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Todos somos a Grécia!

Até há bem pouco tempo um pequeno partido, o Syriza é hoje a alternativa de poder no país mais castigado pelas imposições da troika. “Há já uns deslocamentos muito rápidos a acontecer na cena política. A sociedade está a procurar um caminho alternativo de saída e a manifestar-se em torno duma aliança nova, progressista, com a esquerda no seu núcleo”, disse Alexis Tsipras.
Comício do Syriza: “A situação na Grécia é tão frágil e instável que nos estamos a preparar para qualquer coisa”, disse a deputada Maria Bolari. Foto de Mikhalili

A Grécia está no olho do furacão da crise europeia, com o desfile de sacrifícios e horrores que o povo grego está a sofrer, mas também com um exemplo mundial de resistência e de luta de classes. E também de mudanças políticas. Nunca num país europeu houve reviravoltas políticas tão rápidas, correspondentes à experiência que o povo grego está a ser forçado a fazer.

Nas eleições de 17 de junho, muitas sondagens davam como certa a vitória do Syriza, um partido que em 2007 surpreendera o establishment político, então dominado pelo Pasok, ao arrancar 5,04% das eleições.

A brutal chantagem da troika sobre o povo grego, ameaçando com uma tragédia se os “radicais” vencessem, conseguiu por esta vez evitar a primeira vitória, na Europa, de um partido à esquerda da social-democracia, mas o Syriza saltaria para os 26,9%, menos de 3 por cento atrás da vitoriosa Nova Democracia. O Pasok ficou remetido ao 3º lugar, com 12,28%.

“Nós teríamos vencido as eleições se não fossem dois fatores: primeiro, a intervenção externa, que foi determinante: em segundo lugar, as enormes dificuldades que tiveram muitos dos nossos eleitores para regressar aos seus povoados e votar. Não tinham dinheiro para pagar a viagem. De qualquer forma, o essencial é que o terrorismo dos meios de comunicação conseguiu assustar as pessoas, por isso a direita ganhou”, explicaria o líder histórico da esquerda Manolis Glezos numa entrevista, meses depois.

Governo tripartido esqueceu de imediato as promessas

O governo tripartido liderado pela Nova Democracia, junto com o Pasok e a Esquerda Democrática, bem depressa mostrou ao que vinha. De um dia para o outro esqueceu-se de todas as promessas de que renegociaria as condições da dívida, e aceitou todas as imposições da troika.

“A Esquerda Democrática está agora a ser julgada”, diria depois o líder do Syriza, Alexis Tsipras. “Até ao dia das eleições, a sua posição era a de denunciar o memorando, mas no dia seguinte juntou-se por sua vontade ao sistema político estabelecido e está a mostrar tendências para se tornar mais pró-memorando do que o próprio memorando. O Pasok está a tentar salvar-se, preso na armadilha das mesmas políticas inconcebíveis em que prendeu o povo e o país. Não há nenhum futuro político para os partidos do memorando porque as políticas que assumiram executar são destrutivas e levam a um beco. Há já uns deslocamentos muito rápidos a acontecer na cena política. A sociedade está a procurar um caminho alternativo de saída e a manifestar-se em torno duma aliança nova, progressista, com a esquerda no seu núcleo”, afirmou.

Desde que a Grécia foi envolvida pela crise da dívida e começaram os Memorandos, os trabalhadores fizeram 21 greves gerais.

Maria Bolari, deputada do Syriza, disse no final do ano que o seu partido pode vir a governar nos próximos meses. “A situação na Grécia é tão frágil e instável que nos estamos a preparar para qualquer coisa”, disse. “Não achamos que vá ser fácil, não achamos que o governo vá convocar eleições por própria vontade. Portanto, o Syriza, por um lado, exige eleições para o governo; e, por outro, pede aos movimentos populares que intensifiquem as lutas e imponham as eleições desde a base”.

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Resto dossier

O Mundo em 2012

Num ano dominado pela crise europeia, a Grécia esteve no olho do furacão. Os mais atacados pela troika foram também os que mais lutaram, com 21 greves gerais em dois anos. Em julho, o  Syriza ficou a menos de 3% de ganhar as eleições, e permanece como a alternativa de governo para o país que luta. A Grécia está no centro do balanço internacional do ano do Esquerda.net. Dossier organizado por Luis Leiria.

A luta por uma Internet livre e aberta

Grandes mobilizações internacionais conseguiram suspender projetos de lei como o SOPA e o PIPA nos EUA e derrotar o ACTA, o Acordo Mundial Contra a Contrafação, no Parlamento Europeu. A espalhafatosa operação policial contra o site de partilha Megaupload também terminou com uma “megavitória” para o seu fundador, o empresário Kim Dotcom.

Putin volta à Presidência da Rússia

Presidente entre 2000 e 2007, primeiro-ministro entre 2007 e 2012, voltou à Presidência em 2012 afirmando que as eleições foram limpas, e enfrentando muita contestação da oposição. Mas a mais ruidosa oposição viria de um grupo punk-rock feminista, as Pussy Riot.

Franceses derrotam Sarkozy na segunda volta

Voto de esperança foi defraudado pelo socialista François Hollande que, apenas cem dias depois da posse, já se mostrava como “um social-liberal igual aos que já conduziram aos desastres grego, espanhol e português", nas palavras de Jean-Luc Mélenchon.

Egito: Irmandade Muçulmana assume o poder

O braço-de-ferro entre os islamitas e as Forças Armadas foi vencido pelo presidente Mohamed Morsi que, depois de vencer as eleições presidenciais, anulou a dissolução do Parlamento, demitiu os principais chefes militares e conseguiu aprovar uma nova Constituição por referendo. Só tropeçou quando tentou assumir poderes quase absolutos. A indignação popular fê-lo recuar.

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Assange resiste na embaixada do Equador

Fundador da Wikileaks foi forçado a buscar refúgio na embaixada do Equador em Londres, para não correr o risco de ir parar aos Estados Unidos, onde poderia ser condenado à morte. A partir desse pequeno apartamento, lutou para manter viva a organização e promete divulgar muitos documentos em 2013.

O PRI volta ao poder no México

Enrique Peña Nieto, candidato do PRI, obteve 38,1% dos votos e prometeu fazer um governo diferente. Um cientista político alerta que é preciso aceitar que o México é um país em guerra.

Venezuela diante da incógnita

Chávez venceu com margem confortável em outubro e o seu partido ganhou cinco governos à oposição em dezembro. Mas a possibilidade de o líder da revolução bolivariana não sobreviver à doença levanta enormes incógnitas e desafios.

Mais quatro anos para Obama

O presidente Barack Obama foi reeleito presidente dos Estados Unidos da América no dia 6 de novembro, numas eleições muito disputadas – mesmo depois de fechadas as urnas, as sondagens não se arriscavam a prever o vencedor.

Israel-Gaza: a invasão que não chegou a acontecer

Israel assassinou o chefe militar do Hamas que negociava uma trégua permanente e desencadeou uma ofensiva. Mas nunca chegou a fazer a anunciada invasão terrestre. Segundo Uri Avnery, o Hamas venceu mais este episódio do conflito.

ONU eleva Palestina a Estado observador não membro

Resolução teve 138 votos a favor, entre 193 países, e 41 abstenções. Apenas nove países votaram contra. Decisão foi uma pesada derrota para Israel e os EUA. Em represália, Israel anunciou a expansão dos colonatos e o confisco dos impostos palestinianos. No final do ano, pareciam estar reunidas as condições para uma terceira intifada.