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1983

Mil novecentos e oitenta e três é o ano em que o tal “cancro gay” terá chegado a Portugal, é também o nome da exposição de João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira que está a decorrer na galeria “Rialto 6”, até Abril. Artigo de Bruno Maia
Performance de Symone de la Dragma na exposição “1983”. Foto Bruno Simão © publicada no site rialto6.org

Numa paragem de autocarro, uma drag queen entoa uma música do Variações, enquanto fuma um cigarro. Um caixote do lixo de plástico laranja está cheio e nas paredes estão centenas de anúncios em papel, de festas a comunicados políticos. Nas traseiras da paragem há um graffiti de má qualidade onde se pode ler: “se as putas fossem flores, esta rua era um jardim”. Chove, é de madrugada. No banco, há uma resma de jornais “Tal & Qual”, à espera para serem distribuídos. Na capa, o título: “Sida: vírus mortal aterroriza homossexuais portugueses”.

O ano é 1983. Mil novecentos e oitenta e três é também o nome da exposição de João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira que está a decorrer na galeria “Rialto 6”. Até Abril, vários artistas darão corpo a diferentes performances que acontecem no espaço da exposição: Symone de la Dragma, Jenny Larue, João Grosso e Guilherme Leal.

O ano não é um acaso. É o ano em que o tal “cancro gay” terá chegado a Portugal – quando se fez o primeiro diagnóstico. No ano seguinte morria António Variações. A homossexualidade tinha sido despenalizada em 1982. Passavam 9 anos da revolução que, segundo as palavras do general Galvão de Melo, “não se fez para prostitutas e homossexuais”.

Em Lisboa surgiam os primeiros espaços de “liberdade”, o bairro do Príncipe Real e as suas zonas de diversão noturna. Profissionais da arte, da moda, jornalistas, escritores cruzavam-se na noite, organizavam-se espetáculos de “transformismo” e, neste meio protegido e ao mesmo tempo privilegiado, falava-se de direitos e de conquistas, de igualdade, no fundo. Muitos destes e destas morreram poucos anos depois. Muitos e muitas. Os que sobreviveram, tiveram o caminho das pedras pela frente: uma doença fatal, tratamentos que nunca mais chegavam e a boa e velha discriminação!

A sida foi uma guerra e os corpos das pessoas LGBTI+ foram o seu campo de batalha. De um lado gritava-se “castigo de deus”, apoiado pelo silêncio cúmplice de Ronald Reagan (silêncio = morte, lembram-se?), pelas leis discriminatórias que Thatcher aprovava no Reino Unido (tão parecidas às de Putin!) ou pelas palavras do papa João Paulo II contra o preservativo. A história julgou-os a todos, mas não evitou as mortes aos milhões. Do outro lado, a “escumalha”, os “desviados”, os “pecadores”. Gente que queria conquistar o direito a existir mas a quem a pandemia retirou o direito de sobreviver.

Passaram 40 anos e o VIH passou a condição crónica. Ou melhor, estes 40 anos não passaram, eles conquistaram-se! Lutou-se pelo direito ao tratamento, ao acesso a medicação, pela modificação das regras da indústria farmacêutica e da forma como testavam novas substâncias, pela obrigação das autoridades de saúde ouvirem e consultarem as pessoas para as quais definiam políticas. Muitas conquistas e muitas mortes. E, desde a primeira hora, lutou-se contra a discriminação, que não é mais do que o direito a existir!

E é sobre o direito a existir que versa o projeto: “Os nomes estão todos do lado de dentro, 2022”, também do João Pedro Vale e do Nuno Alexandre Ferreira. Pedras da calçada gravadas a laser, com nomes de trans, trabalhadoras do sexo da zona do Conde Redondo e ativistas. Pedras dispostas ao longo dos passeios daquela rua que representam corpos que povoaram aquela zona da cidade durante décadas. Que também são luta e resistência pelo direito a existir e que construíram estes 40 anos. Porque se calhar o “caminho das pedras” é isso mesmo: o caminho que estes corpos percorreram ao longo dos 40 anos, que estes artistas querem “guardar”, gravando-as na pedra, e que nos permitem hoje sonhar em “construir um castelo”, um futuro um pouco mais respirável do que aquele que elas próprias encontraram, ao longo desse caminho.

Artigo de Bruno Maia

Sobre o/a autor(a)

Médico neurologista, ativista pela legalização da cannabis e da morte assistida
Termos relacionados Cultura
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