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Violência Obstétrica, um crime contra os direitos humanos

A maioria dos profissionais de obstetrícia desconhece ou ignora a fisiologia do parto normal, impondo procedimentos ou intervenções médicas, muitas vezes sem qualquer consentimento ou informação, em vez de criar as condições necessárias para que ele se desenvolva naturalmente, sem intercorrências. Artigo de Laura Ramos.
Violência Obstétrica, um crime contra os direitos humanos
Foto de Midwifery Today Int Midwife.

O que há de errado nesta imagem? Quantas mulheres (ou quantos homens?) se sentiriam confortáveis nesta posição, com uma plateia de desconhecidos à sua frente?

A primeira vez que sofri Violência Obstétrica (VO) foi no parto do meu primeiro filho, em 2013. Na altura, não sabia sequer o que isso era e demorei algum tempo a perceber o que me tinha acontecido. Uma bolsa rota sem contracções, uma cascata de intervenções, uma médica mal-disposta a contaminar o humor da equipa, a pressão para me despachar e meia dúzia de bocas e comentários desagradáveis terminariam numa cesariana, 24 horas depois de ter entrado no hospital, e quase uma hora de recobro sem ver nem tocar no meu bebé acabado de nascer. Como era inexperiente nas andanças da gravidez e do parto, cheguei a pensar que talvez tudo aquilo fosse normal, ou que se calhar tinha de ser assim, não sei... Lembro-me que a experiência me deixou angustiada e desconfortável, mas tentei esquecer e focar-me no bebé, afinal não tinha tempo para pensar noutra coisa.

Foi só depois, uns meses mais tarde, que tudo fez sentido, quando vi um trabalho fotográfico sobre VO no Brasil. Ao ver as histórias de outras mulheres, percebi os abusos físicos e psicológicos que eu própria tinha sofrido. Comecei, então, a procurar mais informação e encontrei o Michel Odent e o seu extenso trabalho no mundo da Obstetrícia. Li alguns dos seus livros e fui a Londres de propósito só para o entrevistar. Descobri as Doulas e decidi ter uma no meu segundo parto, quando não quis ouvir mais as insistências da médica em fazer uma segunda cesariana, porque tinha feito a primeira há menos de 2 anos. Com a ajuda da Doula e dos livros do Michel Odent desconstruí muitos mitos, aprendi, ganhei confiança e acabei por me tornar numa das poucas mulheres a ter um parto normal depois de uma cesariana (VBAC, que significa Vaginal Birth After Cesarean).

Por esta altura já tinha percebido que o parto não é visto nos hospitais como uma ocorrência natural, mas como uma patologia, ou seja, a mulher em trabalho de parto não é vista como uma simples parturiente, mas como uma pessoa doente. A maioria dos profissionais de obstetrícia desconhece ou ignora a fisiologia do parto normal, impondo procedimentos ou intervenções médicas, muitas vezes sem qualquer consentimento ou informação, em vez de criar as condições necessárias para que ele se desenvolva naturalmente, sem intercorrências. Na maior parte das vezes bastaria deixarem a natureza cumprir o seu papel, perturbando o mínimo possível, dando o tempo necessário à mãe e ao bebé e evitando acelerar o que é um acontecimento inevitável. É absolutamente necessário que os hospitais transmitam à mãe e ao bebé tranquilidade em vez de stress, segurança em vez de medo, e que criem as condições necessárias à libertação de oxitocina, ao invés de adrenalina, a maior responsável pelas paragens de trabalho de parto, que invariavelmente acabam em cesarianas.

Acho que nunca conseguirei perceber porque é que o meu filho teve de nascer no meio de uma “batalha campal”, com uma plateia de 6 desconhecidos a assistir, uma equipa médica e de enfermagem a coagir-me a ficar deitada, impedindo-me de adoptar a posição que eu queria, a ameaçar-me com fórceps se não fizesse força, a insistir com episiotomia, a colocar-me sob stress para me despachar, a culpabilizar-me e a ignorar todos os momentos em que pedi que não me tocassem, a cortar imediatamente o cordão umbilical apesar de eu ter pedido para o deixarem pulsar... O ambiente austero, as luzes fortes, o barulho, a quantidade de pessoas a entrar e a sair, os comentários desnecessários, as bocas e o enorme desrespeito por aquele momento solene e irrepetível que era o nascimento de um ser humano, o nascimento do meu filho.

Há qualquer coisa de muito errado nisto.

E foi precisamente por isso que decidi fazer uma petição contra a VO em Portugal. Acho que uma parte de mim precisava de confirmar se era eu que estava maluca, se a culpa tinha sido minha ou se realmente isto acontecia a mais mulheres por esse país fora.

Depois daquele parto terrível, e sendo jornalista, não podia continuar calada nem compactuar com o facto de se poderem maltratar mulheres na gravidez e/ou no parto. Sabia que não estava sozinha e que tinha de denunciar esta situação, mas não tinha certeza se conseguiria as 4 mil assinaturas necessárias para submeter uma petição à Assembleia da República. No entanto, e em apenas três dias, esse limite foi ultrapassado e a petição foi aceite em Maio de 2018, com 5656 assinaturas validadas (hoje tem 9 mil). Cerca de um ano e meio depois, a petição foi finalmente debatida no Parlamento, pouco depois de ser aprovada uma lei que reforça os cuidados à mulher na gravidez e no parto. Mas isto só não chega! É preciso reconhecer a VO como uma violação dos direitos humanos, como um crime contra a mulher, tal como já é reconhecida a Violência Doméstica.

Não é aceitável nem podemos tolerar que as mulheres sofram abusos no momento mais frágil e vulnerável das suas vidas. Não podemos considerar normal que se receba um ser humano no mundo em violência. É preciso criminalizar estas más práticas, penalizando os maus profissionais que as perpetuam.

Talvez seja um longo caminho a percorrer, mas os primeiros passos já foram dados, com a Organização Mundial de Saúde a reconhecer a existência de VO. Mas até que a VO seja considerada, de facto, um crime em Portugal, que sirva pelo menos para reflexão uma das frases mais emblemáticas de Michel Odent: “Para mudar o mundo, temos de mudar primeiro a forma como nascemos.”

A petição ainda pode ser assinada em:
https://peticaopublica.com/mobile/pview.aspx?pi=PT86154

(...)

Resto dossier

Esther Vivas é socióloga e jornalista. Em Mama Desobediente procura "politizar a maternidade".

"A esquerda não foi capaz de elaborar um discurso próprio sobre a maternidade"

"A maternidade foi sempre um tema incómodo para o feminismo". Em entrevista, Esther Vivas explica as razões pelas quais as feministas dos anos 60 e 70 caíram "num certo discurso anti-materno e anti-reprodutivo como reação à imposição do patriarcado  para que as mulheres exerçam a experiência materna". No seu último livro, afirma a mãe como "sujeito ativo, com capacidade de tomar decisões, que se reconcilia com o próprio corpo, fortalecendo-se na gravidez, parto e amamentação".

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