ano anterior. Quanto aos que não foram, as justificações variam entre a falta de tempo (25%), de interesse (22%), o preço elevado dos bilhetes (14%) e a não existência de cinemas na zona de residência (11,5%). E há 20% a justificar que preferem ver o mesmo filme em casa na televisão ou noutros formatos digitais. A divisão etária dos que afirmaram ter ido ao cinema é também reveladora: 82% tinham menos de 24 anos e apenas 8% tinham mais de 65 anos. E os consumidores mais regulares de cinema em sala “têm o ensino superior e auferem rendimentos entre os 1.800 euros e mais de 2.700 euros mensais”.

Quanto ao consumo de teatro, o inquérito encontrou 13% de respostas positivas quando questionados sobre a ida a estes espetáculos no ano anterior. Aqui são as faixas etárias entre os 15 e os 24 e entre os 35 e os 44 anos que mais dizem frequentar o teatro uma ou duas vezes por ano (16% e 15%, respetivamente). Em termos socioprofissionais e de nível de escolaridade, os maiores frequentadores de salas de teatro são os grandes empresários e profissionais liberais, profissionais socioculturais e gestores e com o nível de ensino superior. Também aqui, os inquiridos com rendimento acima de 2.700 euros mensais são os que mais assistiram a espetáculos teatrais.

Outros dados deste inquérito revelam que cerca de 30% dos portugueses fez visitas a museus e monumentos históricos no ano anterior à pandemia, com 13% a deslocarem-se a sítios arqueológicos e 11% a galerias de arte. A grande maioria dos visitantes, 70%, tinham escolaridade superior e apenas 11% contavam com escolaridade até ao 3º ciclo. E mais de metade (58%) deslocou-se a outro concelho para visitar o museu ou monumento, com 12% a fazê-lo no estrangeiro. O estudo indica ainda que os museus de história e de arte tiveram maior afluência, seguindo-se os museus de ciência, as casas-museu, os museus multidisciplinares e de etnografia. As visitas online atraíram 14% dos inquiridos aos sites de monumentos e 13% aos dos museus.

Quanto aos espetáculos ao vivo, os festivais e as festas locais foram os que mais inquiridos assistiram (38%), seguindo-se os concertos (24%). Entre o público festivaleiro destacam-se naturalmente os mais jovens, enquanto os mais idosos são os que mais aderem às festas locais. No que respeita a géneros musicais, o inquérito assinala uma predominância do público masculino nos concertos de jazz (87%), rap e hip-hop (66%), latino-americana (64%) e pop-rock (60%), enquanto o público feminino está em maioria nos concertos de música africana e música popular brasileira (ambas com 67%), fado (60%) e música clássica (55%).

No topo do consumo cultural dos portugueses, a televisão continua a ocupar o papel principal, com 90% dos inquiridos a assumirem um consumo diário, a longa distância do que acontece com a rádio (40%) ou mesmo com a internet (41%). Quem vê televisão assiste sobretudo a programas de informação (81%), seguindo-se filmes (57%), séries (43%), telenovelas (40%), documentários (36%) e programas desportivos (33%). O acesso à internet em Portugal está ainda muito abaixo da média europeia (71% face a 87%) e com um grande fosso geracional e de rendimentos: é usada por 100% dos inquiridos entre os 15 e os 24 anos e apenas por cerca de 25% acima dos 65 anos. Os rendimentos acima de 1.500 euros mensais correspondem a taxas de utilização de internet superiores a 87%, enquanto entre quem ganha menos de 500 euros essa taxa cai para os 31%.

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