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51 dias depois, a luta contra a reforma das pensões em França não desmobiliza

No 51º primeiro dia de luta contra a reforma das pensões em França, os manifestantes voltam a sair à rua em massa. Enquanto Macron leva a lei a Conselho de Ministros, simbolicamente a Torre Eiffel encerrou. Não foi o único encerramento da semana: refinarias, portos, escolas e várias outras instalações têm sido fechadas em protesto.
Manifestantes contra a reforma das pensões de Macron. Paris, janeiro de 2020.
Manifestantes contra a reforma das pensões de Macron. Paris, janeiro de 2020. Foto: Révolution Permanent/Twitter.

É a sétima grande jornada de mobilização de um movimento contínuo de luta que conta já com 51 dias. CGT, FO, CFE-CGC, Solidaires, FSU e várias organizações de jovens e estudantes apelaram a manifestações nas grandes cidades francesas contra a reforma da pensões promovida pelo governo de Macron.

A data desta jornada coincide com a discussão do projeto em Conselho de ministros. Uma comissão parlamentar de 70 deputados vai ser nomeada a partir de dia 28, auscultando sindicatos e associações patronais e, a partir de três de fevereiro, debaterá ponto por ponto o texto. Seguir-se-á um primeiro debate parlamentar em plenário a 17 de fevereiro, estando uma primeira votação prevista para o início de março.

A greve persistente que afetava os transportes foi dando lugar a uma multiplicidade de ações de luta que se intensificaram ao longo desta semana. Tem havido desfiles de tochas, cortes de eletricidade, bloqueios de portos, refinarias e instalações de gás, invasões simbólicas das administrações portuárias, há centrais nucleares que estão a funcionar em serviços mínimos, escolas fechadas, lançamento de fardas de trabalho de várias profissões e de togas de advogados aquando de cerimónias oficiais, torres de livros escolares depositadas pelos professores entre tantas outras iniciativas.

Na quarta-feira, a biblioteca François Mitterrand foi bloqueada. Na sexta-feira passada, o presidente francês tinha sido apupado à entrada do teatro Bouffes du Nord, em Paris, onde se tinha deslocado para assistir a um espetáculo, tendo saído depois com um reforço da escolta policial.

Esta sexta-feira, em Lyon, 500 advogados organizaram uma “maré negra”, em silêncio, com cartazes a dizer “destruição massiva dos advogados”, fizeram um corredor pelo qual os participantes na cerimónia de recomeço do ano judicial tinham de passar. Em Bordéus foram 200 numa iniciativa semelhante. Também noutros pontos isto aconteceu como em Clermont Ferrand ou no Palácio de Justiça de Estraburgo, onde se recriou o Canto dos Partisans.

A CGT-Energia decidiu paralisar três incineradoras de detritos, em Ivry-sur-Seine, Issy-les-Moulineaux e Saint-Ouen, responsáveis pelo tratamento de seis mil toneladas de lixo, entre quinta-feira desta semana e a próxima segunda-feira.

Em Paris, os trabalhadores de vários símbolos culturais têm-se associado ao movimento. Esta sexta-feira foi a vez da Torre Eiffel ser fechada. É a terceira vez que o monumento fecha desde o início do movimento. Outra das ações que marcou o dia foi a coreografia das trabalhadores ferroviárias na Gare de L'Est que se tornou viral.

No que diz respeito às manifestações, em Paris a CGT reclamava a presença de entre 350 a 400 mil pessoas. Uma das presenças que se faz sempre notar não faltou à chamada: os trabalhadores da Ópera de Paris e da Comédie Française criaram, desta feita, um teatro com o presidente da República e o primeiro-ministro enquanto bailarinos.

À passagem da manifestação pelo Louvre, uma faixa a dizer “cultura em greve” cobriu o edifício.

Em Bordéus, a CGT falava em 40 mil pessoas, a polícia em 7500. Em Marselha foram 180 mil pessoas segundo os sindicatos, oito mil segundo a polícia. Em Nice seria 10 mil, diz a CGT, cerca de três mil diz a polícia. Em Toulouse seriam 95 mil segundo a CGT, 5 mil diz a prefeitura, numa manifestação “fúnebre”, encabeçada por um caixão, de enterro da justiça social e dos serviços públicos. Houve ainda manifestações significativas em Lyon e Lille. Em Rennes, onde estariam cerca de oito mil manifestantes segundo os sindicatos, a polícia lançou gás lacrimogéneo e carregou sobre a manifestação.

E dia de manifestação é também dia de greve. As escolas tiveram números de greve na ordem dos 40%, de acordo com os sindicatos. Em Paris, depois de um abrandamento da greve dos transportes, esta sexta-feira apenas três linhas de metro funcionaram normalmente, havendo perturbações também nos comboios e autocarros. Jornalistas de meios de comunicação como a Mediapart, o Libération e o Télérama fizeram também greve.

A oitava jornada de luta ficou, desde já, marcada para dia 29 de janeiro. A luta pelas pensões, essa, continuará com uma catadupa de ações previstas entretanto.

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